Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 167 – por Manuela Degerine

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Entusiasmo

Durmo bem não obstante a circulação, durante toda a noite, de criaturas com lanternas, umas insones, as outras decerto sonâmbulas, as restantes preparam-se para voos baratos em horários esquisitos… O Seminário Menor é branco por dentro, higiénico como um hospital, estranho na sua vastidão – 199 camas – porém mais bonito, agradável e interessante do que qualquer hotel. (Para além de reunir tantos peregrinos, outro ponto para mim positivo: a continuação da história que vamos inventando.)

Sinto uma alegria intensa enquanto encho a mochila. A maioria dos que me rodeiam prepara-se para o regresso, despacha-se para apanhar um avião, um comboio, um autocarro, para se reunir aos familiares… Em 2010 também concluí a viagem neste Seminário mas hoje restam-me pela frente cento e vinte quilómetros: um ainda vasto espaço para mirar e palmilhar. Alguns automobilistas não imaginam o que pode caber em cento e vinte quilómetros percorridos a pé… Ignoram a vastidão do mundo.

O Caminho de Santiago tornou-se um componente do meu equilíbrio físico e psicológico. Em casa adapto-me às vontades e necessidades dos que me rodeiam, enquanto aqui nada aceito que comprometa a minha integral liberdade; a qual consiste em respeitar os limites do corpo, trazer o necessário às costas, optar por dormir aqui ou além, ir mais depressa ou mais devagar, escolher a solidão ou a companhia… Repouso-me nesta facilidade e nesta simplicidade. Regenero a aptidão para no resto do ano aturar as manias, os caprichos, as exigências dos outros: o Caminho de Santiago é um colete pneumático que amortece os choques. E, mesmo decorridos dois ou três anos, o entusiasmo que me conduziu ao alto de Minde ou de Rubiães ainda me ajuda a subir as encostas – mais rudes – da vida.

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