Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 168 – por Manuela Degerine

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Apagar e recomeçar

Todos nós sentimos, numa ou noutra circunstância, o ímpeto de virar costas às tensões, repetições, obrigações, contradições; fugir pode parecer preferível a tolerá-las, mais apetecível do que enfrentá-las e muito mais fácil do que modificá-las. Há aliás becos existênciais sem outras saídas porém, passada esta fração de segundo, a do berro, quase sempre silencioso, só me apetece desaparecer, voltamos quase todos à guerra. No entanto cada ano em cada país desaparecem indivíduos e – entre os casos declarados à polícia – alguns não foram vítimas de acidentes, suicídios, amnésias ou assassínios: optaram por sair efetivamente da sua vida. Mudaram de sexo, de  nome, de região, de aparência, de personalidade…

Tal como há o romance histórico ou o romance policial, também podemos considerar este subgénero ficcional: o romance da mudança (de vida). Estou-me a recordar, entre muitos exemplos, de um que li na tradução francesa: Miyabe Miyuki, “Une carte pour l’enfer” (Arles, Éditions Philippe Picquier, collection de Poche, 2001). Recomeçar a vida é como o crime perfeito, falha quase sempre, haverá todavia tentativas bem sucedidas, embora quem foge leve a mais pesada das bagagens, isto é, a incapacidade para ultrapassar as contradições; pode portanto repetir o mesmo noutros lugares e com outros parceiros. Ou não. Sem embargo dos chips, câmaras, análises do ADN, resta uma margem para a imaginação. E todas as tentativas – sobretudo as falhadas – constituem estados, figuras, situações que podem interessar os ficcionistas.

No que me diz respeito… Espero sair deste mundo paralelo e voltar à minha vida habitual. Encontrei na caminhada um espaço de respiração porém, como gosto de partir, também gosto de regressar a casa: é onde escrevo. E esta razão bastará para eu voltar a Lisboa muito feliz.

Entretanto a perspetiva de atravessar – daqui a pouco – campos, aldeias, bosques dá-me vontade de sorrir às paredes e ao polaco… Que passa por mim no corredor. Lanço-lhe em galego:

– Bos días!

(E, perante a cara que ele faz, consigo conter a gargalhada.)

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