O livro – crónica de uma morte anunciada – por Carlos Loures

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Foi em 1988 que comprei o texto gravado de O Delfim, de José Cardoso Pires, lido pelo actor Luís Lucas (com a vantagem de poder ser apreciado por invisuais). Conservo essa edição em quatro cassetes, mas já não tenho um leitor onde elas possam ser lidas. Apareceram depois edições em vídeo, primeiro no standard Beta e depois no VHS: já não tenho leitores nem para um nem para outro.  Agora  a ameaça dá pelo nome de Kindle, havendo autores americanos que, como Dan Brown, lançam as suas obras simultaneamente em versão impressa e em versão electrónica, no formato e-book. Até quando poderão estes novos «livros» ser consultados? .

Enquanto as invenções se vão sucedendo e mutuamente neutralizando, se tivermos conhecimentos de paleografia, podemos ler um incunábulo com quinhentos anos ou um códice com mil. Não apareceu ainda invenção que destrone o velho livro. Lê-lo depende do nosso saber. Do saber e de uma «tecnologia» com que todos vimos equipados – os olhos ou os dedos no caso dos invisuais. Não necessita  de um dispositivo que ficará obsoleto pouco depois de ter aparecido no mercado e que, passada uma década não poderá sequer ser lido. Porém, o livro electrónico parece estar a pegar – não destronará o livro impresso, mas pode criar uma linha de evolução paralela – desde que os computadores do futuro permitam ler a informação produzida hoje em dia, com softwares que estão a sofrer actualizações frequentes.

É com uma sensação de volúpia que pessoas de gerações anteriores, manuseiam o livro, aspiram o odor da tinta, apreciam a textura e a gramagem do papel…É uma relação afectiva que já não se verifica com as novas gerações. Estas estão preparadas para acolher novos suportes de leitura. sem preconceitos; mas é preciso que esses novos suportes existam. Tudo o que vai aparecendo não substitui o livro impresso.  Diz Umberto Eco que o livro é uma daquelas invenções consolidadas que, como a roda, como a colher, como o machado, nunca serão substituídas.

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