EDITORIAL – UMA CAUSA FRACTURANTE NÃO VEM SÓ

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O PSD aprovou a realização de um referendo sobre a adopção e a co-adopção por casais do mesmo sexo.  Aprovou-a sozinho. O CDS absteve-se, e os restantes partidos representados no parlamento votaram contra. Vários deputados do PSD e do CDS fizeram declarações de voto, porque, alegam, votaram contra as suas consciências, para respeitarem a disciplina de voto. Algumas pessoas chamaram a atenção para que, concorde-se ou não com a questão em causa, trata-se de fazer um referendo sobre os direitos civis de que usufruem todos os cidadãos, à face da lei. Outros recordaram que a Assembleia da República vem, desde há meses, trabalhando em legislação sobre o assunto, e que a introdução deste referendo vem pôr em causa a sua própria autoridade, num sistema que se diz de democracia representativa.

Não será com certeza excessivo reflectir um pouco sobre este assunto. Porquê um referendo sobre esta matéria e não sobre o corte das pensões? Ou sobre a adesão de Portugal aos tratados europeus? Seria muito mais apropriado, em qualquer dos casos. O corte das pensões rompe com uma obrigação do estado e da sociedade para com um grande número de pessoas e respectivas famílias, que estão a pagar por falhas que não cometeram, e os tratados europeus, esses então dizem respeito a toda a população, e afectam decisivamente o seu fututo. Pois…

Aproximam-se eleições, e nada como uma causa que faz apelo a um certo número de instintos e preconceitos para lançar a confusão nas intenções de voto. O ambiente à volta do referendo criará condições propícias para, por exemplo, assimilar as posições dos que votam a favor da adopção e co-adopção por casais do mesmo sexo às dos que estão contra a política da austeridade. Para tal contarão factores de peso, como a posição da Igreja Católica, que é contra aquela ideia, e reclama o referendo.  Vejam em:

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=29&did=135857

3 Comments

  1. Claro, desviar as atenção do que é mais fulcral neste momento – a sobrevivência com os cortes sucessivos nas reformas e ordenados. E dividir para reinar…E claro, o papel da igreja católica. Mas de nem todos: Januário Torgal disse: “Os católicos deste governo não deviam comungar”. Mas que “poder” tem ele agora, reformado? Tem o de falar e ser ouvido. Poder dele e de todos nós.

  2. Convém esclarecer que o que tem estado em discussão na AR e já obteve uma primeira aprovação, aquilo que o PSD quer, enviesada e aleivosamente, subverter é apenas a co-adopção, por um dos elementos de um casal homossexual, do(s) filho(s) do outro elemento. A segunda questão da proposta de referendo hoje aprovada não tem outra intenção que não seja baralhar os cidadãos que participem nessa eventual “consulta”, misturando a “co-adopção” – que estava em vias de aprovação – com a “adopção”, que provoca, nos espíritos simples e obscurecidos pelos “biguebráderes”, sobressaltos muito mais tremebundos.
    Isto é, do que se trata aqui é, tão-somente, de salvaguardar os DIREITOS EFECTIVOS de crianças integradas em famílias que JÁ existem ou virão a constituir-se, sem qualquer “adopção por um casal”.
    Se, p.e., falecer a mãe ou o pai de uma criança integrada numa família de parceiros do mesmo sexo, o parceiro sobrevivo – a quem, em geral, a criança estará ligada afectivamente, a parte da FAMÍLIA REAL que deveria constituir o apoio mais forte, imediato e directo dessa criança, na continuidade do que é normal numa família, e cuja ausência será mais um trauma a somar ao desaparecimento de um ente querido – NÃO TERÁ NENHUM VÍNCULO LEGAL À CRIANÇA NEM QUAISQUER DIREITOS em relação a ela, do mesmo modo que a criança se verá DESTITUÍDA DO DIREITO de permanecer junto de quem continuará a constituir a SUA FAMÍLIA. O destino de uma criança nestas condições será a entrega à guarda de familiares MENOS próximos (eventualmente hostis à formação do casal homossexual, que lhe dificultarão a integração e induzirão reacções adversas da parte dela), a institucionalização ou a entrega a uma “família de acolhimento” (de desconhecidos), tudo o que há de menos recomendável para quem já está em sofrimento.
    O que se pretende, com um frieza de assassino em série ou de criminoso nazi, é criar todas as condições para a infelicidade e a desintegração social da criança; e, se for mais do que uma, talvez ainda se lhe acrescente a separação de irmãos!
    É esta crueldade sem nome que os opositores de algo que nem deveria ser posto em causa pretendem que se cometa CONTRA AS CRIANÇAS que dizem querer “defender”. Antecipação criminosa onde se encontram com os fanáticos religiosos que ainda predominam na hierarquia da Igreja Católica em Portugal e de que pelo menos um dos representantes veio publicamente pavonear a sua felicidade com esta aprovação.
    Esperemos que o TC impeça a prossecução do crime, já que o actual PR parece fazer parte da seita dos fanatizados. Senão, terão de ser as instâncias jurídicas da UE a impor a esta caterva de atrasados mentais e segregadores de ódios o respeito pelos verdadeiros direitos das crianças.
    O que é irónico é perceber que este conjunto amorfo de criaturas que se esganiçam na “perseguição do pecado”, em nome de uma doutrina religiosa que dizem professar, é constituído por farsantes que, de facto, acreditarão em tudo menos na tal doutrina… Senão, não cometeriam tais actos – esses sim, pecaminosos – contra os seus semelhantes, já que, aferindo-os com as recomendações de um tal Jesus de Nazaré, de que se afirmam seguidores mas que estão constantemente a deturpar, temeriam, ao menos, a sua inelutável condenação aos infernos mais profundos e enchurrascados…

  3. Desculpem, Clara e Paulo, só hoje vir responder aos vossos comentários. Estou plenamente de acordo com o que que dizem. Só insisto num ponto: parece-me que a intenção profunda por de trás desta cena não é a matéria em si, mas provocar mais confusão para as próximas eleições, levando as pessoas que têm menos disponibilidade para reflectir sobre as questões em causa, a alterar as suas posições. Alguns, que não são assim tão poucos, de convicções mais tradicionais, mas chocados com os cortes e despedimentos às cegas, serão levadas a alterar as suas prioridades, de modo a no seu voto considerarem mais um problema do que outro. Com um empurrãozinho da Igreja… É evidente a falta de escrúpulo que está por detrás desta iniciativa, no meu entender. Os efeitos para os adultos e crianças são incalculáveis, até por todo o ruído excessivo provocado.

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