CONTOS & CRÓNICAS – “FORA DE ÓRBITA” – por Catarina Pereira

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O raio atravessou minha cabeça bem no meio da testa. Olhos arregalados, me estatelei no sofá. Ele chegou bem perto e conferiu o sucesso da missão, antes de correr para o escritório aos gritos de “pai, eliminei outro alienígena”.

Levantei-me num pulo no momento exato em que ele voltava para a sala, arrastando o pai pela mão. Ao me ver tão em pé, tão recuperada, se jogou no chão esganiçando, “você não pode viver de novo, minha arma é altamente mortífera”.

O pai o arrancou do tapete para o colo. Os olhos dos dois me faiscaram em violeta e azul.

Mais uma vez, a culpada era eu por não ficar morta o tempo que ele desejava (para sempre). Vai esperando, garoto. Beijei de leve a bochecha do grande, pedi desculpas.

Perguntei ao pequeno, se eu morrer, quem vai fazer o jantar? Você não está com fome? Ele se encolheu, choramingou um não, eu pensei foda-se, mas disse vou fazer uma lasanha bem gostosa para nós. E fui enfiar a cabeça na geladeira em busca de carne, temperos e sobras, ainda que minguadas, da minha paciência.

Da cozinha, podia ouvir as gargalhadas. Eles são bem parecidos, embora a semelhança não seja de feições. É nas formas dos corpos magricelos, no jeito de rir, de andar, nas preferências. No rosto, só o colorido dos olhos. De resto, o garoto, cabelos pretos encaracolados, é a cara da mãe, que nos vigia vinte e quatro horas do porta-retrato, no quarto azulão transformado em espaço sideral.A foto, ele trouxe no dia em que nos conhecemos. Nela os três esbanjam felicidade, abraçados à sombra de coqueiros numa praia nordestina. O pai achou uma graça constrangida, “sabe como é, né, coisa de criança”. Não, não sei. Mas sei como é ex-mulher magoada. E aquela, eu podia jurar, era uma delas.

Como se um menino de seis anos já não fosse pentelhação suficiente. Detesto cozinhar. Especialmente lasanha. Queimo meus dedos com a massa, nunca sei o que vai em cima do quê. Mas estou apaixonada. E eles adoram. Então, todo sábado tem lasanha no jantar.

De vez em quando, em meio ao refogado, ganho um abraço por trás, um beijo na nuca, um carinho nos seios. Nada excitante demais. Sábado não tem sexo. Nem de madrugada. “Sabe como é, né, o menino pode acordar”.

Empilhei os ingredientes da lasanha da forma que me pareceu mais razoável: massa, carne moída, presunto, queijo, massa. Espalhei muito parmesão ralado por cima de tudo. Forno para gratinar.

Avisei aos dois que o jantar estaria pronto em dez minutos, embora saiba que, quando estão caçando extraterrestres em Marte, eles não entendem minha língua.

Tomei uma ducha rápida e espalhei no corpo meu hidratante mais perfumado. Short e camiseta regata, juntei-me a eles em frente ao computador até o garoto reclamar, “pô, pai, você tá jogando tudo errado”.

Os marcianos acabaram vencendo a batalha, o que me deixou, ET rancorosa, em posição de exigir. Declarei a guerra suspensa até depois do jantar e mandei os dois para a mesa.

Em poucos meses minha convivência com o menino evoluiu horrores. Da cara de catarro de rato nas primeiras semanas, me transmutei na alienígena mais caçada da superfície da Terra.

Pobre anjo traumatizado, ele me mata ao menos trinta vezes a cada sábado. E fica emputecido se o pai não me vê morta. De qualquer maneira, me reconhece como um ser superior e, às vezes, até me obedece.

A lasanha fumegante fez os dois sorrirem juntos, daquele jeito igual, espremendo os cantos dos olhos e mostrando os dentes ou, no caso do pequeno, o espaço vazio onde deveriam estar os dentes.

Servi os três pratos e devolvi a travessa ao forno. Antes de me sentar, porém, o menino já estava de pé, cochichando ao ouvido do pai. Despachado de volta à cadeira, remexendo com as mãos a comida quente, ele separou e comeu apenas as fatias de presunto e o parmesão gratinado. O pai, cabeça mergulhada na lasanha, não percebeu. Ou fingiu que. A intuição, poder terráqueo vulgar, me paralisou.

Em poucos minutos, as lágrimas saltaram dos olhos como num desenho animado e a cantilena começou. Deu para entender, entre os soluços, que a lasanha da mãe dele é mais gostosa que a minha. Eu deveria ter dito, bom pra você que a mamãe sabe cozinhar, mas disse então não come, seu chato, sobra mais pra mim. Ele empurrou o prato na minha direção. Tirei o prato da mesa gritando que ele comia minha lasanha há meses, que estava era com o bucho cheio de porcaria. Ele se jogou de novo no tapete, eu tive vontade de fazer o mesmo, mas não fiz, é claro, já era bem ruim chorar diante dos dois. Ao invés, encarei o pai que mal conseguiu se levantar da cadeira, aparvalhado, e disparei para o nosso quarto.

Não sei quanto tempo se passou até as coisas se acalmarem. Sei que dormi de pura exaustão e acordei em meio a beijos, bolinações e pedidos de desculpas pelo comportamento do menino. Retribuí tudo, beijos, bolinações, desculpas e, quando o senti ressonar tranqüilo, saí do quarto sem fazer ruído.

Andei pela casa no escuro, só acendi a luz da cozinha, depois de fechar a porta. Estava com fome e sede. Tomei um copo de suco de laranja, peguei uma banana e comecei a descascá-la pensando na cena ridícula, no que o garoto contaria para a mãe, nos telefonemas que a mãe daria com prazer disfarçado para o pai, no que o pai não me diria. Um círculo vicioso de dar enjôo.

Na última mordida da banana, olhar vagando pela pia entulhada de louça suja, dei com a embalagem de molho branco. Intocada. E o molho deveria estar em algum lugar dentro da maldita sanha. Falta leve. Se ao lado da caixa de molho, não estivesse, também esquecido, o pacote de sal.

O garoto tinha razão. Mas não precisava mexericar no ouvido do pai. Tudo bem, comida nsossa. A gente joga sal ou pede uma pizza. Era só dizer.

Antes de me deitar, fui dar uma espiada nele. Ao lado da cama-foguete, o abajur projetava um planeta vermelho no teto. Luas, estrelas e naves espaciais fosforesciam nas paredes. Na pequena estante sob a janela fechada, o porta-retrato em prata polida refletia uma luz tênue. Da fotografia, envoltos na penumbra, nenhum deles podia me ver.

Bermudão, colcha enrolada nas pernas finas, segurando uma das mãos do monstro de pelúcia verde com quatro longos braços, ele dormia de bruços, o rosto afundado no travesseiro, xatamente na mesma posição em que eu havia deixado o pai, no quarto em frente. Exceto pelo monstro.

Sentei-me devagar na beira da cama, ele suspirou no meio do sono. Passei a mão pelos seus cabelos e disse baixinho, desculpa, cara, foi mal.

Mas pensei, quase sem querer, que não cabemos no mesmo mundo. Cedo ou tarde, um de nós vai ser abduzido.

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