PENSAR DIFERENTE, IMPACTOS HUMANITÁRIOS DA CRISE ECONÓMICA NA EUROPA – UM RELATÓRIO DA CRUZ VERMELHA INTERNACIONAL E DO CRESCENTE VERMELHO (EXCERTOS).

Selecção, tradução, organização e introdução por Júlio Marques Mota

IFRC-logo

Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa

Um relatório da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho (excertos)

PARTE XIV
(CONTINUAÇÃO)

O mal-estar social pode desencadear confrontos sociais

Para além das consequências a nível pessoal, há ainda o risco de que as taxas de desemprego elevado possam levar à agitação social. O gráfico da OIT mostra que o risco de agitação social aumentou de 12 por cento na Europa, do Conselho, risco para o qual a Cruz Vermelha Internacional e o Crescente Vermelho alertaram no início de 2013.

“Se os números do desemprego não começarem a descer, então as pessoas tornar-se-ão socialmente instáveis,” diz Bekele Geleta, secretária-geral da IFRC.

” Na análise da crise eu não eliminaria a exclusão social, as tensões, a inquietação e a agitação social, uma vez que se as pessoas não têm nada que fazer, ou seja, não têm emprego e se elas não vêem nenhuma perspectiva de futuro, isto é agitação mental, isto é agitação política,” disse ela.

cruz vermelha - IX

Nota: A escala do índice vai de 0 por cento a 100 por cento, com 100 por cento, a representar o maior risco de agitação social. O gráfico refere-se ao aumento ou diminuição do risco de agitação social em pontos percentuais. As barras de referem-se as médias simples em todas as regiões.

Fonte: IILS calculations based on Gallup World Poll Data, 2013.

O risco de agitação social é um indicador composto, estimado pelo Instituto com base nos dados de pesquisa que abrange várias dimensões da percepção das pessoas quanto às suas próprias vidas. Estas dimensões incluem, em particular, a confiança no governo, percepções sobre se os padrões de vida estão a melhorar ou não, e avaliação das pessoas sobre a situação no mercado de trabalho (ver OIT, World of Work Report 2012). O risco estimado de agitação social é, portanto, qualitativo na sua natureza. Importante, é o facto de que a realidade sugere que as alterações no risco de agitação social – como acima estimado – estão fortemente associadas com as mudanças nas taxas de desemprego e de desigualdade de rendimento (como é medido pelo coeficiente de Gini). Por outro lado, as alterações no risco de agitação social estão fracamente associadas com flutuações no crescimento económico.

O diretor-geral do Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC), Yves Daccord, referiu-se a esta situação, de forma semelhante durante um encontro organizado pela Cruz Vermelha finlandesa em Julho de 2013. “A Europa tem um longo registo de manutenção de uma plausível confiança no futuro dos seus jovens, mesmo durante crise económica e social. Nada mais. Com os preços a subirem e com o desemprego a aumentar de forma galopante, os jovens citadinos já não vejam nenhum futuro para si mesmos, e os governos começam a perder a credibilidade e a sua própria legitimidade,” disse ele, advertindo que algo de dramático pode acontecer na Europa.

” Nós iremos ver algo a acontecer. Não necessariamente uma repetição do que aconteceu algures, onde as pessoas gritaram por liberdade, mas vamos ver alguma coisa. Está já a haver muita pressão dirigida contra os governos e muita pressão sobre a Cruz Vermelha para que esta se reposicione de acordo com a nova realidade europeia.”

O desemprego juvenil é de uma particular gravidade em toda a Europa com estatísticas impressionantes e em que nalguns países se atinge mesmo mais de 60 por cento. Esta tendência é claramente bem definida em países como a Espanha e a Grécia, mas países como a Sérvia, Bósnia e Herzegovina estão agora também eles a apresentar números que nos dão as taxas de desemprego de jovens a serem mais de 50 por cento. Mesmo economias mais fortes como a Suécia e o Luxemburgo tem taxas de desemprego juvenil de quase 20 por cento, e apenas cinco dos países com estatísticas disponíveis têm valores de um só dígito .

A erosão fiscal a atirar as pessoas pela borda fora

Embora a geração mais velha pareça ir melhor que a juventude em geral, de acordo com o mais recente relatório da OCDE, a geração de mais de 50 e sem trabalho é de uma grande preocupação real para a IFRC . Muitos deles são chefes de família e os despedimentos tem consequências para toda a família. Ao mesmo tempo, os sistemas de segurança social são muitas vezes tensos ou com base na realidade pré-crise, onde as taxas de desemprego eram muito menores. Nalguns países, e não poucos, as pessoas desempregadas precisam de vender quaisquer bens pessoais de valor que eles tenham para se poderem qualificar para os subsídios da Segurança Social.

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A taxa a que subiram os números do desemprego nos últimos 24 meses é uma indicação de que a crise se está a aprofundar, tendo como consequência a existência de graves custos pessoais e de uma possível agitação e posições de extremismo como um risco. Isto combinado com o aumento do custo de vida, é uma combinação de dados altamente perigosa.

A Cruz Vermelha romena tem observado que os salários médios diminuíram cerca de 25% desde o início da crise, enquanto o custo de vida aumentou em quase um terço. Esta erosão fiscal significa que a crise afectou praticamente 70 por cento da população; a Cruz Vermelha romena está actualmente a distribuir alimentos para cerca de 94.000 famílias.

Em Junho de 2013 a Cruz Vermelha espanhola informava que há mais de 1,8 milhões de lares em idade activa que não têm ninguém com emprego.

(continua)

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Para ler a parte XIII deste trabalho, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá:

PENSAR DIFERENTE, IMPACTOS HUMANITÁRIOS DA CRISE ECONÓMICA NA EUROPA – UM RELATÓRIO DA CRUZ VERMELHA INTERNACIONAL E DO CRESCENTE VERMELHO (EXCERTOS).

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