Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 177 – por Manuela Degerine

Três peregrinos

Imagem1Enterrou as pernas até acima do joelho mas aproveitou a fonte providencial: lavou tudo o que enchera de lama. Não é homem que se atrapalhe… Busca peúgas secas na bagagem, veste as calças bem torcidas, calça as botas bem molhadas, suspende o resto na mochila e parte bem enfeitado. Eu sento-me no banco, como uma banana, oiço o silêncio, medito um pouco… Não me apetece muito enfiar as pernas na vasa. Raras são as fontes à saída dos bosques e caminhar com lama – que tem pedras – dentro das botas dá de imediato bolhas. Mesmo que não desse… O espanhol envasou-se até à coxa porém eu desaparecia no pântano.

Surge o coreano todo de preto vestido. (Como ontem.) Não sorri, não diz olá… Ter-me-ei tornado transparente? Começo a perceber a falta de simpatia que inspira; e que ontem me surpreendeu porquanto o ambiente é aqui de tolerância. No entanto… A caranca desdenhosa, a fisionomia arrogante, esta atitude tão antipática não devem passar de um conglomerado de timidez, solidão e mal-entendidos. Haverá quem aguente trinta e tal dias de esforço – à chuva – sem  desopilar os fígados?

No resto da etapa atravessamos prados com vacas e povoações com vacarias. O tempo ficou ventoso, esta manhã choveu, sentimos às vezes uns borrifos, no resto do tempo chega a haver sol – mas breve e pálido. Esvazio a primeira caixa de salada em Vilasério, percorridos cerca de treze quilómetros e, duas horas mais tarde, a segunda em Santa Marinha.

Continuo com um apetite prodigioso. Para além da massa – ou arroz – com queijo e legumes, continuo a comer iogurte (mais fácil de transportar do que leite), fruta seca, fruta fresca e, de quando em vez: um retângulo de chocolate. Mantenho uma excelente forma física e psíquica. Pieter garantiu-me que a caminhada produz no cérebro um efeito euforizante… Terá de facto razão.

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