CONTOS &CRÓNICAS – “Serena” – por Margarida Ruivaco

                                                    

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Caros Srs. Drs. Advogados

Caros Srs. Drs. Psiquiatras

Caro Sr. Dr. Juiz

Fazem hoje trinta e cinco anos e três dias que me internaram na casa dos malucos. À força, e sem razão. Quer dizer que, já lá vão trinta e sete anos, cinco meses e seis dias, desde que a enterrei, e aqui está a prova. A prova da vida que me tiraram, e que agora vão ter de devolver, olho por olho, dente por dente. Sangue por sangue.

Porque eu tinha vinte e dois anos, e não estava maluco, apenas a querer viver e amar. Porque é certo que a conheci, nas noites em que pescava sozinho nas arribas, só eu e as gaivotas. E é certo que a voltei a ver, noites e noites e noites a fio, e era só eu, ela e as gaivotas.

E demonstro que a amei, e que nela fiz um filho, que não dá para ver na foto anexa, de tão pequeno que era, mas que se quiserem ver, é uma questão de procurarem melhor, e que foi por ele que decidimos sair da água, para poder cuidar dela e dele, como um pai de família faz.

Pelo que, caros senhores doutores, não estava maluco, quando me encontraram a chorar, desesperado, ( e assim fiquei por meses, não de loucura, mas de perda do amor de uma vida), e não estive maluco todos estes anos em que mantiveram cativo, prolongando sucessivamente a pena a que me sujeitaram.

E assim hoje aqui volto, aonde nunca quiseram vir, confirmar tudo o que disse,  e por isso hoje, três dias depois de decidirem que não estava mais doente, volto aqui para cometer, pois, o crime que justifique a pena.

Se a minha pena não foi tê-la deixado morrer ( porque nunca me disseram que não vivem mais de uma lua fora da água), mas sim loucura, por afirmar uma coisa que ninguém quis acreditar, mando-vos a nota a todos, em jeito de preparação: sei onde moram, (para onde remeto estas cartas), e irei procurar-vos. Pagarão num breve minuto, o que eu paguei em tantos anos. Será um tiro certeiro, não deverão sentir muita dor.

Depois, se me quiserem encontrar, estarei aqui, deitado ao lado dela, na falésia, mas será tarde, para me prenderem de novo.

Peço só para nos deixarem repousar juntos, para sempre.

Não cedo os nossos cadáveres para doação, nem investigação.

Cumprimentos

Amadeu Infortunato

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