Os «cavalos de Tróia» no interior da praça da edição – por Carlos Loures

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Nesta questão da crise do livro a verdade objectiva tem contornos estranhos – há, de facto, uma crise. Sempre houve. Porém, nunca se vendeu tanto livro como actualmente. Não perguntem se a qualidade média das edições subiu ou baixou. Estamos apenas a falar de quantidade. Crise do livro? – Sem dúvida! Resultante de muitas crises: da crise estrutural do sector, sobretudo de uma deficiente articulação entre os diferentes agentes que intervêm no percurso entre o autor e o público – editor, distribuidor e livreiro.

A tal crise endémica do sector livreiro, agravada pela crise económica que obriga os cidadãos a reordenar as suas prioridades, tem para além de causas exteriores, erros cometidos pelas pequenas empresas. Um dos erros mais comuns é o da falta de especialização das editoras médias e pequenas, a tentação generalista, a ausência de concentração em linhas editoriais específicas – direito, medicina, culinária, pedagogia, economia, ficção… – a busca de nichos de mercado, que seria a grande solução para as pequenas e micro editoras. Muitos pequenos editores,  publicando vinte ou trinta títulos por ano, persistem em abarcar todo o imenso leque do conhecimento. Divertem-se, mas arruínam-se..

Os autores, que quase nunca vêem o livro como um produto que vai ter de ser vendido; os editores que não se especializam; os distribuidores que cobram percentagens elevadas, mas que nem sempre pagam aos editores a tempo e horas (isto, quando pagam); os livreiros que, muitas vezes, carecem de formação que os habilite a um comércio tão específico; o grande público que não coloca o livro dentro das suas prioridades culturais. De montante a jusante, estes parecem ser os principais culpados. Mas falta aqui o principal culpado. O Estado, obviamente. Para quando um governo que estabeleça uma verdadeira política cultural? Que desde o pré-escolar apresente o livro como um amigo indispensável. Que sistematize as compras institucionais – a rede de bibliotecas facilmente absorveria edições pequenas. Livros que não sendo viáveis no circuito comercial, devam ou, pelo menos, mereçam ser editados. Um Estado que desenvolvesse uma política do livro, poderia resolver grande parte da tal crise do sector.

2 Comments

  1. Carlos
    Subscrevo o conteúdo do teu texto, naturalmente (mas não subscrevo a forma de conjugação do verbo ver que utilizas, parecendo seguir o estilo do jornal Público), assim como não resisto a lembrar um livro que se debruça sobre esta problemática e que não teve a repercussão que deveria ter tido, que é da autoria do Arsénio Mota, «Letras sob Protesto», editado pela Campo das Letras, em Outubro de 2003. Haverá outra obra de autor português que melhor trate o tema? Não conheço, embora admita que possa existir.

    1. Uma gralha, vêem. Já está emendado. Muito obrigado.Aliás, é uma das nossas muitas lacunas – a falta de revisão aos textos – o lugar de revisor (a) está vago. Não sigo os critérios do Público – prefiro os de Lindley Cintra, por exemplo. Quanto à bibliografia e sem emitir juízos de valor ou fazer comparações, lembro também as obras de Jorge Manuel Martins (Profissões do Livro) ou a de José Afonso Furtado (O que é o livro).

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