FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e, como tal, premiadas – Iª Parte – D

A propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut

(CONTINUAÇÃO)

Mais eis que nos interrogam sobre este raciocínio relativamente provocador face ao que nos dizem os media, de que a retoma já começou o seu caminho, de que a crise já se ultrapassou ali ao virar da esquina. Não foi de resto este espectáculo degradante que vimos na televisão “ontem” com prémios e elogios de uns para com outros em Espanha, quando dezenas de cidades estavam já socialmente a arder e por causa das políticas de austeridade, e sobre estas políticas estavam-se todos a elogiar, Durão Barroso, Passos Coelho, Rajoy. Recordei-me então da queda do fascismo com o famoso encontro entre generais do poder fascista, um dos actos últimos no estertor do regime.

Quanto à crise já ter ou não ultrapassado, a primeira coisa então a fazer seria saber quais as origens dos sinais de retoma para no fundo saber se estes podem ou não ser impulsionados, acelerados. Mas não, nada disto, tudo é pura mecânica, porque resulta igualmente da pura mecânica dos mercados. Nada a informar, portanto, uma vez que os nossos arautos da dita boa nova nada têm a informar. Mas olhemos para um jornal outrora de centro-esquerda, o jornal Le Monde, que fez a viragem política à direita com o seu candidato de preferência, François Hollande, pelos vistos a uma velocidade bem menor do que aquela a que esse se desloca para a direita, sobretudo depois desta última aceleração feita pelo actual Presidente, saudado este pelo Presidente da Confederação do Patronato francês porque Hollande se apresenta agora a querer levar à prática o programa que o patronato francês lhe apresentou em Novembro passado! E queixamo-nos nós do nosso! Mas que nos diz o Le Monde sobre as perspectivas de 2014:

“2014, ano de riscos para a economia mundial

Figura I) Variações trimestrais do PIB em 2013 e projecções para 2014 (em %)

maldade - III

O sentido da recuperação é confirmado na viragem do ano 2013-2014, mas isso não acontece por todo o lado ao mesmo ritmo. Nas economias avançadas, os Estados Unidos e o Reino Unido saem fora do conjunto. ” O investimento está aí sustentado, o caderno de encomendas está cheio, o emprego aumenta e indústria está a recuperar. Esta é “uma verdadeira retoma”, analisa Patrick Artus, economista-chefe do Natixis. Noutros lugares, em particular na zona euro, a recuperação é ‘lenta’ mesmo que os grandes países deveriam todos voltar a ter crescimento.

Nos países emergentes, relativamente aos quais em meados de Dezembro de 2013 observava Denis Ferrand (Coe-Rexecode), ‘ainda contribuíram em quase (3/4) do crescimento mundial no terceiro trimestre de 2013’, a actividade terá sobretudo resistido na Ásia a partir do “sobressalto” chinês do Verão e diminuiu noutros lugares. Estas diferenças devem continuar a verificar-se.

Mas se a crise de 2008 se afasta, significativos riscos ainda pesam sobre o crescimento, devido à ausência de uma verdadeira retoma do comércio mundial.

Uma recaída da economia japonesa enfraqueceria as economias asiáticas. No Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe não está ainda fora de perigo, ou seja, de se manter como desde há mais de quinze anos, em deflação. O Banco do Japão também anunciou em 21 de Novembro de 2013, a manutenção da sua política monetária ultra-acomodatícia para apoiar o crescimento e fazer subir os preços em cerca de 2% dentro no espaço de dois anos . O ritmo de crescimento da actividade económica, ainda agora mal encontrado desacelerou no terceiro trimestre. No entanto, o volume do produto interno bruto (PIB) recuperou o seu nível de pré-crise e a indústria recupera, embora lentamente, mas está a recuperar . A economia beneficia de um efeito riqueza, com o aumento de 30% nos preços dos imóveis e mais de 50% do Nikkei em 2013.

” Mas não há verdadeiramente suporte do crescimento e os salários reais continuam a cair “, observa Artus . A seus olhos, o verdadeiro juiz da ” Abenomics ” estará na forma como o país vai absorver o aumento de 3 pontos percentuais do aumento no IVA a 1 de Abril. Se estes três pontos são tomados a partir da poupança, então poderá sair para a retoma. Se eles incidirem sobre o consumo, isso poderia levar o Japão para recessão, como foi o caso durante a grande crise asiática de 1997. Esta seria uma má notícia para a Ásia, disse Artus .

Uma crise monetária ainda é possível nalguns países emergentes. O principal desafio para estes países é o de encontrar um novo modelo de crescimento. Isto é verdade na China, onde a rápida urbanização não terá os mesmos efeitos benéficos sobre a actividade que uma subida na gama da economia, mas também no Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul ou na Turquia.

Estes últimos foram afectados na Primavera de 2013 pela crise financeira relacionada com a saída de capitais, devido à expectativa de uma contenção na política monetária dos EUA. Nesses países, a produção não conseguiu acompanhar a procura, que estava a ser impulsionada pela expansão do crédito, devido à existência de problemas estruturais, como as insuficiências de infraestruturas de transportes ou de infraestruturas da rede eléctrica e os défices externos ampliaram-se acentuadamente. Esta degradação, que não tranquiliza em nada os investidores , levou a uma queda no mercado de câmbio e a uma desaceleração económica.

A Indonésia, por exemplo, não está imune a uma crise cambial por falta de reservas cambiais. Outros países, como a Índia, enfrentam um menor crescimento e uma inflação mais elevada. Dois obstáculos em que o Federal Reserve indiano tem uma expressiva dificuldade em resolver.

A zona do euro continua frágil. A saída da recessão foi confirmada no terceiro trimestre de 2013, mas a recuperação, com poucas excepções, não é nada forte.

O clima da actividade económica assim como as expectativas das famílias e das empresas continuam a melhorar. Este é um bom ponto. A menor consolidação orçamental (vários países, incluindo a França obtiveram autorizações para reduzirem o ritmo de contracção orçamental) e a necessidade de renovar as capacidades de produção devem ajudar, de acordo com o INSEE , a que haja um ” crescimento moderado , apesar do mercado trabalho degradado ” .

” Mas o crescimento permanece relativamente baixo, muito baixo em qualquer caso, para financiar os nossos modelos sociais que pressupõem o pleno emprego, de acordo com Philippe Waechter , director de pesquisa económica no Natixis Asset Management. O ponto-chave é o investimento . O desafio para os governos é o desafio de criar as condições para o seu reinício de expansão da actividade afim de gerar ganhos de produtividade e de influenciar o ciclo económico à alta. “

Apesar dos sinais inegáveis de melhoria – há por todo o lado um pouco mais de consumo, de poder de compra e de investimento – a zona do euro não está ao abrigo de uma nova crise financeira . “Há uma espécie de corrida entre a melhoria da economia e o aumento das taxas de endividamento público que atingem por exemplo, 134% do PIB em Itália “, diz Patrick Artus. Por enquanto, os mercados financeiros não se preocupam. Até quando?

(continua)

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Para ler a Parte – I – C deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada anteontem, 30 de Janeiro, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

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