
Diz o Pedro:
– 1552 ou 53, ou 54, já não sei bem… Vinho e zombarias. Amigo e senhor, é assim que vou levando a vida… Mas nada, mesmo nada, consegue afogar-me a dor, parece que foi ontem: D. Leonor desnuda e recolhida a uma cova, D. Manuel à deriva pelo mato… Paz às suas almas, que tormentoso e triste foi o fim de suas vidas!
Funga, esconde uma lágrima, melancolia, torna a sentar-se. O Pedro já dedilha e arranca uns trinados ao alaúde. Sobe uma oitava, canta, geme, chora:
Pano roto não enfuna,
casco podre não navega,
o São João já se afunda,
má fortuna,
sina cega,
barafunda…
Foi por divina vontade,
foi por humano desleixo?
Deus é quem sabe!
Voltas do Fado,
eu só me queixo…
E o Paulo, em contraponto:
– Pois, pois… Descobrimentos, encobrimentos…
