FADO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

            Diz o Pedro:

         – 1552 ou 53, ou 54, já não sei bem… Vinho e zombarias. Amigo e senhor, é assim que vou levando a vida… Mas nada, mesmo nada, consegue afogar-me a dor, parece que foi ontem: D. Leonor desnuda e recolhida a uma cova, D. Manuel à deriva pelo mato… Paz às suas almas, que tormentoso e triste foi o fim de suas vidas!

 Funga, esconde uma lágrima, melancolia, torna a sentar-se. O Pedro já dedilha e arranca uns trinados ao alaúde. Sobe uma oitava, canta, geme, chora:

                        Pano roto não enfuna,
                        casco podre não navega,
                        o São João já se afunda,
                        má fortuna,
                        sina cega,
                        barafunda…
                        Foi por divina vontade,
                        foi por humano desleixo?
                        Deus é quem sabe!
                        Voltas do Fado,
                        eu só me queixo…

         E o Paulo, em contraponto:

 – Pois, pois… Descobrimentos, encobrimentos…

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