CARTA DE VENEZA – 73 – por Sílvio Castro

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“Exposições de obras de arte em bares e restaurantes de Veneza“

  

                Veneza é indiscutivelmente reconhecida como um dos grandes centros mundiais de produção e venda de obras artísticas. As galerias venezianas são muitas e ativas, porém não constituem o único veículo para o mercado das artes. Desde sempre os venezianos acostumaram-se a comprar  quadros diretamente das mãos dos autores dos mesmos, não só nos diversos ateliers do pintores desejados, mas igualmente em colóquios realizados nas mesas dos cafés públicos quando o possível colecionista tomava o seu vinho ou discutia com os amigos. Tal uso caracteriza a biografia de grandes vedutistas dos séculos XVII e XVIII.

                Nos nossos tempos, tais hábitos se fizeram radicais em particular nos anos difíceis da II Guerra Mundial, bem como naqueles imediatamente sucessivos ao 1945. Então, os pintores não conseguiam vender nem mesmo um pequeno quadro a ólio ou mesmo um desenho. Uma das poucas soluções que encontravam, então, era aquela de frequentar uma determinda trattoria ou restaurante, alí deixando em troca de almoços ou jantares um pezzo de sua produção. Desta maneira se fizeram importantes coleções de igualmente famosos restaurantes venezianos, como o “La Madonna” e aquele outro, o muito popular “Bar La Fenice”.

                Passados esses tristes tempos, Veneza preservou a regra própria de bares e restaurantes que hospedam exposições de arte, principalmente de jovens autores. Esses ambiente podem ser circunstanciais em tais operações ou, senão, previamente constituidos para serem ao mesmo tempo bar e galeria de arte. Ainda que sempre com predominância da primeira atividade. É o que acontece com o ativo Bar Imagina, no bairro de Dorsoduro, no movimentado campo Santa Margarida. Nele se fazem exposições que vão do grande quadro a ólio, ao desenho; da gravura à fotografia.

                Porém, os mais difusos espaços expositivos são aqueles bares e restaurantes que acolhem, sem uma programação fixa, possíveis expositores. Este é o ramo que mais movimenta o contáto dos venezianos com os seus artistas, realizando-se em todos os bairros da cidade, até mesmo no aristocrático sestiere  de San Marco.

                Exemplo valioso dessas operações se encontra atualmente nos espaços, duas salas, do restaurante “Da Silvio”, aberto a belos jardins e situado próximo à Escola de San Rocco, sede de muitos exemplos maiores da pintura de Tintoretto.

                A trattoria Da Sílvio está inserida profundamente na minha vida veneziana, em particular naqueles meus primeiros anos, na década dos anos 60. Em geral, ali eu e dois, três amigos jantávamos, já que a recém-criada, por direta ação minha, La Donna Onesta fornecia então somente o almoço. Nesses jantares, estávamos somente aqueles professores residentes fora de Veneza, ou aqueles outros, singles, como era o meu caso.

                Nas minhas antigas salas deste que por coincidência tem igualmente o meu nome, então no início de suas atividades, as mesmas salas agora remodeladas, expõe um artista muito especial, Giorgio Zanini. Dele são os magníficos pequenos quadros que recobrem as paredes do restaurante de Amin, o simpático egípcio, criador de locais para a transferência da família na Itália, bem como aquele mesmo Amin que levou adiante nos muitos anos o gato Gramsci, o grande amigo e companheiro inseparável de meu inesquecível Billi.

Imagem1                Giorgio Zanini é um artista muito especial. A sua atividade me faz recordar o poeta brasileiro Manuel Bandeira que, nas suas andanças pela teoria literária, criou o conceito de “poeta bissexto” para traduzir a existência daqueles poetas de poucos poemas e, menos ainda, presença na vida social das artes. Giorgio Zanini poderia se chamado de um pintor bissexto. A sua pintura realizada com uma técnica mixta (aguarela, têmpera, tinta-da-quina), realizada diretamente num pequeno espaço de uma madeira antes meticulosamente escolhida, mas sem que o artista a prepare. O importante para o artista é o desfrute dos matizes da mesma madeira, a conquista de uma maior transparêsncia da pintura conquistada, bem como da cor e morbidez do complexo concretizado. Trata-se de uma pintura de grande maturidade, timbrada por um toque de culta ironia que, às vezes já traduzida no titulo da peça e que vai muito mais além dos pequenos espaços do quadro apresentado.

                Zanini produz assim uma pintura de grande maturidade e cultura. O autor se baseia em geral nos Bestiários medievais ou nos textos antigos dos grandes viajantes, como Marco Polo. São animais fantásticos, mas que nos leva naturalmente ao mundo concreto, ainda que feito de encantamentos.

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