Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 182 – por Manuela Degerine

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Nos píncaros da serra

Prossigo a caminhada quando o sol deixa de pintar a terra de vermelho. Há neste sítio rochas de um verde celadon com brilho vidrado, carrego-me com dois pedaços de tamanho médio, pois os calhaus – quando bonitos – nunca me parecem pesados. Limito-me a duas amostras por saber que fazem parte da identidade geológica deste espaço e, mesmo se cada peregrino levar apenas duas pedritas, em breve elas terão todas desaparecido… Felizmente os outros caminhantes não são loucos ao ponto de, durante trinta e oito quilómetros, carregarem a mochila com pedras. Desço um pouco, atravesso o rio (a areia e as pedras do fundo na transparência verde), volto a subir, passo em Logroso, em Monte Castelo… Alcanço Hospital.

Caminhei cinco quilómetros. Há um café à beira da estrada, o último até chegarmos a Cee, cidade que dista daqui dez quilómetros, isto é, duas horas e meia de caminhada; avisto lá dentro os portugueses. O caminho forma neste ponto um triângulo: Hospital, Muxia e Finisterra. Cumpre escolher onde vamos em primeiro lugar.

Opto por Finisterra e, meia hora depois, desço por uma vereda, entre urze e giesta, surgem os três matosinhenses: amável e alegre companhia. Passamos no cruzeiro do Couto, paramos na Senhora das Neves… Caminhámos dez quilómetros. Após S. Pedro Mártir deixo-os avançar pois, como é costume, se prosseguirmos na conversa, pouco da paisagem hei de ver. Ora o espaço que atravessamos é uma recompensa do Caminho… Valeu a pena caminhar do Porto a Olveiroa para conquistar o gosto, o júbilo, o intenso prazer de atravessar esta serra.

Sento-me num penedo durante alguns minutos, depois avanço lentamente através da beleza, desejando que o caminho se estenda, sabendo que daqui a pouco avistarei Cee. Vou acrescentando uma pedra aos sucessivos morouços do Caminho. À minha volta há orquídeas, miosótis, tojo amarelo, urze branca, urze cor-de-rosa… Muitas flores. Alguns pinheiros, alguns eucaliptos. Um coelho todo preto atravessa o caminho. Estranho… Será um animal de estimação aqui aImagem1bandonado?

Páro no cruzeiro da Armada. No ano passado avistei daqui o porto, o mar, o cabo Finisterra… Hoje há nevoeiro. Sinto umas gotas de chuva. Surgem atrás de mim os três portugas, ultrapassei-os algures sem dar por isso. Reparamos no tojo com picos de três centímetros, não convém que poisemos a bagagem – nem os impermeáveis – por cima deles… Descemos a encosta, muito íngreme, com calhaus soltos. Reparamos na homenagem do “pobo de Cee” aos profissionais da medicina rural. Atravessamos a cidade. Sentamo-nos a almoçar. Subimos do outro lado… Outra vez de conserva. E outra vez na conversa.

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