Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A desigualdade, a questão que caracteriza o nosso tempo
Barack Obama
PARTE VI
(CONCLUSÃO)
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Não sabemos quando podemos perder um emprego
Naturalmente, durante décadas, havia um fosso na rede de segurança que contribuiu mais do que ninguém para expor as famílias de trabalhadores à inseguranças da economia de hoje — ou seja, estamos a falar do nosso falhado sistema de saúde.
É por isso que lutamos pela aplicação do Affordable Care Act, porque diariamente, em média, havia 14.000 americanos, ou até mais, a perderam o direito ao seu seguro de saúde e até mesmo, anualmente, muitos mais morreram porque estes não tinham nenhum seguro de saúde. Fizemos isso porque milhões de famílias que pensavam terem cobertura foram levadas à situação de falência por despesas que eles não imaginaram sequer que poderiam existir.
Dezenas de milhões de cidadãos americanos não conseguiram nenhuma cobertura fosse para o que fosse.
Nós sabemo-lo, e o Dr. Martin Luther King uma vez afirmou-o “de todas as formas de desigualdade, a injustiça nos cuidados de saúde é a mais chocante e desumana.” Bem, que isto não aconteça mais. Porque nos três anos desde que aprovámos esta lei, a quota dos americanos com seguro tem aumentado e o crescimento dos custos de cuidados de saúde atingiu o valor mais baixo em 50 anos. Mais pessoas tem seguro, e mais americanos têm novos benefícios e protecções — 100 milhões de americanos ganharam o direito aos cuidados de saúde preventivos gratuitos, como por exemplo, mamografias e contracepção; mais de 7 milhões de americanos pouparam mais de USD 1.200 dólares, em média, nos medicamentos que lhes foram prescritos; todos os americanos que adoecem, não irão entrar numa situação de falência por razões de custos de saúde, ou por não trabalharem por razões de ausência de cuidados de saúde, pois o seguro já não lhes limita os cuidados de saúde.
Mais pessoas sem seguro ganharam um seguro, mais de 3 milhões de jovens americanos puderam permanecer no plano dos seus pais, mais de 500 000 americanos que estão prestes a ficar cobertos a partir de 1º de Janeiro, alguns deles pela primeira vez.
Estes números — não os de uma qualquer votação — são estes números que irão determinar o destino desta lei. São os seus resultados comensuráveis nas reduzidas falências individuais e também na redução de horas de trabalho perdidas, porque alguém não poderia fazer o seu trabalho, são os filhos mais saudáveis e com melhor desempenho nas escolas, são os jovens empresários que têm a liberdade de ir lá para fora e tentar uma nova ideia — são estas as coisas que acabarão por reduzir as principais fontes de desigualdade e que irão ajudar a garantir que mais americanos comecem a sentir que precisam de ser e de ter sucesso no futuro.
Mais uma vez, reconheço que não estendi algumas partes desta lei, tanto quanto o deveríamos ter feito. Mas ela está já a funcionar nas suas principais linhas mestras e com isso está já a beneficiar milhões de americanos neste momento, mesmo quando nós começamos a retardar o aumento dos custos de cuidados de saúde, o que é bom para os orçamentos familiares, bom para os orçamentos federais e estaduais e bom para os orçamentos de pequenas e grandes empresas.
Assim, esta lei vai funcionar. E por uma questão da nossa própria segurança económica, é preciso que ela funcione. As pessoas de Estados tão diferentes como a Califórnia e o Kentucky ao assinarem diariamente seguros de saúde, estão a inscreverem-se em massa, elas estão simultaneamente a confirmar que querem a segurança económica. Se o líder republicano do Senado ainda acha que ele vai ser capaz de revogar essa lei um dia, ele pode e deve verificar que são já mais de 60.000 pessoas no seu estado natal que já se encontram no lote, finalmente, com direito à cobertura de saúde que os liberta do medo da ruína financeira e lhes permite poder levar os seus filhos ao médico.
Permitam-me, por fim, abordar o elefante aqui na sala, que é a aparente incapacidade de fazer alguma coisa em Washington atualmente. Penso não iremos concluir todos os nossos debates políticos sobre as melhores maneiras de reduzir a desigualdade e aumentar a mobilidade, este ano, ou no próximo ano, ou mesmo nos próximos cinco anos.
Mas é importante que tenhamos um debate sério sobre estas questões. Quanto mais longo for o período de tempo que se permite que as tendências atuais continuem a sua pressão, mais esta situação vai alimentar o cinismo e o medo que muitos americanos estão a sentir neste momento — o medo de que eles nunca serão capazes de pagar a dívida que eles assumem ao ir para a Faculdade, o medo de que eles nunca serão capazes de economizar o suficiente para se aposentarem, o medo de que eles nunca verão os seus filhos com um bom emprego que lhe permita ganhar o suficiente para poderem constituir uma família.
E isso é assim porque, mesmo que estejamos a insistir sobre a necessidade de continuarmos a defender as nossas próprias ideias para se expandir as oportunidades, irei também manter o desafio e acolher aqueles que se opõem às minhas ideias ao apresentarem as suas ideias sobre este problema nacional. Se os republicanos têm planos concretos que realmente levem a reduzir a desigualdade, a reconstruir a classe média, a fornecer mais degraus de oportunidades para os pobres, iremos então ouvi-los. Quero saber o que são essas propostas. Se alguém de nós achar que não se deveria aumentar o salário mínimo, vamos ouvir as suas alternativas para se aumentar então o rendimento das pessoas. Se não acham que toda e qualquer criança deve ter acesso à pré-escola, digam-nos o que fariam de diferente para lhes dar uma melhor oportunidade.
Se houver quem não goste de Obamacare — admito que haja quem não goste — mesmo que o argumento seja construído com base nas escolhas de mercado e da concorrência no sector privado, é legitimo, contudo, deverá explicar como, exactamente, iria em simultâneo cortar nos custos e abranger um leque maior de pessoas assegurando-lhe seguros e mais segurança. Nesse caso, cabe ao povo americano a obrigação de nos explicar, portanto, o que então pretende fazer, não apenas ficando-se pelo que não concorda. Assim podemos ter um debate vigoroso e significativo. É o que o povo americano merece. Isso é o que os difíceis tempos de hoje exigem. Agora, já não basta dizer, afirmar que deveríamos manter o nosso governo fora deste assunto e deixar o mercado sem restrições, sem entraves, a cuidar de tudo isto — uma vez que a nossa experiência nos diz que não é nada assim.
Note-se, nunca defendi que o governo tem o dever e o poder de resolver todos os problemas — nem o governo nem nenhum de nós individualmente. Sabemos que, em última análise, a nossa força está assente na força do nosso povo — pessoas que não estão aqui, pessoas que estão lá fora, a esforçarem-se, a trabalharem, a fazer com que as coisas aconteçam.
Tudo depende da comunidade, de um rico e generoso sentido de comunidade — que está no centro do que acontece no THEARC, aqui todos os dias. Pode-se entender que voltar atrás e combater a desigualdade crescente e expandir o leque de oportunidades requer que os pais se responsabilizem pelos filhos, requer que as crianças trabalhem empenhadamente. Isso requer líderes religiosos que mobilizem as suas congregações para reconstruirem os seus bairros, bloco a bloco, requer organizações cívicas que possam ajudar na reinserção social dos desempregados, que ajudem a ligá-los às empresas para os adaptarem a empregos do futuro. Isso exige que as empresas e os quadros dirigentes comecem por dar o exemplo, que comecem a estabelecer salários decentes, benefícios para os seus trabalhadores e uma oportunidade para alguém que se encontra sem bússola. Sabemos que essa é a nossa força, a do nosso povo, a força das nossas comunidades, a força das nossas empresas.
Mas o governo não pode ficar à margem dos nossos próprios esforços. Porque o governo somos todos nós. O governo pode e deve reflectir os nossos mais profundos valores e compromissos. E se nós recentramos as nossas energias na construção de uma economia que cresça para todos e que dê a cada criança neste país uma oportunidade justa de sucesso, então continuo, pessoalmente, confiante de que o futuro ainda venha a parecer mais brilhante do que o foi no passado, e que os melhores dias estão ainda para vir para este país que todos nós tanto amamos.
Barack Obama, Address on Economic Mobility, Washington, D.C. 4 de Dezembro de 2013. Texto disponível em:
http://www.presidentialrhetoric.com/speeches/12.04.13.html
Tradução do discurso proferido pelo Presidente Obama, publicado pela Casa Branca.
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Ver a Parte V deste discurso de Obama, com tradução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas em:
A DESIGUALDADE, A QUESTÃO QUE CARACTERIZA O NOSSO TEMPO, por BARACK OBAMA
