COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 2 – por José Brandão

Capítulo II

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A Revolução de Sidónio de 1917

«É preciso salvar os povos, mesmo que eles não queiram.»

Napoleão I

  «Cumpra-se então o destino»

 Em Dezembro de 1917 Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais já não era propriamente um desconhecido.

Ainda que o seu nome não andasse muito na boca do cidadão comum, Sidónio Pais fizera parte de dois dos primeiros Governos da República e exercera, até meados de 1916, as funções de ministro plenipotenciário em Berlim regressando a Lisboa, com a declaração de estado de guerra entre Portugal e a Alemanha, sendo então colocado como alto funcionário no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e isto era já o suficiente para lhe conferir uma certa dimensão pública.

Tinha agora, em Dezembro de 1917, pouco mais de 45 anos. Sabia não ser esta a idade mais indicada para ser aceite como o mais alto magistrado da Nação. No fundo, não passava de um modesto major do Exército e, além do mais, os republicanos não pareciam estar muito interessados em verem a República vestida de farda militar.

É certo que tinha havido já a «experiência» do Governo do general Pimenta de Castro em 1915; porém, o tempo não estava para generais e é um major que poucos meses depois, em 1917, aparece a conseguir trazer para Portugal o primeiro esboço da concepção fascista do Estado.

Quem o visse, na tarde de 5 de Dezembro de 1917, a passear tranquilamente de eléctrico pela Avenida da Liberdade, estava longe de pensar que se encontrava perante um homem que dali a poucas horas haveria de dar muito que falar.

Na verdade, o major Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais não passeava por passear.

Acompanhado do Dr. Leonardo Trigoso, fazia tempo para se encontrar com alguns dos conspiradores que com ele, dentro de algumas horas, caminhariam para a Rotunda.

Teve ainda tempo de ir ao consultório do calista Costa, na Rua do Mundo, junto ao Largo de S. Roque, onde recebe o alferes Santos Ferreira, a quem dá as últimas ordens.

Depois, segue para a casa do tenente Marques, na Rua Gomes Freire, n.º 137, 2.º andar, onde a dona da casa, Perpétua Bernardes, lhe entrega a farda e as polainas que um filho de Sidónio lá deixara.

Com a farda emprestada, o major Sidónio Pais dirige-se para o Jardim do Matadouro e, ali, sentado no banco que ficava de costas para o prédio n.º 15 (ainda existente), ele, o capitão Feliciano da Costa e o jovem tenente Teófilo Duarte, aguardaram a hora marcada: seis da tarde.

Sidónio tudo fizera por este dia e mesmo quando o seu grande amigo Brito Camacho lhe retirou o apoio, inclusive financeiro, não recuou um só instante. Ele sabia que não faltava quem desejasse conspirar contra o Governo de Afonso Costa e que o dinheiro também de algum lado acabaria por vir.

Umas vezes na redacção do jornal A Luta, outras na Farmácia Durão, na Rua Garrett, ao Chiado, Sidónio tinha sempre conseguido arranjar poiso para prosseguir com a sua conspiração. Raro era o dia em que não aparecia nestes locais, assumindo-se já como chefe absoluto do que se estava a preparar.

Quase sempre vestido de negro e enluvado a rigor, Sidónio Pais, que era um fumador inveterado (chegava a fumar quatro maços por dia), ainda fumava por estas alturas da popular marca Antoninos, só passando definitivamente para os dispendiosos Baunilhas quando já era presidente.

Sidónio sentia-se bem acompanhado na sua odisseia. Para além dos oficiais que trabalhavam activamente na sublevação dos regimentos da guarnição lisboeta — Infantaria 5, Artilharia 1 e Escola de Guerra, onde estavam comprometidos sessenta cadetes, entre eles um filho de Sidónio e outro de Camacho —, Sidónio contava com o apoio de alguns grupos civis dirigidos por Manuel Inácio Ferraz, Manuel Pedro de Abreu, Lourenço Flores e outros, todos bem conhecidos pela sua oposição ao Partido Democrático de Afonso Costa, que então constituía Governo.

Havia ainda a certeza de poder contar, praticamente, com todo o Regimento de Infantaria 33, recentemente chegado de Lagos e com guia de marcha garantida para a frente de combate na Flandres. O tenente Caldas, monárquico convicto que integrava este Regimento algarvio, «lembrou-se» de trocar a guerra nas Flandres pela «guerra» na Rotunda, oferecendo-se de imediato a Sidónio Pais no sentido de trazer o Regimento de Infantaria 33 para as hostes dos conspiradores.

Bastou-lhes acenar com a ideia de que do sucesso do golpe dependia a sua partida ou não para a frente de batalha nas terras de França, a fim de que os soldados do 33 se passassem, em força, para o lado de Sidónio.

Nos dias da bernarda podiam ver-se os carretões da artilharia do 33 exibindo as iniciais CEP: Corpo Expedicionário Português. Já não iam para a França, onde outros os esperavam para regressar, iam a caminho da Rotunda, aos gritos de «abaixo a guerra», não esquecendo as promessas de Sidónio.

Mas Sidónio tinha também conseguido o concurso de figuras gradas da Revolução Republicana. No quarto n.º 33 do Hotel Borges, na Rua Garrett, Sidónio Pais chega a receber um grupo de oficiais fugidos dos cárceres de Fontelo, em Viseu, onde estavam detidos juntamente com Machado Santos, o herói do 5 de Outubro de 1910, por com ele terem participado na revolta de Tomar, em Dezembro de 1916.

Sidónio conseguira até o apoio de alguns marinheiros, que o cabo Gabriel inesperadamente lhe assegurara. É verdade que, para garantir o apoio destes quarenta marinheiros, Sidónio teve de adiar os seus planos, inicialmente previstos para 2 de Dezembro, e esteve em vias de se envolver a soco com o cabo Gabriel, quando este, à última hora, lhe condicionava a sua participação e a dos restantes companheiros a troco de uma importância em dinheiro.

Felizmente para Sidónio, o abastado lavrador alentejano António Miguel de Sousa Fernandes estava disposto a não deixar ir por água abaixo esta oportunidade de se ver livre do Governo de Afonso Costa.

Depois de um jantar, na «Charcuterie», entre Sidónio Pais e António Miguel, o dinheiro para os marinheiros aparece facilmente e Sidónio lá vai com os cinco contos que farão os marinheiros entrar no levantamento de 5 de Dezembro.

Tinha chegado esse dia. Agora era só esperar pela hora.

Pouco passava das 18 horas quando se ouviram dois tiros de peça. Era o sinal previamente escolhido para anunciar o início do golpe.

A acção já estava a começar no quartel de Infantaria 5, na Graça, para onde se tinham dirigido os oficiais Faria, Costa Pereira, Mariares e Gode Froy. Todos se tinham reunido, antes, no 4.º andar da Rua dos Douradores, n.º 83, onde o tenente Faria combina novo encontro no Campo de Santana para dali se irem fardar a casa do sargento Júlio Pimentel, na Rua Senhora da Graça, n.º 3, 1.º andar.

Já no interior do quartel de Infantaria 5, o tenente Faria tem de apontar a sua pistola à cabeça do major Rodrigues, comandante deste Regimento, que desesperadamente tenta evitar a passagem dos seus soldados para o lado dos revoltosos, gritando: «Daqui ninguém sai!… Soldados.»

Resolveu a situação o grupo de revoltosos civis da Rua Castelo Branco Saraiva, que, aparecendo bem municiado de bombas, arremessa logo os explosivos contra o quartel, abrindo de imediato os portões.

Entretanto, à volta do Forno do Tijolo, Manuel Inácio Ferraz encontra-se com outros civis sediados, prontos para o que der e vier.

Àquela hora já Sidónio vai a cavalo, galopando à frente de um grupo de cadetes e soldados de Cavalaria 7.

Na Rotunda encontrava-se já a Artilharia 1.

O quartel deste Regimento ficava mesmo junto ao local da concentração. Os seus paióis, bem municiados de tudo quanto era armamento, vieram a ser um precioso auxílio para os canhões e as espingardas de Sidónio.

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(Continua)

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