19 de maio de 1954, Baleizão, Alentejo. Tu, Catarina Eufémia, tens 26 anos e és mãe de 3 filhos. O teu marido arranjou emprego de cantoneiro em Quintos, aldeia que fica a 10 kms. Mas o seu ordenado não basta para sustentar a vossa família. Por isso trabalhas como ceifeira na herdade do Olival, latifúndio. Faminta, lideras um grupo de 14 ceifeiras que exigem um aumento de mais dois escudos na jorna diária. Mas de repente, às 11 da manhã, vocês já estão cercadas por soldados da GNR. O tenente Carrajola sai de trás de uma oliveira, aponta para ti e berra:
– O que queres tu, ó idiota?
Respondes, tranquilidade:
– Quero pão para matar a fome dos meus filhos!
Carrajola logo te acerta violenta bofetada e tu, Catarina, cais de costas mas amparando o filho de oito meses que levas ao colo. Porquê um filho no local de trabalho? Resposta óbvia: ele tem que mamar durante o dia…
Levantas-te e provocas o tenente:
– Quer matar-me?
Carrajola abana a cabeça, saca a pistola, dispara três tiros à queima-roupa, cais morta. Derradeira queda e o teu menino fica ferido.
Durante o funeral a GNR dispersa à bastonada a multidão que chora e protesta contra a tua morte. No tumulto nove camponeses são presos para depois serem julgados e condenados a dois anos de prisão.
O carro funerário arranca e abala, não para o cemitério mas para a estrada. Para evitar futuras passeatas subversivas, por ordem da GNR já não vais ser sepultada em Baleizão mas em Quintos.
O tenente Carrajola não é punido nem sequer censurado. Para se evitar conflitos em Baleizão é transferido para Aljustrel.


Somos todos Catarinas…