Cidade – luz, sombra e palavras – 4 – Bordéus – fotografias por Fábio Roque

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As fotografias do Fábio mostram-nos imagens de uma cidade contraditória, como aliás são todas as grandes cidades. É bom ter presente que, por detrás do brilho e da grandeza, ficam ocultas vidas sem rumo, grandes  desperdícios materiais, fealdades de difícil descrição. As cenas que o Fábio captou de uma cidade tão importante e tão próspera como Bordéus, com uma história tão rica, fazem que não esqueçamos esses contrastes. E obrigam-nos a meditar sobre eles e como coexistem com algumas das coisas que abaixo referimos.

Bordéus - III

Bordéus, a antiga Burdigala dos gauleses, já era um centro importante no século III, antes de Cristo. Muito depois, mas ainda na época romana, no século IV da nossa era, o poeta e professor Ausonio, seu natural, inclui-a no seu Ordo Urbium Nobilium, descrição das cidades mais importantes do império. A sua localização privilegiada, ao fundo do estuário da Gironda, o maior da Europa Ocidental, onde  se encontram o Dordogne e o Garona, facilita os acessos por mar e por terra, essenciais para o progresso do comércio e da indústria, o que  foi um factor decisivo para o desenvolvimento da cidade, em conjunto com a localização numa região agrícola de grande riqueza.  Do século XII ao XV, a Aquitânia esteve sob a coroa britânica, e Bordéus conheceu grande crescimento como o principal porto inglês no continente. No século XVI, de grandes lutas religiosas na França, um gascão foi coroado rei de França em 1589. Um contemporâneo seu, Michel Eyquem (1533 – 1592), natural de Montaigne, uma localidade do Périgord, foi maire de Bordéus, entre 1581 e 1585. Ficou conhecido como filósofo, com o nome de Michel de Montaigne, e os seus escritos foram publicados sob o título genérico de Ensaios. Pode-se ler, no Livro III, capítulo X, página 1005 da edição do exemplar de 1588, revista por Pierre Villey, publicada :

“Os senhores de Bordéus elegeram-me maire da sua cidade, estando eu longe de França, e ainda mais longe dessa ideia. Recusei, mas alguém me disse que fazia mal, e houve também a interferência do rei. É um encargo que parece um tanto interessante, até porque não dá direito a remuneração, nem a qualquer outra recompensa para além da honra da sua execução. É por dois anos; mas pode ser prorrogada por uma segunda eleição, o que raras vezes acontece”.

Montesquieu (1689-1755), político e pensador, autor da teoria da separação de poderes, nasceu e estudou em Bordéus, tendo chegado a presidente do parlamento da cidade. Não é exagero concluir que na região de Bordéus, que corresponde em parte à antiga Gasconha, se cruzaram ao longo  da história diferentes povos, diferentes línguas e culturas. No séculos XVI as lutas religiosas marcaram presença presença. Muitos habitantes optaram pela reforma (huguenotes). Judeus fugidos da Península Ibérica encontraram ali refúgio. Recorde-se que a mãe de Montaigne era de uma família judia, recém convertida ao protestantismo.  Bordéus e a sua região orgulham-se de, ao longo dos tempos, terem cultivado um espírito liberal e de resistência ao centralismo. As carreiras de Montaigne e Montesquieu devem com certeza alguma coisa a esse espírito.

Bordéus - IV

Terão estes antecedentes pesado na situação que o cônsul português Aristides Sousa Mendes vem encontrar na cidade, quando ali chega em 1938? Uma enorme afluência de refugiados, em que predominam os judeus, fugindo perante o terror nazi, com um crescendo que atinge o seu auge em Junho de 1940, com a invasão da França. E com a Espanha sob o jugo de Franco, aliado de Hitler. Esperavam encontrar na região um refúgio, ainda que temporário. Obrigados a fugir, Aristides Sousa Mendes teve de lhes acudir.

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