Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 185 – por Manuela Degerine

Imagem1

Cumplicidades

Divorciei-me sucessivamente dos portugueses, logo a seguir voltámos a juntar-nos e, como são companhia alegre e fraternal: desisto de caminhar sozinha. Em parte por hoje vir na conversa, sobretudo por não me doer o joelho, a etapa reduz-se a menos de metade (parece-me). Caminhámos vinte e oito quilómetros quando avistamos Finisterra; cinquenta metros mais abaixo esconde-se uma praia onde no ano passado me sentei, porém agora os meus sócios nem pelo caminho – que muito desce e volta a subir – querem passar, preferindo-lhe a beira da estrada: poucos metros que poupam muita energia. (Sozinha teria seguido pelo caminho, teria baixado à areia branca, mas acompanho-os de boa vontade.)

Surge Adriano. Carlo seguiu para Muxia mas ele prefere Finisterra; encontrar-se-ão amanhã em Santiago. Atravessamos o areal com uma atenção distraída, falamos em francês, miramos à esquerda as praias e Finisterra à nossa frente, inquiro se Adriano, que é fotógrafo, atenta na composição da imagem, responde que sim, não propriamente a da pintura clássica, pois gosta de (se) surpreender, em contrapartida ele quer saber quais as minhas figuras de estilo, ora bem, na linguagem nada me é indiferente, sou uma cozinheira que não rejeita a ortiga, a broa de centeio, o arenque fumado, gosto do zeugma e da cataplana, também não desdenho a litote, o quiasmo, a metáfora, a perífrase, a hipérbole, o oximoro… E uns pós de perlimpimpim. Posso escolher o assíndeto, optar pela enumeração, recorrer ao estrangeirismo, passar pela antonomásia, mas recuso os corantes (e conservantes) do politicamente hipócrita. Adriano dá um berro: a litote, o zeugma e o oximoro são as suas favoritas. Pela primeira vez na vida compartilho figuras de estilo… Não é uma experiência desagradável.

Descobrimo-nos adeptos dos audiolivros e da rádio em podcast; eu por haver renunciado a todas as bagagens dispensáveis, sofro a falta do MP3 nas horas que passo estendida no beliche, porém Adriano trouxe para o Caminho de Santiago “O Nome da Rosa” – que integralmente ouviu três vezes. Conta que fez uma viagem a Paris para conhecer o bairro da família Malaussène, eu falo-lhe de “Comme un roman” do mesmo Daniel Pennac e, sem darmos por isto, conversámos quatro quilómetros: entramos em Finisterra.

Vou concentrada no diálogo, olhando contudo a paisagem; não reparo na gente que passa. De súbito um homem imobiliza-se à minha frente.

– Manuela!

Imagem2

Leave a Reply