AINDA SOBRE AS PRAXES, A DOS ESTUDANTES E A DO FMI, DO BUNDESBANK E DA TROIKA IGUALMENTE – por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE III
(CONTINUAÇÃO) 

E sendo assim, a lógica das praxes corresponde já a uma prática que os conduz inevitavelmente a esse vazio

E, depois, os poderes terão a sua justificação, a justificação dos mercados para as gerações mais novas que Bolonha começou já a fabricar: eles não sabem fazer nada, mas quando isto for verdade e, na maioria será possivelmente mais tarde assim, dever-se-á ao facto de não os ensinarmos nem sequer, pasme-se, a que na vida é também necessário realmente aprender. Por isso se aceita e favorece, mesmo tudo, que se trata de uma festa e que as praxes o acabam por simbolizar. Fora da profissionalização possível, portanto. E o caminho que depois o sistema político considera necessário é o ajustamento às condições da sociedade, é a necessária e crescente flexibilização dos mercados de trabalho. Ajustem-se, é a palavra de ordem de agora, se querem encontrar trabalho!

Ajustem-se, é a palavra de ordem de agora, conforme me dizia um amigo meu de outros quadrantes políticos, se querem encontrar trabalho!

Questão tanto mais importante, a lembrar Danièle Linhart, quando o trabalho se torna cada vez mais necessário para dar a cada sujeito uma própria identidade social, para lhes conferir um papel na sociedade e ser por esse meio o veículo da sua inserção, em suma para lhes conferir, agora, um outro sentido ao termo “nós”, um outro sentido à vida, portanto. O trabalho, o que o jovem de hoje seguramente não encontra, é nas sociedades modernas, o grande ordenador do tempo, que a este confere a sua própria duração, a sua extensão, é o ordenador que anula os tempos em que não se sabe o que fazer num quadro de vazio. Ao dar assim a dimensão da socialização e de sociabilidade, distinguindo o tempo do que é de trabalho e do que é de tempo livre, opera uma enorme distinção com quem não trabalha: o desempregado não tem tempos livres, tem tempos de vazio, de um vazio total, o trabalho tem os seus tempos livres, tempos de libertação dos constrangimentos que este próprio confere. Ter trabalho significa portanto ter possibilidades de dar sentido à vida, pois é este que lhe confere um sentido pleno e tanto, é assim que a vida é tanto mais difícil de suportar quanto menor for o sentido que se sente no trabalho realizado. Em vez disso, agora o que os jovens de hoje sabem é que dificilmente terão a possibilidade de trabalhar condignamente, e de condignamente viver, o que agora podem saber é que terão a certeza que nós, com os nossos critérios de eficiência dos mercados e de maximização dos proveitos a quem pelo capital a eles garante a produção desse direito, os sujeitamos a uma sucessiva desvalorização.

Creio pois que não temos que estranhar o que se tem passado com as praxes, como prática estudantil, como vivência, como modo de estar na vida de uma gente a quem depois não se lhes quer dar nada. Entretanto os estudantes valem enquanto consumidores, enquanto votantes que apoiam um sistema mas, é também preciso que fiquem cegos para continuar a votar no referido sistema. E o sistema consegue-o pela criação de um mundo perfeitamente (ou quase) acéfalo. Como dizia alguém, sobre a dinâmica do neoliberalismo:

“Mas pouco a pouco, as coisas têm-se complicado: a superprodução de mercadorias para vender (a ‘transformar em dinheiro’) tornou-se crónica. Foi preciso enganar as pessoas mais dignas de crédito de uma outra nova maneira, ainda menos confessável do que a verborreia moral. Foi necessário transformá-las em seres cretinos. A única maneira de continuar a ter lucros foi realmente a manutenção dos consumidores solventes numa situação de alienação permanente pela indústria cultural (“media”). Triste, mas é a verdade!

Mudança total de paradigma! Em breve já não precisaremos da hipocrisia afectada e igualmente complicada: passará a haver somente cretinos que consomem mecanicamente, vivendo a consumirem o lixo imposto pela decomposição do capitalismo, mesmo nos países da antiga civilização! Mas então, os ocidentais são indiscutivelmente os grandes perdedores. Porque o nosso domínio, lá, onde se estava confortavelmente, era ainda era algo que se situava na ordem do pensamento.

O capitalismo clássico não tinha sido inteiramente atingido o pensamento. No capitalismo cultural (‘mediático’ e sobretudo ‘musical’ ), o pensamento coerente tornou-se impossível. Deste modo, encontramos-nos numa situação claramente inesperada: embrutecidos e incapazes de identificar os conflitos, as guerras travadas contra nós próprios. Incapazes de identificar os nossos verdadeiros assassinos: a burguesia “liberal”, os seus juristas e os seus moralistas.

Encontramos-nos assim como acéfalos e, portanto, sem pensamento político esta situação é mesmo muito desagradável, é terrivelmente chocante. Os resultados aí estão, as praxes e o comportamento dos estudantes a esse nível são disso um bom exemplo. E entretanto não é esta Universidade que o sistema quis, a de produção de gente acéfala, que é contestada, entretanto também não é o sistema que deveria responder por tudo isto que é contestado. Pelo mundo acéfalo criado, os estudantes colectivamente e por agora claramente perderam essa capacidade de questionamento. E o governo armado com esse silêncio tem feito sobre as Universidades tudo o que tem querido. Por uma enorme tragédia, desnecessária a tudo isto, o que aconteceu no MECO, esse pacto de silêncio está em situação de rotura, por muito que muito boa gente esteja disponível para ajudar o governo a refazê-lo. Viu-se com o professor de Direito no debate do Gil Vicente. As imagens das praxes eram, são, aviltantes mas isto não são as praxes, diziam até à exaustão no Gil Vicente os estudantes, mas são elas a materialização das praxes, com os diabos. E a defesa era então de que a praxe é inserção estudantil, mas inserção em quê? Exactamente no mundo acéfalo a que acabamos de nos referir.

Na carta citada ao Mariano Gago eu concluía:

“Os dados, creio eu, estão lançados, cabe a todos nós, professores, estudantes, responsáveis sindicais, responsáveis políticos, cidadãos, dar a resposta que a nossa salvaguarda cultural exige, e espero, senhor Ministro, nunca o vir a ver a enterrar um grave doente actual, um possível defunto, se não o libertarmos das amarras neoliberais que pacientemente o senhor tem vindo a tecer, e que tem como nome o Ensino Superior em Portugal. E é tudo.”

Não é Mariano Gago a fazer o funeral do ensino superior, é Nuno Crato e, francamente, sente-se que o faz com prazer, fazendo do espaço universitário como um todo,  enquanto tal e em face das funções que lhe deveriam ser exigidas, um mundo de mortos vivos ou de vivos que estão já mortos[1]. Lamentavelmente assim.

E tudo isto, porque o sistema global de que o nosso governo é um pequeno subsistema não quer mais do que isso como se viu, quer, de uma maneira ou de outra, quer que  sejamos todos nós acéfalos. Pelo menos parcialmente têm-no conseguido. Só assim é possível que o sistema global tenha  dado a resposta à crise que tem sido dada e que vai continuar a ser dada, levando a que as grandes Instituições se comportem como quadros produtores do Direito que permite ao sistema global funcionar como um verdadeiro gang, a capturar as nossas vidas, a nossa capacidade de reorganizar o futuro, a capturar o resultado do trabalho de todos nós, e sobre o que disso ainda nos resta querem agora  capturar TAMBÉM as nossas poupanças.

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[1] Com este texto já arrumado, noticiam os jornais os cursos de 2 anos no Ensino Politécnico, sem diplomas, cursos. Segundo o comunicado do Conselho de Ministros “, trata-se de um novo tipo de formação “não conferente de grau”, que tem como objectivo “alargar e diversificar o espectro da oferta do ensino superior em Portugal e por essa via aumentar o número de cidadãos com qualificações superiores necessárias ao país”” ! A confirmar o que já tínhamos escrito. Querem é arrumar o funeral rapidamente, porque o governo tem medo de que, mesmo com uma perna para a cova, o defunto potencial ainda tenha a coragem de correr com a outra perna e escapar-se.

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Para ler a Parte II deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá:

AINDA SOBRE AS PRAXES, A DOS ESTUDANTES E A DO FMI, DO BUNDESBANK E DA TROIKA IGUALMENTE – por JÚLIO MARQUES MOTA

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