SUSPENSÃO – por Fernando Correia da Silva

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– Sim, aqui em Lisboa entrei no Liceu o ano passado, em outubro de 1942. Simões, o chefe da nossa turma do 1.º ano, está sempre a fazer queixas do nosso mau comportamento para que sejamos castigados. Estilo PEVIDE, foi o que disse o meu Pai…

      – Estilo pevide? Mas o que é isso?

      – PEVIDE é o nome que dão à polícia política. Um dia destes ainda vou à tromba do Simões.

            – Ó calouro tem cuidado, não te espetes!

             Espetei-me! O Dr. David Não Sei Quantos é o nosso professor de Francês e, além do mais, Vice Reitor do Liceu. Magro, alto, curvado, os óculos a caírem pelo nariz. Não pára de esfregar as mãos enquanto lê as regras da gramática francesa que devemos copiar e empinar. Ao fim de meia dúzia de parágrafos faz uma pausa para elogiar a Mocidade Portuguesa. Pois é justamente ao Dr. David que o Simões denuncia a algazarra que eu faço antes do professor chegar à aula. De castigo, o Dr. David corta-me o direito ao recreio durante um mês. No fim do dia, à saída perco a tola e dou um enxerto de porrada no Simões. A modos que desmaiado ele fica no recreio e eu vou para casa.

            Dizem os meus colegas e amigos que, por causa da sova que dei no Simões, vou ser expulso do Liceu. São capazes de ter razão porque o meu Pai já recebeu uma convocatória para comparecer na Reitoria. A minha safa é que o meu Pai e o Reitor são dois cautelosos simpatizantes do Reviralho. Lá se entendem e a ordem de expulsão é convertida em suspensão por 3 dias. Uf, ainda bem! Quando voltei ao Liceu o Simões já tinha baixado a bolinha, ó se tinha…

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