O antes e o depois fundidos no agora, e tudo vejo de repente, tudo ouço, tudo sei. Dois homens afastam-se ao fim da rua. Muito longe estão de mim mas bem os ouço: que as autoridades andam em busca de Jesus da Nazaré, que ninguém sabe aonde pousa. Murmuram os seus receios e logo vejo o nazareno a entrar em Jerusalém. Mas isso, por dentro sei que foi na manhã deste mesmo dia e agora é noite. Montado num jumento e o povo a aclamá-lo às portas da cidade, hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino do nosso pai David! Mantos no chão, ramos no ar. Vejo que se dirige ao templo. Vejo que enxota cabras e ovelhas para fora do território sagrado. Vejo que derruba os tabuleiros de vendilhões e cambistas. Expulsa-os, ouço-o gritar não se trata assim a casa do meu Pai. E quando pronuncia a palavra Pai, deslumbra-me a irmandade a que pertenço. Hebreu, irmão sou eu de hebreus. Homem, irmão sou eu dos homens, qual seja a sua raça, qual seja a sua fé. Deslumbramento mas reparo que irado está Jesus. Aponta o dedo a fariseus e saduceus, os conservadores da Lei, uns e outros sacerdotes: hipócritas! Sois como os sepulcros caiados. Formosos por fora, por dentro a podridão. Vejo que se retira, vejo que chora. Ouço que diz para os seus discípulos não ficará pedra sobre pedra. Vejo que se dirige para o Monte das Oliveiras. E mais não vejo, mais não ouço. De olhos abertos continuo eu, mas sei que sonho.