“Ao soar das horas mortas “- poema de Adão Cruz

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Ao soar das horas mortas neste outro modo de ser hoje recolho as asas à saída do corpo asas de voo natural sublime acima das coisas

Para lá do nevoeiro sei que moram os dias claros e as nirvânicas noites e apetece-me gritar menino-pastor da noite menino-pastor da noite

Vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo tento fundir a neve com o calor da minha nudez mas o cansaço e a ideia do lado de fora de uma teia sem olhos são fios que tecem mais tarde ou mais cedo o gélido mundo das sombras

A respiração acabou e o poema nasceu fechado cianótico asfixiado

No imediato corpo tão longe e tão perto um frio azul anidrido carbónico encharca as palavras secas

Velha semente sem terra nova terra sem sementeum tal dizer feito de gestos e o prazer de supor que a água ainda corre nas entrelinhas da secura

Ilustração: Quadro de Adão Cruz.

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