OS MEUS DOMINGOS – FALTA DE JUÍZO DO ANO – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

I

Antes que S. Silvestre, o simpático patrono de todos os retardatários, dos que vão na plataforma dos carros, dos que compram bilhetes nos contratadores, dos meninos tirados a ferros, de todos, enfim, que por uma coisa de nada iam deixando de fazer qualquer coisa maior, antes, repito, que S. Silvestre arranque a última folha do calendário e 1922 entre no passado, não será mau dizer-lhe meia dúzia de verdades para ele não ir gabar-se para a Eternidade, que o pôs neste mundo, de nos ter desfrutado durante cinquenta e duas semanas sem ter encontrado quem o colocasse no seu lugar.

O bregeirinho do 1922 entrou muito pela mansa, nos biquinhos dos pés, no dia 1 de Janeiro, enquanto estávamos todos entretidos a desejarmos à família “boas saídas do outro e melhores entradas deste”. Quando demos por ele era dia 2 e já íamos tarde para lhe perguntar, antes de o deixar penetrar na nossa existência, o que nos trazia de novo, de útil e de agradável.

Apresentava-se modestamente. Não era como alguns dos seus congéneres, – não desfazendo em quem está presente, – que avançam todos inchados, dizendo para quem quere ouvir: – Eu cá sou bissexto! , como se isto de ser bissexto fosse alguma prenda notável. O nosso 1922 parecia um ano como outro qualquer e nós, que temos visto tantos e de tanto feitio, encolhemos os ombros e concluímos:

– Olha: pior que os últimos não podes ser…

Pois foi. De resto, há um tempo para cá, os anos são como os quartos da hospedaria do Testamento da Velha: são todos piores.

Não tivemos senão desgostos nos últimos doze meses que estão a findar por horas: D’Annunzio caiu da janela abaixo, Lloyd George teve que abandonar o poder, a paz continua com todos os seus horrores sem vermos quando chegará uma guerrazinha que nos restitua enfim a tranquilidade, os russos insistem em devorar-se uns aos outros, o fascismo é caso que faz cismar, o terrível filoxera que atacou as gabardines põe fora de preço esse legume de primeira necessidade e, como se tudo isto não bastasse, os que acreditavam na madame Brouillard são levados a crer que eram uns asnos chapados, pois que, se essa pitonisa realmente adivinhasse o futuro, não teria deixado de prever os desgostos e várias equimoses por que tem passado ultimamente.

Já não quero referir-me aos milhares de alfacinhas que têm morrido doidos por quererem decifrar as interpretações da lei do inquilinato que os jornais inserem, nem à tareia que os gregos levaram dos turcos por conta dos ingleses. Passarei em claro as vicissitudes do escudo português, que só pode consolar-se pondo os olhos na coroa austríaca ou no marco alemão. Guardarei o mais discreto silêncio sobre a edição dalguns volumes de verso e prosa que tivemos de suportar na montra das livrarias.

Imaginem no entanto que, para cúmulo de fatalidade, quando o maldito 1922 estava quase, quase a deixar-nos, chega-nos o telegrama anunciando que se inaugurou um dos pavilhões da Exposição do Rio. Vão ver que, daqui a pouco, o outro é também capaz de se inaugurar, sozinho e de surpresa. Só quero que me digam o que vai ser daquela pobre gente que foi lá para acabar aquilo e cuidava ter o pão da sua velhice assegurado. Que hão de eles fazer, não me dirão? Comer os pavilhões? É o que ainda vem a acontecer, mais dia menos dia.

31 de Dezembro de 1922

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