COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 8 – por José Brandão

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Mas, se muitos foram os maldizentes de Sidónio, não pouco (ou poucas) apareceram publicamente a desculpar os devaneios brejeiros do Grande Amoroso.

Maria Feio, que não tem papas na língua na exaltação do seu herói, compõe trechos como este:

«Sidónio era afinal um cativo de paixões funestas, que atormentava quando apenas desejava amar. O amor era a Via Láctea dos seus sonhos. Era a Gôndola da sua imaginação devaneadora que levava à proa grinaldas de esperanças entrelaçadas em espinhos dolorosos. O amor era, enfim, o alento vitalizador da sua alma mística e ardente.

Abria, sem querer, chagas de dor noutros corações», continua Maria Feio. «Quanta lágrima amaríssima se confundia nos seus lábios ardentes com a ânsia devoradora dos beijos?

Mas como é que Sidónio Pais não havia de ser escravo do Deus Cupido», interroga-se ainda a autora, «se a natureza lhe dera o fluido da simpatia como os deuses mitológicos dando a Peleu a lança milagrosa que lhe facilitava a vitória das conquistas amorosas?

Como um Páris irresistível coroado de mirtos e de louros, rendido às graças de Vénus», prossegue Maria Feio, «possuía a linha das proporções plásticas que sobressaem na clássica estatuária grega. Contornos delicados sem excluir virilidade máscula, olhar rútilo, como arestas de sol.»

Todavia, nem tudo foram rosas na vida amorosa de Sidónio Pais, como, desgostosamente, nos conta Maria Feio:

«Se muitas foram as suas horas de amor, muitos foram também os instantes de sofrimento causado por várias aventuras. Esses amores, que são tempestade e deleite, acidentaram tumultuariamente a sua vida e o seu carácter…»

Mais tarde, alguém confidenciará a Maria Feio que Sidónio (que, possivelmente, já nem sequer tinha «tempo para se coçar») queria deixar a vida das canseiras amorosas e racionalizar um pouco as suas fadigas de amante.

«Quantas vezes» teria dito Sidónio, «jurei a mim mesmo fugir às tentações que me enleavam com magnetismo de serpente! E, quando ia para encarcerar os meus impulsos no retraimento exclusivo da vida familiar, absorvido nas minhas predilecções de estudos científicos, encontrei-me a subir a escada dos Romeus!»

Afinal, que culpa é que Sidónio tinha de ser assim tão dotado para entrar nos corações femininos?!

No fim de contas, elas é que não o deixavam em paz.

Sousa Costa, que também não quer fugir de dizer alguma coisa sobre este capítulo da vida de Sidónio, escreve:

«Assim, em todas as festas, por toda a parte, o entusiasmo das mulheres eclipsava o ardor dos homens nas homenagens ao herói — coroam-no de flores, ungem-no de palmas, cobrem-no de beijos. A lenda começa a envolvê-lo, o ser natural promovido ao sobrenatural — as mulheres, incansáveis tecedeiras, ao tear da fantasia, tecendo o manto ofuscante do novo Galaaz.»

A sua figura pessoal era promovida numa campanha publicitária de envergadura gigantesca. Para se exibir emImagem2 público, Sidónio Pais tinha mandado fazer uma farda recamada de estrelas. Ele, que, quando foi deputado, exigira no Parlamento a supressão imediata de títulos nobiliárquicos, de condecorações ou de outros quaisquer distintivos honoríficos, não se contentava agora com menos de seis estrelas na sua farda de presidente. Mandara, igualmente, fazer obras nos palácios de Belém e da Pena, que não ficaram por menos de 13 contos. O que, para a época, era uma boa fortuna.

1 Comment

  1. [image: Imagem intercalada 1] autora do texto -interessante conhecer o NARCISISMO deste governante que primava por uma Repblica fascnora -Obrigada -Maria

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