SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA – 9 – BREVES NOTAS A ALGUNS COMENTÁRIOS – por Manuel Simões

Sem pretender fazer uma análise exaustiva aos comentários que aqui têm sido divulgados, proponho apenas algumas notas que a sua leitura me foi sugerindo, limitando a minha reflexão, por razões de oportunidade de leitura, aos vídeos de Ivo Castro e de Fernando Rodrigues de Almeida, e aos comentários de Carlos Durão.

Sobre o discurso deste reconhecido especialista, devo dizer que me pareceu de grande clareza e pertinência e, de modo particular, o que escreveu sobre o vídeo que resume a “guerra” do substrato celta na Galiza, denunciando a instrumentalização política de duas posições antagónicas. Claro como água…

Outro tanto ma apraz referir sobre o “vídeo de Ivo Castro”, embora a sua organização tenha, desde o início, um carácter acentuadamente didáctico e um nível divulgativo. Seria importante saber a que público foi endereçado mas percebe-se que a exposição não pretendeu ser erudita. Tratando das diferentes pronúncias entre o português do Brasil e o de Portugal, por exemplo, Ivo Castro apresenta as diferentes realizações da palavra “necessário”, afirmando que o português europeu “comeu” as sílabas átonas, o que simplifica um processo que aqui não lhe interessava aprofundar. Mas o seu vídeo é ágil, correcto na explicação da origem e evolução da língua portuguesa, aspecto que já se esperaria de um sólido investigador e também divulgador de variadíssimas questões de língua portuguesa.

Maior atenção, porque deveras controverso, merece o vídeo de apresentação do livro “A Origem da Língua Portuguesa”, de Fernando Rodrigues de Almeida, feita pelo próprio autor. E aqui há que distinguir a matéria do texto publicado, certamente produzido por uma investigação aprofundada, texto que infelizmente não conheço, e a apresentação, fatalmente sumária e destinada a convencer o auditório.

A este respeito, tenho sérias dúvidas se se deve ao autor ou ao editor a questão fundamental: «Afinal o português é mais fenício que latim?». Faço a justiça de supor que se trata de manobra publicitária do editor, completamente descabida e delirante para ser levada a sério, mesmo aceitando a afirmação do autor de que «são centenas as palavras cuja etimologia é claramente fenícia», embora, noutro momento da apresentação, Fernando de Almeida nos confunda ao falar da influência das línguas do próximo Oriente (hebraico, persa, etc.), reunindo-as na componente fenícia para facilitar.

Como se sabe, durante a romanização da península, a língua dos conquistadores teve que confrontar-se com um substrato não homogéneo que acabou por interagir profundamente com o “sermo cotidianus” latino até chegr ao “romance”, a partir do qual se desenvolvou, por vários motivos, entre os quais a resistência dos falares locais, a diversidade linguística. Daí não é sem surpresa que se ouve o autor proferir, como se se tratasse de grande descoberta, que «o latim não era a língua que aqui se falava quando da chegada dos romanos». Parece-me que nunca ninguém disse que o latim cilindrou os falares dos povos da península e não seria preciso chegar à demagogia de que «o povo não falava latim” para expor a sua investigação à volta da etimologia de muitas palavras que o autor assegura serem de origem fenícia.

Ao que se sabe, os fenícios caracterizavam-se pela sua actividade de mercadores, viajaram ao longo do Norte de África, da costa italiana e da Espanha, chegaram â costa alentejana, supondo-se que não ultrapassaram a região de Alcácer do Sal. Não criaram centros duradouros, dada a sua propensão mercantil, mas não é difícil aceitar marcas lexicais que terão confluído nos vários substratos formadores da língua portuguesa. Suponho que o trabalho de Fernando Rodrigues de Almeida se baseia numa investigação científica consistente para esclarecer «etimologias hipotéticas ou inventadas» até chegar à proposta de repensamento da etimologia de muitas palavras portuguesas. E certamente que no seu volume não se limitou a explicar apodicticamente, por exemplo, que «orvalho não é palavra de origem obscura, é evidentemente fenícia», que “acabar” vem de ‘acaba, chegar ao fim’, ou que «’queixo’ significa extremidade, é fenício».

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