Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 192 – por Manuela Degerine

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Planos e pântanos

Até Lires situamo-nos abaixo dos cem metros, iremos depois subindo para o Facho de Lourido (269), de onde desceremos à Senhora da Barca (12 metros). Uma etapa de trinta e dois quilómetros muito bonita, muito agradável e, com o treino que temos: muito fácil. (A mochila parece agora bastante leve e, embora consumisse o cacau, a soja, as nozes, o chocolate, isto é, um bom quilo de vitualhas, devo com certeza o alívio aos músculos.) No entanto… Eis o inconveniente desta variante: saímos do itinerário do Caminho. A estrada acaba e não vemos sinalização. Em frente ou à direita? Por aqui vagueei no ano passado até lobrigar – muito ao longe – um grupo numeroso, mais de vinte que caminhavam de Muxia a Finisterra. Como andara às voltas e sou bastante disléxica: não me recordo de onde foi. E é pouco provável que o fenómeno do magote se volte a repetir. O Caminho de Muxia passa perto. Mas onde? Não avistamos uma alma penada que nos esclareça.

Optamos por seguir em frente, porém poucos metros adiante, num caminho rijo, até parece argila, há uma zona distinta, para mim muito atraente, cor de limão amarelo… Seduzida pela estética, não ligo à singularidade: enterro a perna até ao joelho e, com a surpresa, com o desequilíbrio… Enfio lá a outra.

Agarro-me a Franz. Que me puxa do buraco. Se ele não viesse aqui, eu teria que rastejar; não era calamidade por o terreno estar – quase todo – seco. As polainas impermeáveis, presas aos atacadores, chegam acima do joelho, desempenharam bem a função, por isso não entrou lama, com areia e pedras, para dentro das botas; resta-me lavar tudo quando chegar ao albergue. Prossigo com as pernas pesadas: o mínimo dos percalços.

A peripécia torna-nos mais prudentes, cuidado com estes pântanos, resolvemos girar atrás, subir pelo pinhal, que parece mais franco e, poucos metros acima: encontramos sinalização. Continuamos por veredas encharcadas recorrendo, sempre que possível, aos clássicos eufemismos e subterfúgios, as pedras, as paredes, os desvios, a inclinação do caminho, equilibrando-nos no bordão, pendurando-nos nos ramos, agarrando-nos aqui, ali, acolá… A criatividade vai agora nos pés, nos braços, no peso e balanço do corpo. (Passei do canto à dança.) O condutor do todo-o-terreno não me enganou: a outra variante do caminho constituiu a primeira parte deste imenso lamaçal. Atravessamos Canosa. Chegamos a Lires. Inicio a manobra da despedida…

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