No dia 9 de Maio de 1918, Sidónio é proclamado oficialmente presidente da República.
Durante vários dias sucedem-se as homenagens, culminando numa tourada de gala, realizada na Praça do Campo Pequeno, onde Sidónio é efusivamente vitoriado.
À saída da praça, formou-se um desfile automóvel, que os jornais da época dizem ter sido integrado por mais de duzentas viaturas. Demoraria perto de uma hora a percorrer os novecentos metros que separam o Campo Pequeno da Praça do Saldanha e mais de trinta minutos do Saldanha ao Marquês de Pombal.
Ao chegar ao Rossio, o presidente da República pronunciaria um breve discurso, começando por afirmar: «Como Chefe do Estado entendo que sou chefe de todos os portugueses…», terminando assim: «Serei sempre, em todas as circunstâncias, o mandatário da Nação.» (11)
Foi um dia grande para Sidónio Pais. A multidão vitoriava-o de forma vibrante. «Era o verdadeiro triunfo; devoravam-no com os olhos, adoravam-no numa idolatria… Quase levantavam o presidente nos braços trémulos de alegria, e, cansado, partido, mais abatido do que vigorizado, naquela enorme apoteose, Sidónio agradeceu como surpreendido e aniquilado sob uma glória imensa», dirá Rocha Martins nas suas Memórias.
O presidente no meio das multidões seria o grande cartaz da imagem sobrenatural criada ao redor da figura de Sidónio Pais.
Porém, alguns factos bem materiais contribuíam para a construção e para a consolidação dessa «grandeza sobrenatural».
Eram as ordens superiores para as repartições públicas encerrarem às 13 horas, quando o presidente chegava ao Rossio, às 15.30 horas; eram as paradas militares, que sempre encontram quem as aprecie; eram as cerimónias oficiais, muito ao gosto dos lambe-botas, à espera de promoção; eram enfim, umas tantas «dedicações» ainda hoje nos hábitos de muita gente.
E, para quem julgue que um presidente se aventura assim, sem mais nem menos, no meio das multidões, vem a propósito dizer que Sidónio não se metia ao acaso nos banhos de multidão.
Quando partiu na sua primeira viagem ao Norte, ainda os jornais podiam dizer:
«Ao contrário do que tem sido costume fazer-se, não foram tomadas quaisquer providências policiais, aparecendo apenas na gare (Rossio) o chefe da esquadra policial da Praça da Alegria.»
Mas, já no dia 18 de Janeiro, no regresso dessa viagem, os mesmos jornais davam conta das seguintes «providências»:
«O serviço policial é feito, na Estação do Rossio e na Praça D. Pedro IV, por 97 guardas, 9 cabos, 4 chefes e 1 capitão.
Nas ruas do Carmo, Garrett e Alecrim, por mais 97 guardas, 9 cabos, 4 chefes e 1 alferes.
Da Rua do Arsenal até à Câmara Municipal e Praça do Município outros 85 guardas, 9 cabos, 3 chefes e 1 alferes.
A Polícia é auxiliada por pelotões de cavalaria da GNR, postados na Estação do Rossio, na Rua do Ouro, no Cais do Sodré, na Praça de Camões e na Praça do Comércio.»
A juntar a tudo isto, havia as habituais guardas de honra que, nas recepções a Sidónio, nunca deixavam de mobilizar importantes contingentes de tropa regular.
O Santo Sidónio não deixava a sua segurança ao acaso. É certo que Sidónio era um homem corajoso. Um homem de garra, que em Paialvo ouvira um anónimo gritar-lhe: «Aí, seu teso!»
Nunca o viram recuar perante o perigo nem a abandonar as situações onde os riscos espreitavam.
Era um homem. Um homem de coragem é verdade, mas só um homem.