«O povo existe. O que é preciso é educá-lo. Porém, aqui urge não nos iludir com o lema, porque a educação dum povo faz-se conferindo os direitos públicos a esse mesmo povo. Ele aprende usando, e só assim.»
Sampaio Bruno
«Ai daquele que levantar um dedo ameaçador!»
5 horas e 30 minutos da manhã do dia 18 de Dezembro de 1917.
Da Estação de Santa Apolónia parte um comboio com destino às planícies alentejanas. Numa das carruagens da 3.ª classe toma lugar uma força de soldados com equipamento de viagem. São tropas do Regimento de Infantaria 33, comandadas pelo major Amorim, que conduzem Afonso Costa, debaixo de prisão, para o forte da Graça, de Elvas.
Era a primeira grande demonstração de que Sidónio não iria transigir na repressão aos seus adversários. Se era capaz de o fazer a Afonso Costa, com muito mais facilidade o faria a outros de menor nome público.
E isto foi precisamente o que se verificou dias depois, quando os marinheiros decidem manifestar o seu descontentamento face às afrontas por que o novo regime estava a fazê-los passar.
Logo nos primeiros dias do golpe vitorioso, os marinheiros tinham sido forçados a desfilar na parada militar que consagrava o triunfo das forças comandadas por Sidónio Pais.
A sua dedicação e fidelidade à República e ao Governo constitucional de Afonso Costa custava-lhes a humilhação de desfilar completamente desarmados nessa parada.
Nunca os heróicos marinheiros da República tinham sofrido tão grave vexame.
Mas os sidonistas não estavam ainda satisfeitos!
Às duas da tarde do dia 8 de Janeiro chega ao quartel de Alcântara um camião destinado a retirar todas as munições existentes neste aquartelamento da Armada. De imediato, os cerca de 100 praças e três sargentos presentes desencadeiam um movimento de resistência, com vista a impedir que se consume mais esta afronta dos sidonistas.
Os marinheiros tentam resistir, conforme podem, mas Sidónio Pais já tinha tomado as suas precauções e, logo que os marujos resistiram, foi só carregar sobre eles e resolver o assunto em três tempos.
Antes da chegada do referido camião ao quartel de Alcântara, Sidónio mandara a sua tropa ocupar posições em volta do local.
Na Rotunda, no Alto do Monsanto e no Castelo estavam igualmente concentradas forças sidonistas, preparadas para sufocar qualquer leviandade dos marinheiros
O próprio Sidónio deixara os seus aposentos no Avenida Palace para tomar o comando pessoal das operações.
Durante a noite choveu torrencialmente sobre Lisboa.
De madrugada, os marinheiros, abandonados à sua sorte pela maioria dos oficiais, abdicam da sua resistência. O tenente sidonista Teófilo Duarte entra no quartel e limita-se a aceitar a resignação dos vencidos, reconhecendo-lhes, todavia, a coragem e o valor.
— «Rapazes… Sois uns valentes … Quem me dera comandar-vos — diz Teófilo Duarte na parada do quartel de Alcântara. Como gostaria de vos comandar!» (1)
Na manhã seguinte, quando o couraçado Vasco da Gama se coloca frente ao Terreiro do Paço a fim de secundar a revolta, toda a artilharia da cidade estava à sua espera.
Sidónio encontrava-se na esplanada do Castelo de S. Jorge e faz gala em ser ele próprio a dirigir o tiro que se abate impiedosamente sobre o Vasco da Gama.
De binóculos em riste procura dirigir a pontaria dos canhões artilharia do Castelo e não descansa enquanto não vê tudo esmagado.
O Vasco da Gama já tinha içado o sinal 3, de rendição. No convés e na popa viam-se dois grandes buracos causados por tiros certeiros. O próprio paiol do navio fora atravessado por uma série de tiros que as peças do alferes Libório desferiram com soberba pontaria.
Mas para Sidónio ainda era pouco! Continua a mandar disparar sobre tudo o que mexe na zona do Tejo, não poupando as baleeiras onde se refugiam os revoltosos.