POR QUE NÃO HÁ NENHUM PROTESTO DE MASSAS, NENHUMA CONTESTAÇÃO COLECTIVA – por ROBERT REICH

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Robert Reich – Why There’s No Outcry  

25 de Janeiro de 2014

As pessoas  perguntam-me muito frequentemente  porque é que nós não temos uma revolução nos Estados Unidos  ou, pelo menos,  uma onda colectiva de contestação que leve a uma  reforma similar àquela que deu origem à  era progressiva ou ao New  Deal   ou à  Grande Sociedade.

Os rendimentos  médios estão a  afundar-se, os patamares  de pobreza estão a ficar preenchidos com cada vez mais gente , quase todos os ganhos económicos estão a ser canalizados para os rendimentos de topo e as grandes fortunas   estão a corromper a  nossa democracia. Assim, como é que não há perturbações da ordem pública?

A resposta é complexa, mas destacam-se três razões:

Primeira, a classe trabalhadora está  paralisada pelo  medo de poder  perder os empregos e os salários que já tem.

Nas décadas anteriores, a classe trabalhadora fomentou a reforma. O movimento dos trabalhadores conseguiu impor um salário mínimo, 40 horas semanais, seguro-desemprego e Segurança Social.

Não, de modo nenhum. Os trabalhadores não se atrevem. A percentagem de americanos em idade activa com empregos seguros  é agora menor do que em  qualquer outro momento nestas  últimas três décadas e 76% deles estão a viver do dia a dia, do salário de mês a mês.

Ninguém tem qualquer segurança de emprego. A última coisa que querem é a de fazerem  parte da agitação social e com o risco de perderem o muito pouco que têm.

Além disso, os seus principais meios de organização –sindicatos –foram dizimados. Há quatro décadas, mais de um terço dos trabalhadores do sector privado eram sindicalizados. Agora, menos de 7 por cento pertencem a um sindicato.

Em segundo lugar, os estudantes não se atrevem  a agitar o barco. .

Em décadas anteriores, os estudantes foram uma grande força na criação de condições  para a mudança social. Eles desempenharam  um papel activo no movimento dos direitos civis, o movimento de liberdade de expressão e contra a guerra do Vietname.

Mas os alunos de hoje não querem fazer  nenhuma contestação. Eles estão sobrecarregados de dívidas. Desde 1999, que as dívidas dos estudantes aumentaram mais de 500 por cento, enquanto que a média salarial para o início de carreira tenha caído de 10 por cento, ajustado pela inflação. As dívidas dos estudantes não poderão ser canceladas por declaração de situação de falência. Uma situação de incumprimento implica sanções e arruína-lhes o seu rating de crédito.

Para tornar a  situação  ainda pior, o mercado de trabalho para os recém-formados continua péssimo. Isso é o  que os  registos de moradas nos indicam, ou seja  que eles ainda  continuam a viver em  casa dos pais

Reformistas  e revolucionários não estão  preocupados por viverem com a mãe e o pai, nem inquietos com a questão dos  ratings de crédito e com as recomendações do trabalho.

Em terceiro lugar e, finalmente, o público americano tornou-se tão cínico sobre o governo que muitos já não pensam sequer que a reforma é possível.

Quando se lhes pergunta  se  acreditam que o governo fará  as coisas que devem e como devem ser feitas  na maioria das vezes, são menos de 20 por cento dos americanos  os que concordam. Há cinquenta anos atrás, quando essa pergunta foi pela primeira vez levantada em sondagens eram mais de 75% dos americanos que que estavam de  acordo.

É difícil conseguir que as pessoas trabalhem para mudar a sociedade ou mesmo para mudar algumas leis quando elas não acreditam que o governo venha a funcionar como seria de esperar, face ás mudanças desejadas.

Nós teríamos de acreditar numa conspiração gigante para pensar que tudo isso era obra  das  forças na América mais resistentes a mudanças sociais positivas.

É possível, obviamente, que tenham cortado intencionalmente empregos e salários nem que seja só para intimidar trabalhadores comuns, que tenham encharcado estudantes com tantas dívidas que eles nunca venham para as ruas e que tenham tornado muitos Americanos tão cépticos em relação ao governo que eles nunca ponderem a mudança..

Mas é mais provável que simplesmente tenham deixado destapar tudo isto como se se tratasse de um enorme lençol molhado sobre o ultraje e a indignação que a maior parte dos americanos sentem mas não exprimem.

De toda a maneira o sentimento de revolta começa a dar sinais, a mudança de uma maneira ou de outra ir-se-á verificar.   Não toleramos que uma parte cada vez maior do rendimento do país e  da riqueza seja apropriada pelas gentes mais ricas  enquanto os rendimentos do agregado familiar médio continuam paralelamente a cair e em demasia, enquanto um em cada  cinco das nossas crianças vivem em extrema pobreza, enquanto muito  dinheiro  está a minar  a nossa democracia.

Em  qualquer altura, os trabalhadores, os estudantes e a população  em geral irão sentir  que basta, já é demais.  Quando tal acontecer, eles  irão exigir outra economias, irão exigir a Democracia. Esta tem sido a lição central da história americana.

A Reforma é menos arriscada do que a revolução, mas quanto mais esperarmos pela mudança , o mais  provável, então, será que se venha a verificar esta  última.

Robert Reich – Why There’s No Outcry  

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Ver o original em:

http://robertreich.org/post/74519195381

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