ALVES REDOL. FOTOBIOGRAFIA. FRAGMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS – por Manuel Simões

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Temo-nos referido com frequência a esta obra sobre Alves Redol, figura cimeira do neo-realismo. É com prazer e orgulho que apresentamos agora uma recensão crítica pelo argonauta e Professor Manuel Simões.

O fecundo escritor e grande animador da literatura portuguesa na segunda metade do século XX, autorImagem2 de uma obra exemplar e, a todos os títulos, promotor de primeira água do que viria a designar-se por neo-realismo, há muito que merecia um trabalho de prospecção que unisse a biografia a tantos momentos nucleares dos seus muitos textos literários. Projecto várias vezes anunciado, só agora se oferece ao público (“Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos”, organização de António Mota Redol, selecção de textos autobiográficos por Vítor Viçoso, Lisboa, Althum.com, 2013) uma organização semiótica que estabelece os muitos elos de ligação entre a obra e o homem, entre a complexa trama de vivências e de experiências que de algum modo explicam a maturidade de um autor (1911-1969) que, não obstante a extensa e intensa escritura, nos deixou prematuramente, em plena actividade de criação literária.

Embora obedecendo à forma canónica deste tipo de obras, e seguindo, portanto, um critério cronológico que vai dos antecedentes familiares aos últimos instantes do seu funeral em Vila Franca de Xira (30/XI/1969), a organização dos materiais – fotos e segmentos textuais – é acompanhada pela narrativa sequencial, da responsabilidade de António Mota Redol, dos momentos qualificantes de um escritor confrontado com um tempo histórico que também se decidia a nível internacional.

Neste aspecto a iconografia reflecte bem o reconhecimento que lhe foi tributado por grandes figuras da cultura portuguesa, desde os tempos de “O Diabo” e de “Sol Nascente”, e de muitos intelectuais já afirmados na cena internacional. Recorde-se aqui, porque nem sempre este facto é conhecido, que Alves Redol foi o primeiro secretário-geral da delegação em Portugal do PEN Club Internacional, circunstância que tornou possível o contacto entre os escritores portugueses e o mundo da cultura, abrindo portas ao conhecimento e à tradução de obras da literatura portuguesa.

De facto, se a iconografia é elemento significativo para a reconstrução da biografia, a escolha aqui operada é fundamental para se avaliar a estima de personagens como Jorge Amado (lembre-se o jantar no aeroporto de Lisboa, vigiadíssimo pela PIDE, dada a proibição da sua entrada no país) ou Pablo Neruda, entre outros, embora seja de elogiar o privilégio que António Mota Redol resolveu conceder a figuras da cultura portuguesa, até para contextualizar acções de carácter político-cultural ou projectos de natureza literária.

A “narrativa” é, pois, de grande riqueza informativa e reúne peças que fizeram a história sócio-cultural do país, sendo de salientar, entre muitos outros, os segmentos “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”, constituído em 1936 (pp. 31-32), “A base teórica do Neo-Realismo” (p. 32), “Surgimento do Neo-Realismo” em 1938 (pp. 37-38),  ou “Polémica Interna do Neo-Realismo”, já em 1952 (pp. 89-91), até porque clarificam a posição de Alves Redol, firme mas aberta ao diálogo, nos inevitáveis momentos de tensão por que passou o movimento.

A esta unidade entre a iconografia e a narrativa, onde não raro se “descobre” a génese de muitas das obras do autor, associam-se os inúmeros “fragmentos autobiográficos” seleccionados por Vítor Viçoso, conhecido e profundo estudioso da obra de Redol, à qual dedicou muitos ensaios de referência obrigatória, não só pela clareza de análise mas sobretudo como contributos fundamentais para a hermenêutica da mesma. Também por isso Vítor Viçoso veio a revelar-se o “seleccionador” ideal para fornecer ao leitor, como aqui se pretendia, segmentos caracterizantes da essencialidade do pensamento do autor e da sua estética, desde os primórdios da sua aventura escritural e da procura de uma oficina inovadora e sem reticências de carácter formal, tudo isto, como Redol escreveu na “Breve memória” à 6ª. edição de “Gaibéus” (1965), no sentido de «alcançar o equilíbrio entre o que gostaria de contar e a maneira de fazê-lo, embora soubesse que a prioridade caberia ao conhecimento do homem através dos seus problemas colectivos e individuais» (p. 27). Um dos muitos meta-textos que Vítor Viçoso traz agora à colação e que só confirmam a ética de uma escrita em busca da palavra exacta e ao serviço do discurso.

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