FRATERNIZAR – A derradeira Páscoa de Laura Conceição – por Mário de Oliveira

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A notícia apanhou-me em plena Missão

A notícia da sua derradeira Páscoa apanhou-me em plena Missão com JESUS SEGUNDO JOÃO, em Alhos Vedros e no Barreiro, para lá do Tejo. Impossível, pois, estar fisicamente presente, em Mogege, freguesia do Concelho de V N de Famalicão, onde tudo acabava de acontecer. Nessa impossibilidade, enviei uma msg de tlm a uma das filhas dela, a mais velha, e que diz: “Olá, Quina e irmãos. Já sei da Páscoa da vossa Mãe, minha amiga. Na dor, rebentam também a Alegria e a Paz. Estou inteiro convosco, mas em Missão no Barreiro. Abraço-vos.” Após o regresso à casinha arrendada onde vivo, em Macieira da Lixa, entrei de imediato em contacto telefónico com Joaquina e propus-me ir lá, à casa, onde Laura Conceição sempre viveu, primeiro, na companhia do marido, e, estes últimos anos, já na sua condição de viúva. Era garantido que encontraria lá a filha mais velha que a acompanhou na doença, quase a tempo integral, tal como já havia acompanhado o pai, na sua prolongada doença. E, com ela, encontraria o seu irmão Eduardo que, três vezes por semana, é transportado pelos Bombeiros aos tratamentos de hemodiálise. O telefonema e a minha disponibilidade para ir lá a casa deixaram, cheia de paz, Joaquina que logo passou a notícia à sua irmã Zesa e aos demais irmãos e familiares das redondezas. Era para ir lanchar com elas e com os irmãos que pudessem congregar-se lá à mesma hora. Em viva e intensa comunhão com a Mãe delas e deles, agora definitivamente vivente e, por isso, definitivamente invisível aos nossos olhos e demais sentidos.

O lanche que propus, veio a ser substituído por um almoço partilhado na mesma cozinha onde outras vezes comi/comunguei também com Laura Conceição e, antes, também com o meu amigo Marques, seu marido. Um almoço que quisemos fosse Eucaristia e comunhão intensa com Laura, a mãe delas, deles, e minha amiga de muitos anos. Quando soube da proposta de nos encontrarmos ao almoço, de preferência, ao lanche, alegrei-me e aderi, inteiro. O Sinal (semeion, em grego evangélico) seria ainda mais completo e muito mais substantivo. E logo adiantei, firme: Levarei comigo o Pão para ser Partido em memória de Jesus e em comunhão com Laura, vossa mãe. João, o companheiro de Zesa, levou com ele o Vinho. E Joaquina assumiu a confecção do almoço. Um assado no forno, como se aquele dia, 5.ª feira, 20 de Fevereiro 2014, fosse domingo, ou dia de festa. E de festa era, porque a festa é sempre que dois ou três nos reunimos em volta da Mesa compartilhada e nos damos a comer e a beber uns aos outros, ao jeito de Jesus, pela vida do mundo.

Cheguei um pouco antes da hora prevista. Os abraços prolongados e os beijos sucederam-se com cada um deles. Primeiro, com Serafim, o filho mais novo de Laura e vizinho de Joaquina e de Eduardo, respectivamente, sua irmã e seu irmão. Pressentiu a minha chegada e saiu de casa ao meu encontro. Depois, com Joaquina e com Eduardo, com Zesa e com João. E, mais tarde, também com a mulher de Serafim e vários netos de Laura que, ao saberem de mim, ali na casa que foi da sua Avó, fizeram questão de aparecer e de comungar, por momentos, desta fecunda vivência. Outros encontros sucederão lá em casa, mas agora, apenas com as filhas e os filhos, sempre na presença invisível aos olhos, da sua Mãe e do seu pai, para, todos juntos, decidirem o que será feito daquela casa que foi dos pais e que, presentemente, está habitada por Joaquina e Eduardo, assim como das outras casas onde residem os outros filhos, à excepção de um que vive em casa própria. São as inevitáveis sequelas da Páscoa definitiva de alguém que deixa algum património, em herança. Ao tornar-se invisível aos olhos, torna-se, para sempre, Corpo-Consciência entre nós e connosco. Porque a condição de invisibilidade não é não-existência. Pelo contrário, é a indispensável condição, para que a vida de cada mulher, cada homem possa prosseguir, em dimensões outras que desconhecemos, enquanto não nos acontecer a derradeira Páscoa.

Em Jesus, o ser humano que leva o Humano à sua plenitude, pudemos/podemos ver que a Morte, ao contrário do que parece, não é o Muro intransponível e o fim da vida. É, sim, a Porta que nos conduz à vida sem ocaso, num Hoje permanente e sempre novo. “Eu sou a Porta”, diz JESUS SEGUNDO JOÃO. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!” Só o Ser Humano que se desenvolve de dentro para fora até ao limite e para lá do limite, opera semelhante abertura. Ao entregar o seu último Sopro, este rebenta com todos os limites. E a vida torna-se definitivamente Corpo-Consciência, sem ocupar espaço, torna-se rio que chega ao Mar/Oceano. Para isso, acontecemos, um dia, pura graça, na história: para sermos plenitude de vida, corpos-consciência, irrepetíveis e únicos. Para sempre.

O almoço foi de partilha. De Palavra e de Pão. Porque quem diz Pão, diz Palavra. E quem diz Palavra, diz Pão. A palavra sem pão é apenas um conceito vazio. Um som estéril. Ideologia. Engana meninos, tira-lhes o pão. À medida que comemos, também dissemos com simplicidade o viver de Laura no nosso próprio viver. Foi um dizer partilhado, misturado com lágrimas de paz e de saudade, só porque ainda não desenvolvemos bastante a linguagem dos afectos, a única que consegue ver o Invisível e escutar o Essencial. Partilhei com todas, todos, o que de bom e de belo, tem sido para mim a derradeira Páscoa de Ti Maria do Grilo, minha mãe. E crescemos progressivamente em paz e em alegria, em abraços e em beijos. A cozinha onde almoçámos fez-se ventre de vida. E a Mesa compartilhada, comensalidade. A orfandade inicial deu lugar a intensa presença de Laura Conceição. Toda a casa está, desde então, cheia da sua presença. E será com Laura Conceição que as suas filhas, os seus filhos decidirão, na justiça e na ternura, a partilha das casas que os pais construíram e deixaram para eles. Este almoço partilhado é uma mais-valia nesse sentido. Porque para isto nos reunimos em memória de Jesus e em comunhão com Laura Conceição: para sermos outros Jesus, também à hora de tomarmos decisões, no que respeita à partilha dos bens.

 Regressei à minha casinha arrendada, já depois das 16 horas, com a convicção de que tudo irá ser feito no respeito pela justiça e na ternura sororal/fraterna, segundo o princípio feminino, gerador do Humano, De cada um, segundo as suas necessidades. Em comunhão com Laura Conceição, a mãe delas, deles, que, durante mais de 80 anos, se desfez em ternura e em entrega de si, até à plenitude. E que lhes deu o seu último sopro, na pessoa da filha Zesa que, em nome de todos os irmãos, mais a acompanhou de perto, no Hospital de Famalicão. Cantemos.

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