SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA – 11 – Breve introdução ao reintegracionismo linguístico galego – (II) – por Carlos Durão

(Continuação)

Nos anos 70, pouco antes da morte do ditador general Franco, o Estado Espanhol acabou por reconhecer o renascimento do uso literário da língua, com a vontade crescente do seu ensino público. Nessas circunstâncias, planejou e criou o “Instituto de la Lengua Gallega” (ILG, fundado no 1971, e presidido por Constantino García González), com o intuito de controlar o desenvolvimento da língua, a começar pela ortografia, já abertamente castelhana.

Diz García: “Eu non teño nada que discutir con ninguén. Eu teño o poder agora e solo teño que poñer a miña xente nos postos claves e de poder. Será Carballo Calero, en representación da Academia Galega, quen terá que explicar a súa normativa. El non ten o poder” (Adela Figueroa Panisse, depoimento pessoal). Também disse: “nós non debatemos nada mentras teñamos o poder” (José Paz: http://www.pglingua.org/noticias/entrevistas/2172-jose-paz-la-melhor-aposta-para-introduzir-a-lingua-e-atraves-da-educacao-informal-do-ensino-ludicor).

Essa manobra do Estado Espanhol já fora desmascarada pelo Grupo de Trabalho Galego de Londres: “uma técnica pedagógica que semelha proteger as línguas vernáculas pode ser, em realidade, o instrumento de uma política que tem decidido eliminá-las” (1971, 32: 206)

E assim se confirmou: Xosé Ramón Barreiro, quando era Presidente da Real Academia Galega, confessava: “Hoxe podemos dicir que o ILGA está practicamente integrado na Academia” (2007).

Em Portugal, M. Rodrigues Lapa, que já nos anos 30 se ocupara com carinho da nossa língua (tinha à honra chamar-se “galego de Anadia”), publicou então o seu soado artigo “A recuperação literária do galego” (1973, 13: 5-14), avisando do perigo da “castrapização” propositada da língua:

 “o galego de hoje é um composto de formas arcaicas e populares do galego-português com mistura aberrante de castelhanismos de toda a espécie. A este idioma desgraçadamente poluído dá-se o nome de ‘castrapo’” (1982: 235-236).

“Com a teimosia, levada ao paroxismo, o Galego sofre hoje de outro mal, o complexo da singularidade; e isso leva-o a recusar o retorno à tradição comum […]” (1981); “o galego, ou se perde, devorado pelo castelhano, ou se salva, incorporado no português, sua língua natural, como pretendia o grande Castelão” (1983.1986, 6/10: 26)

E ainda: “Com efeito, aquilo que atrás dissemos sobre o caso brasileiro, poderíamos repeti-lo quase nos mesmos termos a respeito do galego: fala galega, mas língua literária portuguesa da Galiza sob o nome de portugalego, isto é, com as peculiaridades próprias de cada uma, sem prejuízo da unidade fundamental […]” (1979: 125/127/128)

Em 1978 sai à luz a “Constitución española”, cujo artigo 3o 1. diz: “El castellano es la lengua española oficial del Estado. Todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho de usarla.  2. Las demás lenguas españolas serán también oficiales en las respectivas Comunidades Autónomas de acuerdo con sus Estatutos”.

E, a seguir, o “Estatuto de Autonomía para Galicia”, cujo artigo 5o 1. diz: “La lengua propia de Galicia es el gallego. 2. Los idiomas gallego y castellano son oficiales en Galicia y todos tienen el derecho de conocerlos y usarlos”.

Consequentemente, o professor Ramón Lorenzo (que foi um importante colaborador nos textos do ILG, como também na redação das normas do chamado “galego autonómico”, mas que antes saudara com entusiasmo as teses de Guerra da Cal), declarou: “No nos interesa una normativa para que nos entiendan en Angola, Mozambique, o Brasil” (1982, 51); “a separación hoxe entre o galego e o português é enorme. E o feito é que nós, cando imos a Portugal, non nos entenden nin nós a eles. A separación é total” (1981); “O galego e o castelán teñen hoxe unhas características moi semellantes, cousa que non sucede entre o galego e o portugués falado, e mesmo escrito” (1981); “Tamén din que doutra maneira [com o reintegracionismo] teriamos unha lingua con non sei cantos millóns de habitantes, pero iso é absurdo porque para ter unha lingua de máis habitantes temos o castelán que, ademais, sabemos falalo mellor” (2011: 29)

Constituem-se então ativas associações reintegracionistas, entre elas: em 1980, a Associação de Amizade Galiza-Portugal; em 1981 a Associaçom Galega da Língua (AGAL); no 1982, as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal; em 2008, a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).

Dentro dessa movimentação cívica, podemos mencionar as intervenções de eurodeputados galegos no Parlamento Europeu: José Posada, Camilo Nogueira, Ana Miranda, que falaram e escreveram habitualmente com sotaque e léxico da Galiza, e foram ali traduzidos para as outras línguas pelos funcionários que realizam as traduções da língua portuguesa. A este respeito diz Camilo Nogueira: “Negar que galego e português são a mesma língua é puro espanholismo” (2013).

Poderíamos ainda falar da recente recolhida de 17.000 assinaturas em apoio da Iniciativa Legislativa Popular V. Paz-Andrade para o ensino público do português na Galiza; ou da questão relacionada da aceitação extraoficial do Acordo Ortográfico, que justifica a não subordinação à norma lisboeta; ou da persistência da diplomacia portuguesa em vetar a pertença da Galiza à CPLP, etc., mas não são temas a tratar aqui.

Deixemos agora as derradeiras palavras complementares para os testemunhos pessoais: da Galiza:

I. Alonso Estraviz: “O galego não precisa fundir-se com o português […] pois o galego é português e o português é galego […]” (1986, 1: 20-22); “Se se admite que galego e português é o mesmo idioma, não se concebe muito bem o falar umas vezes do português falado na Galiza e outras dos idiomas galego e português […]” (1998, 53: 15); “Todas as particularidades fonéticas e morfológicas que se dão em Portugal, dão-se, em maior ou menor medida, na Galiza. E todas as particularidades existentes na Galiza, existem, em maior ou menor proporção, também em Portugal […] Por tanto, para mim, trata-se de ressuscitar uma ortografia que também foi nossa”  (1978, 62: 477-479)

A. Gil Hernández: “A ‘solução (final)’ foi o acto de governo da “Xunta” que, sancionando politicamente o acordo da R.A.G. e o I.L.G., mostra a decidida vontade política de reconduzir o processo normalizador iniciado em 1916 com as Irmandades da Fala, truncado pela guerra civil e recomeçado colectivamente durante os anos sessenta-setenta […]” (1986, 6/10: 276-278)

J.M. Montero Santalha: “A Galiza é um país de língua portuguesa, um país lusófono: embora muitos dos demais lusófonos o ignorem, fala uma forma de português que os galegos denominamos por vezes «galego» ou mesmo «língua galega», e este factor linguístico é, ademais, o principal sinal de identidade coletiva da Galiza […] a Galiza encerra ainda uma parte do mais autêntico tesouro do idioma, vivo não só na sua tradição literária e popular mas também na fala habitual de muitos galegos, como consequência do facto de ser a língua «nativa» do território, ou, como diz o nosso Estatuto de Autonomia, «a língua própria»” (2009); “Temos claro que a língua da Galiza não sobreviverá se quer fazê-lo fora do mundo lusófono. […] O galego só vai sobreviver como português. Se não for assim, morrerá, ficará como o resto de uma língua escrita […]. Sempre haverá uma minoria que defenda a sua língua como português, que talvez chegue a ser maioria algum dia, de modo que para o futuro da língua, cremos ser o único caminho.” (2011: 260)

R. Carvalho Calero: “porque o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo, e politicamente com o Galeguismo […] O reintegracionismo, portanto, não é outra cousa que aquela doutrina que quer devolver a sua própria natureza ao Galego” (1987, 18-22: 14-17); “há formas mais usuais em Galiza e formas mais usuais em Portugal. Com o que a distinção a que se chega finalmente entre galego e português está determinada pela referência electiva entre as diversas formas do sistema para constituir as respectivas normas” (1983.1984: 18-19); “De nada nos serviria que todo o mundo falasse e escrevesse em galego se esse galego […] era realmente um castelhano agalegado […] Não abonda com que se fale galego, é que é preciso que esse galego seja galego, é dizer, que não seja um produto que com nome de galego nos apresente um dialecto do castelhano. Assim que esta é a significação que tem o esforço que estão realizando muitos intelectuais galegos em pró duma reintegração do nosso idioma no seu sistema próprio […]” (1986: 239-240) “Mas o fim está claro: consiste na reintegração da norma galega dentro do sistema natural a que pertence historicamente, e do qual representa uma parte do tronco comum.  Esta política linguística é a propugnada por Castelão quando exprime o seu desejo de que o galego se aproxime ao português até confundir-se com ele.  Entendemos: até reintegrar-se no seu sistema natural, até confluir com o português no seio desse sistema, sem prejuízo de manter a sua própria norma, como é o caso do brasileiro […]” (1986, 4; 1986: 20)

(Continua)

1 Comment

Leave a Reply