Voltamos sempre à mesma questão – ceci tuera cela – ? O livro electrónico vai acabar com o livro impresso? É com uma sensação de volúpia que pessoas pertencentes às gerações mais antigas, como a minha, folheiam o livro, aspiram o seu odor, apreciam a textura e a gramagem do papel. Mas, esta relação afectiva, é uma questão geracional. Daqui por uns anos estes dinossáurios terão desaparecido. E com eles morrerá também a nostalgia do livro impresso. As novas gerações estarão preparadas para acolher novos suportes de leitura. Só é preciso que eles existam. Nada do que existe substitui satisfatoriamente o livro impresso.
Muitos anunciam a morte do livro como hoje o conhecemos e a inevitabilidade do triunfo do livro digital. Pudemos ler a opinião de Umberto Eco, segundo a qual o livro é uma daquelas invenções que, como a roda, como a colher, como o machado, nunca serão substituídas – são invenções consolidadas. Acho que tem razão. Em 1489, portanto há quase 525 anos, foi impresso em Chaves o Tratado de Confissom, o primeiro, ou um dos primeiros, incunábulos em português. Trata-se de um manual destinado aos membros do clero, aconselhando-os na missão de ministrar aos fiéis o sacramento da confissão e da penitência. Aborda questões ainda hoje, mais de cinco séculos decorridos, delicadas e polémicas – o adultério, a violação ou estupro, a pedofilia, o incesto, o aborto, a homossexualidade. Descoberto em 1965 pelo Professor José Vitorino de Pina Martins (1920), foi publicado em 1973 em edição diplomática, com um estudo introdutório do investigador.
Se quisermos ler o Tratado de Confissom, isso depende do nosso saber paleográfico e não de qualquer sistema externo. Mas se quisermos ler um livro gravado em disquete de há dez anos atrás, teremos problemas. Para que o livro electrónico substitua o livro impresso é indispensável que se produza um sistema standard estabilizado, que não seja destronado quase todos os anos por modelos «mais recentes». Parece-me que essa etapa ainda está distante. Até porque a voracidade do negócio impede a estabilização e exige uma sucessiva novidade.
Já por diversas vezes referi, em textos publicados noutros sítios, o receio que por aquela época de transição entre a «Idade Velha» e a «Idade Nova», entre a Idade Média e o Renascimento, de que o livro impresso viesse usurpar o papel até então desempenhado por outros suportes na difusão da palavra divina – a arquitectura e sobretudo a escultura. Temia-se também que a importância dos sacerdotes fosse afectada, as homilias dominicais substituídas pela leitura directa dos textos sagrados. A Igreja de Roma nunca acarinhou a difusão da Bíblia – as escrituras deviam chegar aos fiéis filtradas pela interpretação dos padres. A aposta da Reforma foi outra e o reformismo espalhou-se como fogo em seara seca – cada bíblia impressa e distribuída era como um sacerdote, um missionário – a palavra de Deus levada directamente do produtor ao consumidor. Um avanço tão grande, ou maior, do que aquele que a Internet veio trazer relativamente a anteriores sistemas de informação. Porém, os «papistas», como vemos pelo «Tratado de Confisson» , temendo o invento de Gutenberg, não desdenharam de o usar na formação dos seus quadros.
Passado e futuro, não são incompatíveis – o presente é feito de ambos.


Verdade! Passado e presente não são incompatíveis, mas… Seria fantástico se pudessemos descarregar de borla na internet o tratado de confissiom… Não? lol
Seria fantástico e muy instrutivo…
Tenho alguma ligação, muitíssimo modesta, à referida edição diplomática de 1973, pois uma grande amiga minha, de raro brilhantismo intelectual e aluna dilecta do Professor Pina Martins, fez o trabalho preparatório de descodificação do texto, cheio, como era hábito na época, de variadas grafias e de inúmeras (e igualmente diversificadas) abreviaturas. Trabalho que, algumas vezes, partilhámos. Recordo-me de nos encontrarmos, numa aprazível esplanada do Campo Grande, estendendo em cima da mesa fotocópias muito aumentadas do venerável incunábulo, na altura considerado o primeiro impresso “em português”, versão que – tanto quanto sei, não tendo seguido de perto estas questões, nos últimos anos – não foi contrariada até hoje, já que livros com datas de impressão anteriores, confirmadas, são em latim e em hebraico, sendo mesmo nesta língua aquele a que penso atribuir-se actualmente a primazia na antiguidade.
Claro que o “Tratado de Confissom” é um documento de grande importância histórica, que fornece uma riquíssima informação aos especialistas.
Mas, para nós, dos primeiros a contactar com ele e que o olhávamos de uma perspectiva temporal e civilizacional bem diversa, foi também fonte de boas gargalhadas, que aligeiravam o trabalho (aliás, diria que apaixonante), pois, em não poucos casos, a caracterização extremamente minuciosa dos “pecados” e respectivas “penitências” – variáveis, para o mesmo delito, consoante o posicionamento social e na hierarquia eclesiástica dos prevaricadores, em particular de cada um dos intervenientes”, quando de “comércio sexual” se tratava – eram irresistivelmente hilariantes… E suspeito que continuarão a ser, mesmo para o mais erudito dos seus leitores, não deixando de constituir preciosos testemunhos de costumes, mentalidades, conceitos e preconceitos… além de usos e práticas cuja descrição seria, mesmo nos dias de hoje, recomendada pela hierarquia religiosa como “para adultos com sérias reservas”.