O NEOLIBERALISMO COMO MÁQUINA DE DESTRUIÇÃO, de CHEMS EDDINE CHITOUR

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O neoliberalismo como máquina de destruição

O coveiro das identidades e do viver em conjunto

neoliberalismo - I

Chems Eddine Chitour*[1] 


«Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Mateus 10:16»

Não se passa nenhum dia sem que não se verifiquem danos no mundo provocados pelo neoliberalismo que rói os equilíbrios sociológicos das populações, as sedimentações de identidade e de expectativas, até mesmo religiosas. Nada se deve opor a esta máquina diabólica. No presente trabalho citaremos o funcionamento do neoliberalismo de que os gurus demonstram ter uma imaginação sem limites e em que se  faz  com que os políticos sem escrúpulos apliquem a poção amarga que eles determinam e é se querem ficar nos lugares que politicamente ocupam. O neoliberalismo veste as roupagens da tentação para a maioria dos ” carneiros” e a fabricação de miragens que permitem ao consumidor pensar que tudo é permitido, que se é um campeão, que o mundo lhe pertence e que ele tem todas as qualidades com que a publicidade o martela sem cessar, incluindo a do culto do corpo ao qual ele ou ela se identifica.

A cultura industrializada formata as mentalidades

A massificação cultural, o que é vulgarmente chamado como “macdonalização ” da cultura é hoje uma realidade. As línguas, suportes dos media, lutam em vão e em diferentes graus, contra a vulgata planetária, para utilizarmos uma correcta e justa afirmação de Bourdieu. Este é o caso da língua francesa, que é defendida, de uma maneira ou de outra, por todos os que falam francês, mesmo que a luta seja desigual. A Argélia é, em graus variados, enquanto segundo país francófono não só pratica esta língua, mas enriqueceu  o melhor que ela pôde esta rica herança universal sem se sentir atormentada pela Francofonia.

neoliberalismo - II

No entanto a língua e a cultura não podem sobreviver se eles têm de andar a resistir a uma ofensiva destinada a impor uma doxa transatlântica que quer a erosão das identidades a favor da cultura Macdo. Nós compreendemos bem  que Jacques-Yves Rossignol se comova com a França a desfazer-se, a fragmentar-se do ponto de vista das identidades e, por sua vez, acusa o Império. Ele toma como exemplo as indústrias culturais que considera debilitantes. Ouçamos o seu grito vindo do coração: “ ‘ no final do século XX, tornou-se impossível continuar a ter lucros num país civilizado sem atentar à consciência dos consumidores dignos de crédito pela indústria da cultura (cinema, música, arte e assim por diante).» Passou-se para o consumo cultural por força dos factos e do sistemas. Tal como o ‘liberalismo’, a cretinização pela cultura industrializada agora obrigatória atinge todas as consciências. Quer isto dizer que realmente o “neoliberalismo” é uma terrível alienação generalizada por uma economia assente no muito dinheiro, por uma economia de apropriação. Há a generalização de novos tipos de mentalidades. Mas estas atitudes, estas mentalidades, dão a estranha impressão de serem induzidas automaticamente, como teleguiadas. . Jacques-Yves Rossignol denunciou os “sábios” que têm a vocação de trair a favor de um neoliberalismo sedutor, como Dany Robert Dufour o descreveu: ‘ os burgueses da ‘nova esquerda’, os burgueses do catolicismo social, os pequenos burgueses convertido ao activismo da globalização , os artistas e os “culturosos” participam todos do capitalismo cultural e do seu proselitismo. Populações pasmadas, em situação desagradável, em situação de ruptura, com  as pessoas a  não compreenderem  o seu triste estado mental e a desenvolverem um ódio sem sentido para com o pequeno  povo francês[2]“.

« (…) Os zombis culturais, portanto, vão ser os responsáveis pela transformação de boa vontade ou pela força dessas pessoas recalcitrantes, que pretendem ainda  rir, brincar, ironizar, ser gentis,  num enorme  conjunto de atrofiados mentais. Daí esta  fascinação, esta adulação dos burgueses  masoquistas culturais acima referidos por estes  heróis encarregados de acabar com o  pequeno povo francês: o imigrante, o estrangeiro, o artista (…). A manutenção permanente da população em estado de atrofia mental pela indústria cultural e em particular pelas drogas sonoras  (“música”) constitui  um novo modo de dominação. (…) A indústria cultural criou um novo mundo, tendo ultrapassado e suplantado a história orgânica. Não tem compreendeu a completa revolução mental causada pela indústria cultural: consciências fabricadas e teleguiadas à escala mundial.  (…) Agora desesperadamente tentamos levar uma vida humana no meio do inferno cultural inventado actualmente e  que tem dominado o mundo.

Na mesma ordem de alienação para o Império, até mesmo os vassalos do Império não estão imunes. É Ignacio Ramonet, que escreveu: “O Império não tem aliados, tem apenas vassalos.” Nesta ordem, o descorticar sobre fundos rochosos a identidade francesa está programado para fazer crer esta publicação sobre o projeto de Rivkin[3] ou como a  globalização usa o multiculturalismo para sujeitar as nações soberanas.

“Um documento publicado na França retomou um estudo americano de 2011, em que as autoridades americanas se mostram terem uma visão do mundo que, em poucas palavras, podemos dizer que promove a fragmentação. Na França, isto tem sido objecto de um enorme barulho. Um programa intitulado «Défrancisation» lançou a tradução francesa de um artigo na revista Foreign Policy Journal, de 12 de Março de 2011. Um documento sobre a interferência das autoridades dos EUA na França, que, para levar a cabo o projecto da globalização claramente decidiu transformar todo o carácter da França, a começar pela sua própria identidade através da utilização das minorias étnicas e religiosas, destinadas a servir os interesses americanos.”[4]

“A melhor maneira de resolver os conflitos étnicos em França e para garantir que a França não levantará a cabeça para se opor aos interesses globais dos americanos, é então a de criar uma nova síntese cultural, em que não haverá mais cultura francesa, mas, sob o rótulo de” direitos humanos” e de “igualdade”, haverá uma cultura de adolescentes alimentada por Hollywood, MTV.o ciberespaço, McDonalds e Pepsi.”[5]

“A França, continua o autor, durante muito tempo tem sido um espinho espetado no flanco globalizante dos Estados Unidos, por causa do seu empenho e obstinação em defender os interesses franceses à volta do mundo, em vez de se empenhar nos interesses de uma “comunidade global” pré-fabricada.(…) De Gaulle recusou-se a jogar a carta americana do período pós-guerra. (…) No contexto actual, que melhor maneira de minar o nacionalismo francês e de decapitar qualquer ressurgimento de uma força anti-globalização senão a de explorar a vasta componente islâmica não-assimilada da França. O objectivo final da globalização é não o de promover as identidades e culturas étnicas, mas sim o de tudo submeter a um vasto caldeirão do consumismo global, de desenraizar o indivíduo da sua identidade e do seu património, e substituí-lo pelo World Trade Center e pela “aldeia global”.[6]

“Portanto, conclui o autor, é necessário  aqui incluir uma redefinição da história da França, e colocar a ênfase sobre o papel das minorias não-francesas no conjunto desta História assim redefinida . Isto implica que a geração de jovens americanos Pepsi/MTV, bem como dos mentores/guias saídos das universidades, servirão como referência (de faróis) tendo em vista a transformação (formatação) da cultura francesa e uma reescrita da história da França de acordo com uma visão “globalizante”. “[7]

E será que os franceses são os únicos a sofrer esses ataques contra seus antecedentes, identidade? Lembremo-nos, há alguns anos atrás, os belgas foram também os ameaçados na sua unidade pela partição. A Bélgica é um laboratório! O que está a acontecer aqui, não é inofensivo e está, na verdade, em ligação com o projecto de uma ‘nova ordem mundial’ que está ainda na sua fase de ‘ assassinato de Estados-nação. Esta crise programada irá gerar um estado de caos como disse Condoleezza Rice, (Ordo Ab Chaos). O que está a acontecer na Bélgica parece ser uma experiência de “massas” de que não devemos ficar indiferentes. «Olhem para uma sala de concertos em Bruxelas onde se junta um grande número de artistas do país. Com um microfone, uma voz diz aos Flamengos de se colocarem à esquerda, e depois, aos valões para se colocarem `à direita, (ou, ao contrário, o que é indiferente). ‘ A seguir, ouvem-se vozes: “e nós, os belgas, para onde vamos?” , esta piada belga por muito trágica que seja, vem a propósito. [8]

 

(continua) 

[1] Professor de termodinâmica e da economia do petróleo na Escola Politécnica de Argel.

[3] Nota de tradutor. De 19 a 22 de Outubro de 2010, Charles Rivkin, embaixador Americano em Paris, convidou  delegações no total de 29 membros  do  Pacific Council on International Policy (PCIP)  para uma conferência em França com a finalidade de discutirem as relações árabes e islâmicas com o país. O tema é extraordinariamente importante pelo que voltaremos no blog a este  tema.

[5]  Ver nota 2.

[6] Ver nota 2.

[7]  Ver nota 2.

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