Esta série de artigos sobre a situação do livro, sobre as profissões do livro e, sobretudo, sobre a ameaça que as novas tecnologias representam para o livro impresso, está a chegar ao fim. Embora nada seja eterno, como sabemos, julgo que ainda não nasceu um suporte de escrita que possa substituir integralmente o livro em papel. No entanto, o livro terá de coexistir com as formas alternativas de transmitir ideias, conhecimento, informação, que, embora perecíveis, mobilizam quotas importantes do mercado. Cada vez o livro estará menos sozinho nessa competição. É um desafio para os editores. E para todos os agentes que intervêm no mercado livreiro.
Autores norte-americanos, como Dan Brown, começaram já há anos a lançar as suas obras simultaneamente em versão impressa e em versão electrónica, no formato e-book. Empresas asiáticas, como a Netronix, de Taiwan, anunciaram modelos com telas sensíveis a toques. A holandesa Polymer vision projecta um leitor electrónico portátil, com tela que pode ser enrolada. O Kindle, da Amazon, lançou uma versão ainda mais portátil e com uma capacidade muito superior, podendo ser consultado em qualquer sítio. O famoso MIT (Massachusetts Institute of Technology) apresentou um prototipo constelado de luzes LED que mudam de cor à medida que a trama ficcional vai avançando… Não nos podemos deslumbrar com estes novos instrumentos de leitura e de difusão de ideias. Algumas das inovações nada têm a ver com conhecimento ou com beleza literária – são meros instrumentos lúdicos. Mas seria tão errado ignorá-los como ficar deslumbrado com eles. Não devem atemorizar-se os que amam os livros, receando a sua morte. O livro só morrerá ou perderá a função de difusor de beleza e cultura quando outro suporte for adoptado
O próprio nome – livro – derivado do latim «liber» contém uma lição a reter, pois significa o entrecasco da árvore. Não remete para a funcionalidade de um instrumento, mas para um material. Em diversas civilizações (entre os maias, por exemplo) o entrecasco da árvore foi utilizado como suporte de escrita, embora não existam dados que permitam assegurar que na Grécia ou em Roma essa utilização tenha existido. Mais que o liber, foi o «codex», o lenho da árvore, que forneceu material para registos escritos. As tabuinhas de madeira, enceradas ou não, foram utilizadas por um período que vai da Antiguidade até finais da Idade Média. O papiro, um novo suporte, entrou no mundo grego por volta do século VII a.C. O pergaminho, técnica de tratamento dado à pele curtida de animais atribuída à cidade de Pérgamo, terá surgido no século III a.C. e foi utilizado durante bastante mais de um milénio, até que se generalizou o uso do papel.
Contudo, o aparecimento de um suporte não significa o desaparecimento imediato do outro. Tradição e inovação coexistem até que a inovação se transforma, por seu turno, em tradição. Como vemos, os suportes vão sendo alterados por razões pragmáticas – porque um novo suporte supera as limitações do anterior. E alteram-se em função das exigências que a sociedade vai colocando. A tabuinha correspondia a uma cultura de oralidade, era um simples auxiliar da memória, pois era na memória dos rapsodos que se arquivava o conhecimento.
A Internet está-nos a transformar-nos em ciborgues – muito do nosso saber não precisa de ser memorizado, pois em segundos podemos recuperar informação sobre qualquer tema. O computador está a converter-se numa indispensável prótese do cérebro. Não me admiraria que, no futuro, o ensino deixasse de obrigar a acumular conhecimento, passando a habilitar à gestão e utilização do conhecimento armazenado e disponível. E aí, perante uma nova forma de gerir e de difundir o conhecimento global, exigem-se novos utensílios. As novas tecnologias, embora estejam a ser ensaiadas em utensílios fúteis, vão ter respostas para as exigências que lhes forem sendo colocadas. Quando o livro impresso deixar de existir – ou apenas interesse no âmbito museológico – é porque foram criadas e consolidadas formas de o substituir.
E pode ser até que se chame livro a essa nova forma.
Obrigada, Carlos Loures!
Agora esperamos que saia em livro a excelente série de artigos que você publicou.sobre a situação desse companheiro até aqui insubstituível apesar de todas as tecnologias que parecem ameaçá-lo.
Rachel Gutiérrez
Obrigada, Carlos Loures!
Agora esperamos que saia em livro a excelente série de artigos que você publicou.sobre a situação desse companheiro até aqui insubstituível apesar de todas as tecnologias que parecem ameaçá-lo.
Rachel Gutiérrez