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O jornal Público apresenta na sua edição online de hoje um interessante artigo de Luís Miguel Queirós – “Acordo ortográfico não abriu o mercado brasileiro ao livro português”. Aconselhamos a leitura, pois é bastante esclarecedor quanto a uma verdadeira burla em que muito boa gente se envolveu. Quando esta questão começou a ser agitada, o principal argumento a favor do AO era o de que a unificação ortográfica iria possibilitar a venda de edições portuguesas no Brasil. Razão já de si espúria… Mas, para mais, era evidente que se tratava de uma falsa esperança.
Todo o seu argumento assenta numa premissa falsa: “o principal argumento a favor do AO era o de que a unificação ortográfica iria possibilitar a venda de edições portuguesas no Brasil”. Não era, não. A principal premissa era e sempre foi de que devíamos ter a mesma ortografia, uma ortografia comum entre todos os países, porque isso fortaleceria a língua, impedindo o seu desmembramento. É isso que se pretende conseguir com o acordo e é contra isso que alguns portugueses muito nacionalistas estão, porque defendem precisamente o desmembramento, crendo que o seu português é O legítimo e mais correto que os outros.
Eu também podia vir aqui dizer que o principal problema dos desacordistas é acreditarem que os brasileiros querem invadir Portugal e depois demonstrar que não querem saber de Portugal para nada, pelo que o argumento é inválido e o Acordo é afinal bom. Não acredito é que com isso convencesse alguém que não esteja já convencido.
Se ler com atenção o editorial, verá que começamos por referir um artigo do DN onde se dá conta do fracasso do AO em termos de abertura do mercado brasileiro oa livro português. E, há vinte anos atrás, o grande argumento dos acordistas no âmbito editorial era o de que a unificação ortográfica iria possibilitar a venda de livros portugueses no Brasil. Há registos escritos dessas posições.Quanto às especulações que faz sobre as tais “posições nacionalistas”, não nos atingem. Em termos de respeito pelas demais variantes do português, não aceitamos lições de ninguém – respeitamo-las integralmente, como se comprova pela frequente publicação de originais que nos chegam de colaboradores brasileiros, galegos, cabo-verdianos… Entre os colaboradores portugueses, há quem observe as regras do AO e quem as ignore. E não pensamos que os brasileiros querem colonizar Portugal. Mas ficamos surpreendidos que em defesa de um diploma que afecta a forma de usar a nossa língua, apenas se aduzam falsos argumentos; surpreende, sobretudo, a ausência de uma argumentação filológica. Será que não existe?
Os argumentos filológicos a favor do AO são simples e qualquer um os entende. O que se fala em Portugal e no Brasil é a mesma língua e por isso deve ser escrito segundo as mesmas regras. Mais, não pode surgir naturalmente um português internacional sem que acabe a separação legal da norma escrita e a política de separação ostensiva das normas em coisas necessarimente nacionais. Simples e bastamente documentado, em textos de Cintra e Houaiss, por exemplo. O que mostrei com a minha mensagem foi precisamente que o estereótipo simplista que vocês apresentaram para o defensor do AO (“vai permitir vender os nossos livrinhos no Brasil e por isso é que é bom”) é tão errado como eu discutir o AO com base na ideia também simplista de que os opositores são simplesmente antibrasileiros primários e achar que da discussão dessa falsa premissa resulta qualquer argumento válido.
A verdade é que a história das edições internacionais nunca foi argumento filológico, mas político, e só faria sentido após o eventual surgimento de um português internacional, o que não foi possível ao longo do século vinte devido às políticas de fechamento dos mercados do Brasil e de Portugal, política de que as normas ortográficas divergentes fizeram parte.