No Porto apareciam as Juntas Militares, onde se conciliava a fina-flor da oficialidade reaccionária que Sidónio Pais tinha reintegrado no Exército e colocado em altos cargos da hierarquia militar. Nos seus planos, pensavam já na sucessão do presidente, em caso de assassínio!
O jornal monárquico A Pátria não tem pejo em assegurar que «não se restaura já a monarquia por considerações de ordem patriótica».
Por sua vez, o órgão nortenho da situação, a Voz Pública, lamenta as centenas de presos políticos encurralados nos calabouços e verbera o recrudescimento das sevícias confessadas e condenadas pelo presidente. O jornal é logo ameaçado de assalto pelos bandos de «trauliteiros», que, como diz um escritor da época, «dobram a parada no jogo do cacete e cavalo-marinho» (3)
Na Câmara dos Deputados cresce a contestação ao ambiente de terror que se vive um pouco por todo o lado.
Cunha Leal e mais uns tantos deputados não param de vituperar as violências, em que aparecem publicamente envolvidas as próprias autoridades sidonistas:
«Diz o Governo», afirma Cunha Leal, «que nem tem nem quer ter qualquer espécie de solidariedade com as quadrilhas organizadas que por aí se agitam. Palavras, palavras, sempre palavras! — Como diria o Hamlet! O facto é que as casas não se incendeiam nem se assaltam a si próprias! É pois legítima a conclusão de que os criminosos — infelizmente para o bom-nome da situação — devem dispor de extraordinários recursos e extraordinárias protecções…
A reacção posterior ao 5 de Dezembro» conclui Cunha Leal, «está indo, porém, tão longe, tão longe que será bom meditar um pouco no ensinamento desta velha sentença da Sabedoria das Nações: ‘Quem semeia ventos, colhe tempestades.’»
E Cunha leal prossegue, referindo-se agora à acção dos deputados dentro do Parlamento:
«Se a nossa acção aqui dentro não for orientada, Sr. Presidente, por um pensamento inteligente e republicano, o futuro de Portugal será horrível. Vive-se uma atmosfera de terror. Apavorado, por sua vez, com a sua própria obra, com a obra da sua inconsciência, o Governo procura abafar todas as manifestações da opinião pública. A imprensa foi, por isso, amordaçada, a ninguém sendo legítimo manifestar o que lhe vai dentro da alma.
Até a nossa voz no Parlamento que devia ser sagrada para o poder executivo, sujeito à fiscalização do poder legislativo, até ela, é abafada. E assim, os relatos parlamentares são desalmadamente censurados, chegando-se ao inverosímil ponto de serem considerados subversivos e, como tal, eliminados os próprios nomes dos deputados.
Neste país assim manietado, neste país onde ninguém pode livremente respirar, neste país em que a gente quase receia falar a um vizinho, não seja ele espião, neste país em que a vida de qualquer pessoa só se pode considerar segura quando a sua voz levanta hossanas ao existente, neste país assim degradado — há muitos milhares de republicanos nas cadeias.
Agindo como está fazendo, o actual Gabinete não poderá durar. Pouco me importa saber o modo como cairá…»
Por fim, Cunha Leal terminaria, declarando: «Se alguém tentar calcar aos pés os meus direitos, me defenderei a tiro, visto que não quero que, por culpa minha, Portugal se transforme numa terra de escravos.»
José Carlos da Maia que, tal como fizera Machado Santos, deixara de ser Ministro de Sidónio, agora deputado aplaude e declara igualmente:
— Apoiado, Sr. Cunha Leal! Diz muito bem: é a tiro que se devem defender os nossos direitos.
Sidónio estava, de facto, a caminho do fim. Aos poucos, tinha sido abandonado pela maior parte dos seus mais dedicados colaboradores e agora poucos eram os que se dispunham acompanhá-lo no seu «desvairo messiânico».
Três deputados do seu partido presidencialista, Amândio de Alpoim, Celorico Gil e Henriques Pinheiro, apresentam na Câmara um projecto de reforma constitucionalista para acabar com o presidencialismo e repor a estrutura parlamentar da Constituição de 1911.
Os monárquicos, até então os mais entusiásticos apoiantes do presidente, iam engendrando as suas maquinações e só esperavam a oportunidade de restaurar o poder real.
Já no Verão anterior o inspector da Polícia de Investigação Criminal de Coimbra, Eurico de Campos, tinha enviado para o ministro do Interior o oficio confidencial n.º 06519 onde afiançava estarem os monárquicos a conspirar activamente por todo o País.
Ninguém deu atenção ao que este funcionário superior da Polícia dizia. Poucos dias depois, aquando dos acontecimentos da revolta de Coimbra, Eurico de Campos é preso e metido na Penitenciária, onde ficará até ao fim do sidonismo.
Agora, em Dezembro de 1918, os monárquicos apareciam envolvidos em golpes de toda a natureza. Alguns chegam a ser expulsos do País, acusados de entendimentos com a espionagem alemã, como foi o caso do deputado e director do jornal monárquico Liberal, António Teles de Vasconcelos.