
III
Ora, com franqueza, os senhores acham isto bonito? Confesso que estou envergonhado. Quando passadas as fronteiras, ouço dizer mal da nossa terra, cresce-me no peito uma alma de Lusíada e ponho-me vermelho como uma caixa de correio. E aqui para nós o 1922 tem razão no que possa dizer ao Tempo, seu pai. Bem sei que ele não ajudou, que saiu aos últimos manos que têm sido o que se sabe; mas a verdade é que nada fizemos para o melhorar.
Nem lhes quero dizer tudo o que penso porque V. Ex.as eram capazes de se porem a chorar de vergonha. Entretanto, não posso deixar de lhes dar alguns conselhos, que não tenho utilizado e guardo numa velha caixa de charutos para oferecer a quem me lê ou quem me vem visitar.
Se V, Ex.as são negociantes, quando eu for à vossa loja prover-me de artigos de mastigação ou de encadernações lanifícias, como diz o “Hoc opus hic labor est”, façam-me um abatimento de 50% porque ainda ganham duzentos e tantos e sem terem que tomar que tomar o fôlego.
Se V. Ex.as são criadas de servir, não peçam cinquenta mil reis por mês para afinal cozinharem como um servente de pedreiro e nem sequer saberem encerar o corredor, que está mesmo uma vergonha e nem sei o que parece.
Se V. Ex.as são ingénuas dramáticas ou cantores cómicos, não exijam cinco contos de ordenado por mês, porque assim não há empresários que resistam.
E, sejam V. Ex.as o que forem, trabalhem, façam-se económicos, amem-se uns aos outros, não desejem a mulher do próximo como a vós mesmos, desprezem os boateiros, cuspam nos espiões e não façam o mesmo nos carros por causa das multas, sejam bem educados, tenham maneiras porque Deus quando castiga não diz quando nem a quem…
Sejam moderados nos apetites e modestos nas exibições. Não queiram que me torne a subir à face o rubor da indignação, como ainda ontem me aconteceu.
(conclui no próximo domingo)
31 de Dezembro de 1922

