EDITORIAL – O CAOS ORGANIZADO

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Ao cidadão comum, que diariamente tem de cumprir uma rotina a que não pode fugir, entre um trabalho geralmente mal pago, transportes casa-trabalho demorados e caros e a assistência à família, não sobra nem tempo  nem disposição  para se debruçar sobre as complexidades da vida política, nacional ou internacional. Em Portugal, a situação é agravada pela noção, melhor dito, pela falta de noção, de que é o somatório  desses problemas que o cidadão comum defronta diariamente que constitui os problemas nacionais. Esse princípio básico tem de estar sempre presente. A observação atenta da actuação dos governantes mostra que, na sua maioria (alguns diriam na totalidade), não o consideram assim. Pelo menos, a sua prática não o indica.

Há dias o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, terá reconhecido que a vida das pessoas não está melhor, mas entretanto foi afirmando que o país está muito melhor. Obviamente que se trata de uma frase desastrada, mas o que é realmente grave é que corresponde à maneira de actuar da maioria dos governantes. Chamou a atenção de toda a gente pela enorme contradição que contém, mas o facto é que reflecte uma prática. Deve-se referir entretanto que os governantes não são os únicos a incidirem nesse desvio gravíssimo que resulta de privilegiarem interesses restritos em detrimento dos interesses mais gerais. Isso acontece também com os responsáveis por outros sectores essenciais.

Ontem ocorreu uma grande manifestação das forças policiais. Para além de um ambiente geral de grande agitação e de incerteza  sobre a maneira como iria acabar a manifestação, empolado de um modo injustificado, será de salientar o grande aparato que se teceu à volta de um aspecto perfeitamente menor: o de se os manifestantes iriam ou não subir a escadaria em frente ao parlamento. Sobre as reivindicações dos manifestantes, reduzidíssima informação, tanto no momento, no terreno, como na comunicação social em geral.  O Carlos Mesquita chamou a atenção ontem para isso no Clarinete. É um aspecto fundamental nos tempos actuais. A discussão sobre se o desvio das atenções do essencial para o acessório é intencional é fundamental. É importante constatar o desvio, para ajudar as pessoas a compreender que o caos não acontece por acaso. Mas mais importante ainda será preveni-lo.

1 Comment

  1. Temos o sórdido vício de olhar para os problemas por uma perspectiva superfícial e o de nunca questionar as razões e os motivos. Não sei se esta atitude radica no feroz tradicionalismo deste povo ou se é resultado da estupidificação massificada tão sabiamente implementada desde os tempos da inquisição. Uma coisa é certa, que parece que recuámos no tempo e que estamos em pleno séc. XVI governados pela terrível mão do Cardeal D. Henrique, lá isso, parece… ahahahahahah

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