Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
II. A ALEMANHA, FUTURA GRANDE POTÊNCIA VIRADA PARA LESTE?
Consequências da questão Ucrânia-Crimeia
Michel Lhomme-Revista Metamag, Março de 2014
Que se passa? A NATO será que já não forma oficiais leais nos seus cursos! As novas autoridades de Kiev compatíveis com a zona euro vêem, com efeito, o seu exército reduzir-se de dia em dia. Ontem, era o chefe da marinha ucraniana, o almirante Denis Berezosvki, que prestava juramento de fidelidade às autoridades pró-russas da Crimeia. Seguidamente, o governo da Crimeia anunciou a adesão da 204ª brigada de aviação de caça das forças aéreas de Ucrânia dotada de aviões de caça MiG-29 e de aviões de treino L-39. De acordo com as autoridades da Crimeia, cerca de 800 militares colocados na base aérea de Belbek passaram a apoiar o “povo da Crimeia”. No total 45 aviões de caça e 4 aviões de treino encontram-se sobre o aeródromo. Antes, ao longo do dia, as autoridades da Crimeia tinham anunciado que mais de 5.000 militares das tropas do Interior, do serviço de guarda-fronteira e as forças armadas de Ucrânia tinham também passado sob as ordens do seu comando. Fala-se por conseguinte de 22.000 militares ucranianos e de várias dezenas de sistemas de mísseis terra-ar S-300, passados sob a autoridade do governo da república autónoma da Crimeia. É para Putin, sem mesmo estar a fazer correr sangue, uma proeza e para a OTAN, um sério revés e sobretudo uma espantosa falta de lealdade depois de todos os cocktails servidos!
Assim, durante todo o dia de 4 de Março, seguiu-se de parte e de outra o vaso almirante das forças navais da Ucrânia, a entrar e a sair no estreito dos Dardanelles. Que bandeira arvora? Pavilhão ucraniano? Pavilhão russo? Por um momento, a imprensa russa tinha indicado que a fragata recusava seguir as ordens Kiev e arvorava o pavilhão de Moscovo. Do seu lado, o ministério da Defesa ucraniano desmentia as alegações segundo as quais o Hetman Sahaydachny teria tomado o partido da Rússia. Está aí, por conseguinte uma guerra de pavilhões no Mar Negro!
Temendo um golpe de Estado como em Kiev, os habitantes da Crimeia criaram Comités de autodefesa e tomaram o comando das unidades militares locais. O Conselho supremo da Crimeia já tinha decidido, no fim de Fevereiro, fazer um referendo sobre o alargamento dos poderes da república autónoma ucraniana da Crimeia. Inicialmente fixada a 25 de Maio, a data do referendo tem estado a ser antecipada desde o Verão e para o dia 30 de Março. Além disso, o primeiro ministro da Crimeia, Sergueï Aksenov renovou o seu pedido de ajuda legítima e legal ao presidente russo Vladimir Putin. A NATO quanto a ela não deveria intervir na Crimeia, mas de acordo com o politólogo russo, Alexandre Douguine, uma sucursal de Academi (os exBlackwater do Iraque), Greystone Limited, já teria começado a sua deslocação para a Ucrânia. Os mercenários terão chegado por grupos, à civil, com pesados pacotes ao aeroporto de Kiev, de onde são enviados para Odessa. É deles que se falava ontem.
A Alemanha, nova potência de equilíbrio
O que é que se vai passar? Os meios de comunicação social ajudam a subir a tensão e dramatizam e isto faz-noslembrar a epopeia síria terminada por uma vitória diplomática russa e por uma humilhação dos Estados Unidos e da França. A França ameaça a Rússia de sanções, mas Laurent Fabius está claramente bloqueado: a Rússia ter-lhe-á feito saber imediatamente, por embaixadores intervindos, que isso provocaria de facto a suspensão imediata dos seus contratos militares com Paris, ou seja a suspensão imediata da encomenda feita à França em 2011 de duas construções BPC (construção para projecção e comando) de tipo Mistral, mais uma opção para duas outras. A França está economicamente de joelhos e já não tem meios para executar as suas ameaças.
Pouco a pouco, a unanimidade europeia em frente da Rússia começa a abrir fendas. Londres é cada vez mais eurocéptica e pensa também na sua economia: quem pagará a factura da Ucrânia? Londres tem uma dupla linguagem. Enquanto que David Cameron ameaçava Vladimir Putin há cerca de dias “de consequências económicos, políticas, diplomáticas e outras” (sic), uma nota confidencial do 10 de Downing Street que deixou escapar e em que permite realmente duvidar da sua sinceridade. Nesta pode-se ler que o Reino Unido “não deve, de momento, apoiar sanções comerciais contra a Rússia ou bloquear-lhe a City”. O texto recomenda igualmente que se deve “desencorajar” qualquer discussão de represálias militares nomeadamente na NATO!
Na União Europeia, são por conseguinte os Alemães que se têm tornado pró-russos que dirigem a dança! Porquê? A Alemanha é o primeiro primeiro exportador para a Rússia. Cerca de 35% do gás e 35% do petróleo consumidos na Alemanha vêm da Rússia. A Alemanha sabe que a Crimeia é, para a Rússia, não negociável. Como é que poderia não o saber ? Por último, e não é negligenciável nas relações internacionais, a Alemanha não apreciou os propósitos de Nuland mas sobretudo a espionagem por Prism das conversas telefónicas de Angela Merkel. Não esqueçamos que Angela Merkel fala russo (Putin fala também correntemente alemão) e que foi criada na RDA. Conhece quase intimamente o carácter e o valor do chefe de estado que é Putin.
A crise ucraniana arrisca ter por repercussãoum curioso efeito colateral, um efeito choque para a União Europeia. Esta crise acelera a aproximação a leste feita pela Alemanha, uma Alemanha que se virará, por conseguinte, cada vez mais para o Leste e não para a França. Ora, sem o par franco-alemão a UE não é rigorosamente nada. É inútil recordar as relações históricas entre a Alemanha e a Rússia e evocar aqui o reconhecimento alemão sempre forte para com a União Soviética de Gorbatchev que tornou a possível reunificação. As relações entre a Alemanha e a Rússia são naturais e estratégicas: a Rússia é agora incontornável para a Alemanha como uma potência. Por último, o potencial das relações económicas com a Rússia é para a Alemanha sem comum medida com que ela pode esperar agora do seu parceiro francês em via de empobrecimento e de manifesta deliquescência. Todos os políticos e os homens de negócios alemães estão disso bem conscientes. Apostam agora muito sobre o desenvolvimento de um mercado a Leste que, de resto, conhecem muito bem. A fragmentação da Ucrânia poderia mesmo ser negociada simplesmente em segredo com a Rússia, a parte de tendência pró-ocidental oferece assim a Berlim sobre uma bandeja de prata uma mão-de-obra muito barata e mais próxima da mão-de-obra chinesa que, além disso, que aliás começa a ser mais exigente !
Então, e a França em tudo isto?
O porta-voz do Quai de Orsay pelo menos saberá-ele que na ponta extrema da Crimeia está situada Sebastopol, o grande porto militar russo fundado por Catarina II em 1783? Sem dúvida, mas finge a ignorância para cair na caricatura grosseira e ultrajante de Putin. Em toda a crise, a França foi indescritível na ideologia e Bernard-Henri Lévy, o emissário meio-escondido de Laurent Fabius.
A França na verdade deixou de ter alguma visão das relações internacionais excepto nas suas obsessões ideológicas, nas suas ideias fixas. É aí que está o colapso total das competências diplomáticas para parafrasear o texto do nosso colaborador Raoul Fougax. Pode-se dizer exactamente o mesmo tantodo Ministro dos Negócios estrangeiros como do ministro do Interior ou da educação. A França vê Hitler por toda a parte, mesmo debaixo dos sofás das Embaixadoras! A França não irá, de imediato, recolher seja o que for excepto alguns louros já amarelos quanto aos os Direitos do Homem. A França desligou-se da Alemanha pragmática. É por conseguinte a Alemanha e não a França que assume o seu papel de interlocutor europeu privilegiado da Rússia.



