JOVENS QUE PERTURBAM – VAMOS EVITAR OU, DEPOIS DA ASNEIRA FEITA, FECHÁ-LOS DENTRO DE 4 PAREDES, AUMENTAR A SUA REVOLTA E DELES AINDA TERMOS MAIS RECEIO? por clara castilho

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Foi no dia 11 de Março de 2009 que um jovem matou quinze pessoas num massacre numa escola da Alemanha e depois se suicidou. Foi até anunciado nas redes sociais: “Tenho armas aqui, amanhã de manhã (quarta-feira) irei à minha antiga escola.Fiquem atentos, ouvirão falar de mim amanhã. Fixem bem o local: Winnenden”. Ah, informação importante: o adolescente tinha interrompido um tratamento psiquiátrico que seguia desde 2008…

Tentei pesquisar sobre massacres em escolas e fiquei impressionada. As notícias abundam com títulos de “Os 10 Piores massacres em escolas”. Senti um interessew mórbido…E a questão que se coloca é: “O que leva uma pessoa a entrar em uma escola e disparar sem alvo específico? Até hoje psicólogos e investigadores continuam questionando-se.

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 Estes problemas já vinham de trás, de 1927, quando um funcionário de uma escola utilizou explosivos para a detonar e tudo que estava dentro. Depois disso, tivemos muitos desde 1964.Só desde 1982, foram 61 os massacres com armas de fogo registadas nos Estados Unidos e a maioria dos agressores conseguiu acesso às armas dentro da lei.

A questão acaba sempre relacionada com o facto de nos EUA a venda de armas ser muito facilitada. O massacre de Columbine deu origem a um filme feito por Moore que ganhou o Óscar de melhor documentário. Desde então, o cineasta tornou-se um dos maiores agentes contra o lobby da indústria de armas nos Estados Unidos. Ele deu como comparação: “Um maluco atacou 22 crianças numa escola primária na China. Mas tudo o que esse maluco tinha era uma faca. Número de mortes? Zero”.

E até há firmas que ensinam professores a usar armas.Mas fiquei absolutamente espantada com uma notícia de que em vez de proibirem as armas, há quem ache bem apetrechar os filhos com mochilas à prova de bala! Consideram os dois pais que a inventaram que em caso de violência, as crianças poderão usá-las como escudo protector. A mochila foi testada em laboratório e resiste até a balas de nove milímetros. O produto custa US$ 175,00. Diz um site no gozo, “Agora é só torcer para que os lunáticos armados só mirem nas costas das pessoas”.

Aqui em Portugal, um jovem de 15 anos, em Outubro passado, atacou com uma faca de cozinha dois colegas e uma funcionária numa escola em Massamá. O Ministério Público considera-o um adolescente perigoso que deve ficar internado dois anos e meio, em regime fechado, num centro educativo. “Internado” no Centro Educativo dos Olivais, em Coimbra, integrou-se, sem qualquer tipo de problema disciplinar, nas rotinas comuns com outros jovens que, com 16 ou menos anos, cometeram actos qualificados na lei como crime.

Está acusado, ainda de acordo com o seu advogado, de terrorismo e de “60 crimes de homicídio na forma tentada” e de ofensas à integridade física e por posse de armas proibidas (facas e bombas de fumo, que levava na mochila naquele dia de escola).

O seu advogado, Pedro Proença, em declarações ao PÚBLICO lamentou que o seu cliente não esteja a ser acompanhado, do ponto de vista da saúde mental, como devia, considerando que “estes centros não são mais do que prisões para menores, com taxas de reincidência elevadíssimas. A intervenção clínica/psiquiátrica não é satisfatória e ele quer ser acompanhado a sério.”

Este é um assunto demasiado grave. Sabe-se que os Centros Educativos, estando a funcionar como funcionam, não vêm parar o ciclo de marginalidade em que as crianças se inseriram e que o seguimento será sempre entrada e saída, para depois passar para o sistema prisional. Tentando perceber como melhor funcionam a Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, encomendou um estudo à Universidade de Coimbra, co-financiado pela Comissão Europeia. E fizeram o “retrato” desses jovens: a média etária dos rapazes dos centros é de 16,6 anos, acumulam mais de três anos de chumbos na escola e, quanto às suas famílias em 80% dos casos são de estatuto socioeconómico baixo. E espanto dos espantos (deixem-me ser irónica…) mais de 90% dos que foram entrevistados têm pelo menos uma perturbação psiquiátrica! E, como será fácil de adivinhar, nem todos têm o acompanhamento que seria necessário.

São “penas”, aquilo a que os jovens estão submetidos? Não, chamam-lhes “medidas tutelares”. Mas cometeram actos qualificados na lei como crime. E podem estar nestes centro até três anos, em regime aberto, semiaberto ou fechado. Em Outubro de 2013, havia 270 internos.

Como sempre, é quando a casa está a arder que se pensa o que se deveria ter feito antes. A  DGRSP pretende melhorar o acompanhamento, do ponto de vista de saúde mental, dos jovens delinquentes internados em centros educativos. É este o anúncio em  resposta às elevadas taxas de incidência de problemas de saúde mental que o Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil veio demonstrar.

Há muitos anos visitei um desses centros reeducativos. Nele havia então uma equipa que depois foi considerada de “luxo” e desmembrada: para além dos técnicos habituais, havia uma professora e um pedopsiquiatra. E um director sensível e que aceitava correr os riscos das novas medidas. Apesar das inovações introduzidas foi um dia que me marcou, com um almoço convívio e visita às instalações. Com as histórias de vida daqueles jovens não admira que a sua situação fosse aquela. E isto leva à questão: se sabemos as condições destas crianças, vamos tratar de as evitar ou vamos só depois da asneira feita, fechá-los dentro de quatro paredes, aumentar a sua revolta e deles ainda termos mais receio?

1 Comment

  1. Difícil, esta problemática… Se é bem verdade que é preciso prevenir / identificar / intervir junto dos jovens e respectivo enquadramento social quando estes apresentam riscos acrescidos de sociopatia, também é verdade que é preciso travá-los.
    Não se conhecem casos de “sociopatas recuperados”!
    O que é preciso, mesmo, é deixarmo-nos de tretas e não hesitar em assinalar como sociopatas os indíviduos menores de 18 anos cuja personalidade está distorcida pela deformidade.
    Todos sabemos que um historial precoce de crueldade contra animais, fogo-posto, assaltos e roubos, agressão, etc, etc, são sintomas de sociopatia e não há enquadramento social difícil que sirva de cobertagem. É preciso vigiar as feras e condicioná-las, para que as não temamos depois!

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