PELA ESTRADA FORA – O ROLO ORIGINAL (ON THE ROAD) DE JACK KEROUAC, UMA OBRA ESCRITA À VELOCIDADE DA LUZ por Clara Castilho

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Jack Kerouac nasceu em 12 de Março de 1922 (m. em 1969). Clara Castilho fala-nos deste escritor norte-americano que, no final da década de 50 do século passado, agitou o mundo das letras com o seu On the Road.

Estados Unidos da América, 1951. Junção de três seres com características muito especiais: Allen Ginsberg , William Burroughs , transferirLawrence Ferlinghetti. Em viagem pela  lendária Rota 66 e atirando-se para experiências novas. Contadas por Jack Kerouac (nascido a 12 de Março de 1922) num livro “On the Road”, escrito em três semanas, de rompante e num rolo de papel porque o seu autor não queria perder tempo a introduzir novas folhas na máquina de dactilografar Underwood preta. O manuscrito foi rejeitado por diversos editores e o livro foi publicado somente em 1957, após alterações exigidas pelos editores.

Uma prosa espontânea, como ele mesmo chamava: uma técnica parecida com a do fluxo de consciência, considerada hoje como uma nova forma de narrar. Um livro que transformaria milhares de cabeças, influenciando definitivamente todos os movimentos de vanguarda, do be bop ao rock, o pop, os hippies, o movimento punk e tudo o mais que sacudiu a arte e o comportamento da juventude na segunda metade do século XX. Uma espécie de panfleto de uma geração.

É uma obra que integra sistematicamente a quase totalidade das listas dos 100 melhores livros, ou dos 100 livros fundamentais do século XX. Existe um edição para iPad, da Penguin Classics. Foi realizado um filme dirigido pelo brasileiro Walter Salles, que foi escolhido diretamente por Francis Ford Coppola – detentor dos direitos da obra, com estreia mundial na edição de 2012 do Festival de Cannes mas que desiludiu muitos dos admiradores do livro. Existe um site – http://www.jackkerouac.com/- onde muito pode ser visto e analisado.

Foi em 2011 em Portugal na sua versão primeira, intitulada “Pela Estrada fora – O Rolo Original.”, com edição da Relógio D` Água etradução de Margarida Vale do Gato. É que até agora, os leitores marcados por essa história delirante desconheciam o verdadeiro livro. As anteriores edições foram o resultado da reescrita do editor Malcolm Cowley, que modificou o manuscrito, quer a nível de gramática ao incluir pontuação e parágrafos, quer no suavizar as cenas que ele considerou mais fortes e que seriam mal compreendidas.

Na contracapa podemos ler: “Representa a primeira e mais genuína forma de expressão das ideias de Kerouac, o momento em que a sua visão e voz narrativa se juntaram sob a forma de um impulso de energia criativa. Esta versão é mais dura, crua e sexualmente explícita do que o romance já publicado. Kerouac utuliza também o nome real dos seus amigos, incluindo Neal cassidy, Allen Ginsberg e William S. Burrouhgs. Esta edição foi preparada por Howard Cunnell, juntamente com três outros estudiosos da obra de kerouaac. Cunnell estudou a história e a origem do rolo e todas as suas transformações subsequentes até se tornar o texto publicado e conhecido.”

Na nota introdutória, a tradutora, Margarida Vale do Gato, explica-nos todos os problemas que teve que enfrentar para traduzir adequadamente a obra. E diz-nos: “ Concebendo o contínuo de viver como uma série de desvios de objectivos e sua transferência sucessiva para outras, Kerouac chamou a esta transmissão de vontades adiadas o necessário “ciclo do desespero”, no meio do qual se encontra a coisa desconhecida e central à existência.[…] Na tentativa de partilhar a experiência, estas histórias de viagens pareceram incompreensíveis na sua época, possivelmente por deslocarem a transferirem a configuração de sentidos – da estrada para quem a segue, e do texto para o leitor. O próprio Kerouac diz ”Foi a minha fantasia que estragou tudo, a estúpida ideia doméstica de que seria fabuloso atravessar a América seguindo por uma única grande linha vermelha em vez de tentar várias estradas e itinerários.”

[…] reza a lenda que Kerouac, encharcado em cafeína e talvez benzepina, mudando e estendendo a secar várias camisas encharcadas em suor, dactilografou este rolo em linhas contínuas quase sem margens pelas horas consecutivas de trêss semanas, na tentativa extática de chegar à autenticidade do vivido, à generosidade e ao ímpeto e à crueza de deitar tudo cá para fora. [..] O importante é que o projecto de escrita desenfreada e incoerente se revestiu de intenção artística.[…] é o testemunho mais eloquente de uma escrita à velocidade da luz…”

Kerouac escreveu a Carl Salomon: “Eu não escrevi “Pela Estrada Fora” por malícia, escrevi-o com o coração cheio de alegria e a convicção de que algures por aí fora alguém o há-de ler sem as lente míopes actuais e perceber a liberdade de expressão que está ainda além”.

Como escolher, de entre as 287 páginas de leitura seguida, alguma passagem para transmitir? Tarefa impossível. Espero ter despertado o interesse, a quem não conhece a obra. Eu vou relê-la, dado que a que conhecia era a outra, a amputada.


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