O INVOLUNTÁRIO MENSAGEIRO – por ANTÓNIO SALES

Imagem1  Parte I

           O Pires deixou a terra ano e meio depois da Gracinda Portas o trocar por um bancário dos lados de Aveiro, bem mais garboso de porte e vistoso de figura. Não posso precisar o dia nem o mês mas recordo-me ter sido o Mendes Pessanha, com as guias do bigode moscovita agitarem-se ao sopro da voz trovejante, o arauto da novidade que nos sovou de surpresa. Podia lá ser! Abalar assim para Lisboa sem dizer água vai ou água vem como qualquer ladrão furtivo.

          O facto é que pegara nas malas e sumira-se a furar destino, ausente de uma confidência ou de um abraço que arredasse da malta o sentimento da ingratidão Mas ingratidão não fora, garanto-o eu que sempre tive o Pires por um companheiro dos fixes. Antes o receio de se deixar assaltar por prematura saudade que o destruísse no momento da despedida.

            Durante vinte e três anos o Pires coçou-se entre panos e flanelas sob as ordens de um patrão do tempo da monarquia. Começou aos treze, sem um queixume, arrastando uma solidão quebrada pela mania dos selos e o vício do dominó. Aguentava-se num esqueleto alto e desamparado de carnes. O cabelo ralo e curto, as têmporas brancas e profundas salientando a altura da testa um pouco em quilha. Usava bigode, um bigodinho fino e geométrico. O rosto formava um conjunto anguloso onde se destacava a luminosidade dos olhos esverdeados, irrequietos e perscrutadores, reflectindo a sensibilidade de um homem inteligente mas que a timidez subvalorizava.

            Vezes sem conta deambulámos pelas ruas da vila. Havia um circuito clássico que fazíamos mesmo nas noites de inverno. Saiamos do Café Central tomando a avenida até ao largo da estação, rumávamos pelos contornos do mercado e subíamos a Nove de Abril para regressarmos ao ponto de partida. Fazíamos isso com o passo vagaroso das confidências. Por este processo familiarizei-me com a intimidade do carácter sonâmbulo do meu amigo cuja honradez e paz apresentavam-se como filhas da obediência e do conformismo. Compreende-se, pois, a surpresa que nos escandalizou ao sabermos do seu quebrar de lança contra ventos e marés. Para ele, saltar de Torres Vedras para Lisboa seria o mesmo que para qualquer de nós emigrar para o Canadá ou para a Austrália. Arrancava de si as raízes de uma vida e ia-se a cumprir o destino dos ausentes que, enterrados nos arquivos da memória exigem o esforço de lhes recordarmos os nomes completos.

            Foi o Pires desertando das conversas e fragmentando-se o grupo. Ficaram alguns e abalaram outros de acordo com as ambições ou as necessidades. Eu fui dos últimos, resistindo àquele apelo cego pelas coisas conhecidas e encontradas desde a infância como se a vila não fosse apenas uma terra dentro do meu país mas um útero onde me habituara a beber a seiva de todos os movimentos. O cineclube fora perseguido e arrancado para as mãos  7de uma comissão administrativa; o Suplemento Literário procurava colaboradores entre uma juventude que se mostrava divorciada dos problemas; o teatro amador decaíra totalmente; o Torriense conquistava adeptos; a Câmara dificultava as iniciativas culturais; as revistas do Parque Mayer eram recebidas com euforia. O tempo escoava-se num leito de marasmo. As pessoas davam de ombros e iam às suas vidas. Já nada daquilo me tocava.

            Contudo, quando assentei arraiais em Lisboa a saudade espremeu-me as vísceras. Faltava-me o entardecer langoroso, a tipografia do “Badaladas”, a ginástica na Física, os serões com o grupo no café mas, sobretudo, aquela luta persistente de esclarecimento que me fazia sentir útil. Vistos de fora certos hábitos gastos pelo uso tomavam uma outra perspectiva. A cidade com a sua linguagem individualista isolava o homem. Problemas e inquietações equacionavam-se segundo esquemas bem determinados, O sistema impedia o transbordamento do indivíduo para a realidade colectiva. Na província as pessoas vasculhavam-se, criticavam-se, ruminavam-se mas também mas também se solidarizavam nas desgraças comuns. Adaptei-me! Três anos depois a vila era um castelo de recordações contemplado à distância.

            Foi por este tempo, talvez próximo dos fins de Junho, que deparei com o Pires na Estrada de Benfica. Procurei-lhe a silhueta na outra margem da rua afirmando-me no lombo magro e arqueado ao peso de duas malas que os braços suspendiam como guinchos de guindaste. Era ele, caramba! O perfil fuinha, a marreca incipiente e o andar escangalhado de um orangotango. Era mesmo o Pires, raio! E vai um grito. Ele larga as malas, empertiga-se, fareja em todas as direcções, dá comigo e toca de cairmos nos braços um do outro com as bocas repletas de perguntas e respostas sôfregas de resumirem em segundos os cinco anos de separação.

            Tomámos o autocarro. O trabalho, as malas, a saúde, os amigos. Um chiste, um fósforo, um cigarro. Vendia por conta própria um número infindável de bugigangas. Livre, sem família, dispensava-se de correr sobre o trabalho. A vida pouco valia no desassossego da fuçanga das rotas da fortuna.

            Falámos pelos cotovelos. Mas à Praça de Espanha uma lembrança súbita obrigou o Pires a interromper a torrente das palavras e a inquirir com a expressão vestida de gravidade:

            «Eh, pá! Lembras-te do Farroncas? O Carlos… que partiu um taco de bilhar nas costas do Laureano?»

            Claro que me lembrava. Podia lá esquecer o Farroncas, o primeiro entre nós a quem despontaram os pêlos do bigode! Militante da arruaça, reinventor da galderice, batoteiro inveterado e temido pelo seu mau génio. Com ele aprendera a armar chinfrim no Café Central para ser expulso sem pagar a conta do bilhar; a nadar no pego dos Cucos; a falsificar a assinatura do meu pai nos cadernos escolares; a vespeirar em redor das putas na Rua da Várzea; a curar esquentamentos com irrigações de permanganato.

            «Um tipo danado! – respondi. – Perdi-o de vista depois que saiu do Colégio Militar».

            «Pois morreu, pá!»

            «Morreu?!… O Farroncas morreu?!… – Interrompi estupefacto –  Mas tu tens a certeza, ó Pires? O Farroncas tem a minha idade, pá! Devia andar pelos trinta e cinco e era um gajo catita».

            «E daí! Que tem lá isso! Morreu na Guiné. Li hoje no jornal».

            «Mas como? Como pode ter acontecido uma coisa assim?!»

            Ora, menino. Algum balázio dos pretos! – Conjecturou o Pires com o ar mais natural deste mundo. – Pagou caro o vício da farda que o pai lhe meteu no corpo só para se dar ao luxo de ter um janota na família. O Farroncas foi-lhe nas cantigas, tramou-se…»

            «Eh, pá! Mas uma bolada assim!…»

            O autocarro parou na Rotunda e o Pires aproveitou. Despediu-se às pressas e eu ajudei-o a descer as malas com um até breve emocionado. Enquanto a sua imagem ia morrendo na menina dos olhos a memória do Carlos «Farroncas» tomava um ascendente cada vez maior.

            Desci junto do cinema São Jorge. Qualquer coisa sem sentido coabitava na confusão deste encontro inesperado. A sua imagem de rapaz arrogante era nítida no enquadramento da porta do café, o ombro a descansar na ombreira, o casaco aberto e o botão do cós das calças desapertado. A cara redonda, o cabelo liso, farto e escuro, de um escuro que mediava entre o castanho carvalho e o preto cinza, aparecia sustido pela rigidez do fixador. Todo o corpo tinha um ar canalha que o rosto glabro traía. Mas era das ancas, do gingar malandro dos quadris, dos braços compridos e das mãos fortes que provinha o magnetismo que nos obrigava a admirá-lo e segui-lo como se fosse um chefe.

            Sem dúvida, o mais vadio entre todos e também o de maior coragem. Muitas vezes tornava-se odioso pelo seu forte pendor para a violência. Todavia, eu conheci-lhe a camaradagem incapaz de uma traição.

            Impossível imaginar o Farroncas destruído, feito em pedaços. A vida pulsava-lhe por todo o corpo como um rio de força inesgotável. Jamais o ouvi rir – e nessa altura sabíamos rir sem preconceitos – naquele tom ostensivamente feliz de quem tem a existência por possuir no seu melhor bocado, exactamente o melhor bocado que lhe haviam roubado sacando-lhe dos braços metade de um mundo cujo progresso ele amaria acompanhar.

            Verdadeiramente, ninguém nasce para morrer às ordens de qualquer vontade alheia. Nascemos para a paz, para o amor, para o prazer, para confraternizarmos pelas sete partidas do mundo, para respirarmos o aroma sexual da atmosfera carregada de sol. A morte violenta, por meios violentos, é imagem ignóbil e abjecta do homem como ser inteligente. Aceitar a guerra e os seus mortos prematuros, seja em que circunstâncias, é trair o destino. Por isso mesmo o destino do Farroncas surgia, todo ele, como uma traição.

            O Farroncas, ele próprio, seguira a carreira das armas como poderia ter seguido a de amanuense ou de fiscal das farinhas. Naquele tempo a voz paterna, se bem que tivesse perdido o tom peremptório que fizera o regozijo do mando dos nossos avós, ainda pesava o suficiente nos destinos da prole. O pai do Farroncas atazanou-lhe os ouvidos com vantagens e aliciantes em cuja sugestão ele se deixou prender. Engodou-se com a prosápia familiar que ansiava por “um janota na família” como referira o Pires ainda agarrado à imagem do cadete que nos roubava as raparigas iludidas pela distinção social da farda. Mas a farda nunca o tornara vaidoso. Via-se, nitidamente, que lhe falava o talhe de um militar verdadeiro. O exército surgira por um imbróglio familiar que o Farroncas aceitou por comodismo. A carreira das armas era um lago de águas calmas onde podia banhar-se sem o perigo de morrer afogado. Era uma carreira bonita glorificada por uma certa vaidade de salão e imunizada contra o fenómeno da guerra pelos milagres de Fátima. O Farroncas deixou-se embalar no ramerrão de uma rotina entorpecida por anos e anos de inércia. Boiou ao sabor da corrente até que esta desviou abruptamente para as rotas de África. Era tarde, já não havia remédio senão atravessar o inferno. Mas as peles estavam mimosas e os músculos enferrujados pela falta de exercício. o meu amigo deixara-se apanhar à traição e morrera devido a um erro de que não soubera ajuizar em devido tempo.

(continua)

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