O Homem ainda não existe – Compartilhando reflexões para que ele exista, um livro da psicóloga brasileira Christina Montenegro. Transcrevemos a sinopse da edtora:
“No planeta existem muitos homens, mas ‘O Homem’ (chamamento pelo coletivo que caracteriza um ‘Ator Social’,
nomenclatura do universo da sociologia) ainda não, já que é a única categoria de Gênero que ainda não debateu suas questões singulares, não tendo consequentemente se organizado autonomamente para fazê-lo (até agora).
Não precisamos mais falar ‘as mulheres’; se falamos ‘A Mulher’ sabemos que falamos das mulheres. Não precisamos mais falar ‘as lésbicas, os gays, os bissexuais, os travestis, os transgêneros’, etc; falamos LGBTT* e compreendemos a que universo social de Gênero nos referimos. Mesmo nos países mais resistentes ao debate das questões de Gênero há muito tempo existem ONGs para acolhê-lo quando se trata da Mulher ou de LGBTT*: isso é fruto da organização conquistada por esses grupos. Para falar dos homens continuamos precisando falar… dos homens. Não há – ainda – um coletivo que o represente social/econômica/politicamente. Não houve sequer reflexão, diálogo e negociação significativa entre os homens e trans-homens do universo LGBTT*, e os homens que se percebem heterossexuais. Creio na possibilidade de emergência de um Masculino, com referencial identitário Masculino (que ainda nos parece necessário desbravar), tão autônomo (independente de convocação institucional) quanto o Feminino o conquistou (assim como a turma LGBTT*), e com renovado Projeto próprio. Isso não só beneficiará a convivência dos homens com sua própria interioridade, mas também com (e entre) os demais homens, com (e entre) grupos de Gênero, ou grupos etários – grupos de outra categoria social/humana qualquer. A Academia, e algumas outras instituições, há muito despertaram para a gravidade do tema, e – de cima para baixo – tentam ao menos mobilizar o debate e a organização dos homens. Aguardamos, com muitas perguntas que queremos compartilhar contidas nesse livro, o despertar autônomo do cidadão comum (repito: independente dessa convocação institucional), crendo que quanto mais o contingente masculino torne sua singularidade uma QUESTÃO a elaborar, menos nossos descendentes correrão o risco do Filicídio: descendentes que não sabemos mais se vão nascer e sobreviver, e que parecem receber um mundo hostil e quase morto já ao chegar, quando conseguem chegar. Acreditamos também na plausibilidade da tessitura da Ética com a Estética, e na Arte (e, dentro dela, especialmente o humor e a Comédia) como instrumentos plausíveis de qualificação das capacidades de reflexão, renovação e transformação de quaisquer questões, inclusive a que aqui está em pauta. Rir e pensar não são incompatíveis.”


Será um livro humorístico?
Um homem homossexual deixa de ser um homem?
Uma mulher homossexual deixa de ser uma mulher?
Nenhuma organização, nascida de necessidades sociais e/ou políticas, representa “A Mulher” (isto é, todas as mulheres), “O Homem Homossexual” (isto é, todos…), “A Mulher Homossexual” (isto é,…), e por aí fora. Dessas organizações, interessam-me as que têm como objectivo pugnar pelo reconhecimento pleno, por todos os países e em todos os sistemas legislativos, de direitos já consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, mas que, na prática, muitas sociedades desrespeitam e muitas leis, em muitos países, criminosamente contrariam, discriminando seres humanos e não acatando, em relação a parte dos seus cidadãos, o que a referida Declaração – uma das grandes conquistas civilizacionais – determina. Porque esse objectivo é também meu, como cidadão e parte integrante da Humanidade, o mais importante de todos os colectivos.
Organizações que prossigam outros objectivos, parcelares, de seres humanos que têm uma determinada característica em comum (que tanto pode ser a orientação sexual, como uma ideologia ou uma crença), podem ser respeitabilíssimas, mas têm, para mim, valorações menos imediatas e diversas, consoante as razões da sua constituição e os objectivos que prossigam.
A designação “O Homem”, por razões históricas (e a História estuda-se, investiga-se, analisa-se, mas não se “apaga”, nem se “refaz”) é um do modos de referir o ser humano, macho ou fêmea, nas suas múltiplas diferenças, inclusive nos casos em que a fisiologia de determinado indivíduo não permite ou dificulta esta diferenciação, que não tem a ver com orientações sexuais ou desadequações entre o que cada um “sente ser” e o que fisiologicamente “é”, fazendo parte da imensa variedade de combinações genéticas possíveis e jamais podendo ser consideradas como “anormalidades”.
Poderemos procurar utilizar outra terminologia, que minimize as conotações negativas que esta, por exemplo, transporta. É o que faço, quase sempre, não porque seja “politicamente correcto” (uma invenção dirigida a imbecis), mas pela consciência de que uma determinada designação é, na sociedade actual, menos clara.
Mas não é este o caminho para a assumpção plena, por cada ser humano, da consciência dos direitos que lhe cabem, bem como a cada um dos seus semelhantes, e, sobretudo – porque nela estão contidos esses mesmos diretos – da sua Dignidade Humana.
Não vale a pena inventar questões que não existem e carregar palavras inocentes com culpas que não lhes cabem.
Estabelecer distinções mais ou menos ofensivas entre “preto” e “branco” (a minha neta, só com 8 anos se lembrou de perguntar “porque é que existem pessoas castanhas?”), “amarelo” e “asiático”, ou inventar “raças” humanas que a ciência não consegue estabelecer, destacando-se uma parvoíce bem conhecida, a da “raça caucasiana” (simplesmente para justificar o uso “legal e oficial” das outras designações), é algo que pertence aos domínios da boçalidade mais espessa, erigida em linguagem “civilizada”.
Costumo dizer a pessoas de pele escura (há muitos tons, já devem ter reparado), quando falam em alguém “de cor” (o “politicamente correcto”), que eu não sou transparente, nem lavado com Omo, pelo que também sou “de cor”.
Isto é, o que importa é destituir qualquer palavra, que apenas deve servir para designar uma característica – como dizer que uns olhos são azúis, pretos, castanhos, verdes… -, de conotações ofensivas. Tal significa, tomando exemplo talvez mais comum, roubar a um branco racista a possibilidade de usar uma palavra com uma conotação que ela não deve ter: não se trata, no caso, de “black power”, como noutros, de “orgulho” não-sei-quê, que só contribui para a eternização do empolamento de uma “diferença” que deveria cingir-se ao domínio da banalidade; trata-se sim, de acolher com naturalidade um termo como “preto” ou “negro”, com o único significado que deve ter neste contexto: uma designação – aproximada, de fácil comunicação – da cor da pele, exactamente tão simplificada como “branco”, que não pode ofender ninguém. No dia em que, nos EUA, se torne indiferente para qualquer indivíduo de pele mais escura que lhe chamem “nigro” ou “black”, os racistas até vão trepar pelas paredes, de raiva, precisamente porque a “ofensa” que lhes “dá gozo” deixou de funcionar! E o mesmo se há-de passar, no que se refere a qualquer recurso a palavras com que se pretende ofender alguém, se esse alguém recusar sentir-se ofendido.
Claro que isto, ajudando a que a generalidade das pessoas interiorize que estas distinções e discriminações não têm razão de ser, não resolve os problemas, actuais e reais, de xenofobia, de racismo, de homofobia – com a violência que tão frequentemente lhes está associada -, os quais temos de continuar a combater, enquanto persistirem.
E não devemos distrair-nos de outras perversidades, mais semelhantes às citadas do que parece, como os auto-designados “movimentos pela vida” (contra o direito de uma mulher decidir sobre o que faz com o seu próprio corpo) – grupos de talibãs fascistoides que pretendem impor a toda a sociedade princípios que só fazem sentido dentro da sua doutrina religiosa ou, até, de uma interpretação fanática e extremista dela -, pois o que criaturas como estas pretendem é que todos sejam obrigados a obedecer à “sua” doutrina religiosa (as alegações pseudo-científicas ou pseudo-filosóficas com que procuram mascarar-se não passam de uma patranha, mais adequadamente, até, de um “conto do vigário”). Isto é, querem converter todos os seus concidadãos, pela violência (uma lei iníqua é uma forma de violência, vide o Estado Novo e suas leis), à “sua” corrente (ou seita) cristã, desrespeitando a laicidade do Estado de Direito (coisa semelhante se passa com outras crenças, como a muçulmana, e a análise é idêntica).
Todas estas questões se identificam numa única: na necessidade de estender a todos os indivíduos o respeito pelos outros e pela sua Dignidade, pela sua individualidade irrepetível. Uma actuação contra este princípio é que deveria ser criminalizada e punida, bem como proibida a formação legal de grupos cuja intenção é submeter toda a gente a normas e comportamentos que decorrem apenas de convicções sectárias ou de considerações doutrinárias, quaisquer que elas sejam, intrinsecamente não extensíveis ao conjunto da sociedade (sim! por muito que isso choque umas almas pretensamente pias, as quais, se o inferno existisse, lá iriam parar, direitinhas e sem apeadeiros), concepção que facilmente se aplica aos tais “pró vida”, de facto organizações que prosseguem objectivos totalitários e, portanto, são inconstitucionais.
Posto isto, regresso ao tema inicial. A sinopse de “O Homem ainda não existe -…” parece-me derrisória ou, pelo menos, satírica. Se o não for, surge, obrigatoriamente, a pergunta: que se pretende debater, o sexo dos anjos?
Em qualquer caso, não me parece minimamente interessante, a não ser que a escrita esteja ao nível da do Ricardo Araújo Pereira.
1.) Para os que leram a sinopse acima, acrescento os links da série de vídeos que produzi a partir de alguns temas do livro, e – logo abaixo – o índice do mesmo:
A.) http://www.youtube.com/watch?v=Z3iQdp2nito
(Sobre a tendência ao silêncio dos homens)
B.) http://www.youtube.com/watch?v=prtc-beZlRo
(Sobre o que significaria ‘ser homem’)
C.) http://www.youtube.com/watch?v=0Agt-AW-AtE
(Sobre a relação dos homens com médicos e afins)
D.) https://www.youtube.com/watch?v=RaRZh3sCbgY&hd=1
(Sobre homens/corpo/Estética/Dança)
ÍNDICE do livro:
1a – INTRODUÇÃO – A AUTORA
Quem sou eu, e como me posiciono diante do assunto.
1b – INTRODUÇÃO – A AUTORA E SEU TEMA
Porque e como me envolvi com o tema. Resumo de minhas experiências em pesquisas e oficinas anteriores e atuais. Que tal vir se envolver com o tema também?
1c – INTRODUÇÃO – ALGUMAS QUESTÕES SOBRE MASCULINIDADES HOJE
As três questões básicas que levanto sobre as Masculinidades e mais algumas perguntas.
2 – MASCULINIDADES E O TEMPO
Masculinidades e história; história das exclusões; reflexões sobre a história do que poderiam ser ‘patriarcados’, ‘matriarcados’, ‘fratriarcados’, e ‘descendriarcados’ no nosso imaginário; o papel do Tempo nas Religiosidades; o ‘sexo e o gênero’ de Deus ou Deusa ou Deuses; Religiosidades no Tempo e nas estórias de sua História.
3a – MASCULINIDADES E O ESPAÇO – ECONOMIA
Masculinidades no exercício da Economia: ESPAÇO(S), TERRITÓRIOS, FRONTEIRAS: Lendo-os como VERTICALIDADES e HORIZONTALIDADES; IDENTIDADE, IDENTIDADE e MASCULINIDADES; crises econômicas; CAPITALI$MO, $ e FELICIDADE; o que é ou poderia ser HIERARQUIA?
3b – MASCULINIDADES E O ESPAÇO – POLÍTICA
Masculinidades no exercício da Política: Espaços, Territórios e Fronteiras, agora de outro ponto de vista; lendo-os como Desertos e Oásis. Verticalidades e Horizontalidades – identificando-as na Vida Pública e na Vida Íntima: seria realista separar essas ‘Vidas’? Identidade, Políticas e Masculinidades como cristalizações, pluralidades e alternâncias políticas. O que é ou poderia ser Autoridade.
3c – MASCULINIDADES E O ESPAÇO – ÉTICA
Masculinidades no exercício da Ética; crianças, meninos, meninas, jogos e brincadeiras; a construção da Ética e da Estética que – da Vida Intima da infância – vamos levar para a Vida Pública de adultos que expressam seu Gênero.
4 – MASCULINIDADES E PENSAMENTO
Espaço, territórios e fronteiras ‘esféricos’. Masculinidades e Filosofia – Arquitetura do lado de dentro e do lado de fora / Ciência / Arte / Cultura / Indústria Cultural / Humor / Performances, Transperformances e Estilo. Refletindo sobre um plausível casamento da Ética com a Estética.
5 – GOSTA MESMO DO ASSUNTO MASCULINIDADES?
Que tal então uma BIBLIOGRAFIA diferente como ‘saideira? O ‘FIO DE ARIADNE’ QUE PERMITIRÁ QUE TODO O PROCESSO REFLEXIVO, AUTÔNOMO, E A CRIAÇÃO DO PRÓPRIO LEITOR, POSSAM RECOMEÇAR. Relação comentada de bibliografia resumida sobre o assunto: Boa parte do que tem sido publicado sobre Masculinidades de 1931 até 2010, e como temos sido influenciados por isso: ESTÓRIAS DA HISTÓRIA DOS ESTUDOS SOBRE AS MASCULINIDADES, como quem conta ’Era uma vez’…
2.) Caro Sr. Paulo Rato:
Gostaria que soubesse em primeiro lugar que fui surpreendida pela publicação da sinopse de meu livro, pois quando ela foi enviada o esperado (por mim) era que “Os Argonautas” estivessem interessados apenas num primeiro contato.
Já estava encomendando um livro para enviar para os responsáveis.
O livro é artesanal, confeccionado apenas sob encomenda às lojas da Rede Livrarias Cultura do Brasil, e eu mesma preciso comprar os que desejo, (nada recebo pelas vendas, a não ser o prazer de obter interlocutores para compartilhar reflexões), quando fui informada que a sinopse e a imagem da capa estavam nos ‘Argonautas’, sem que nada tivesse passado por um diálogo prévio.
Considerei mesmo assim uma honraria.
Aí veio a desagradabilíssima surpresa de seu texto, que em nada da sinopse real se baseia (o que dirá do livro!), no qual o Sr. me parece mais interessado em se divertir desqualificando meu trabalho de anos a fio, que em estabelecer um diálogo sobre o assunto de fato em pauta.
No seu texto não há humor: se houvesse, nós dois nos divertiríamos.
Caso o Sr. não tivesse gostado DO QUE ESTÁ ESCRITO, minha resposta seria outra.
Mas o que o Sr. comenta parte de um texto que deve estar apenas pré-concebido no seu cérebro, por motivos que não só me escapam, como só me interessariam teoricamente, por motivo evidentes de estudo.
Porque não foi a sinopse acima que o Sr. leu?
Por exemplo: …’O Homem’ (chamamento pelo coletivo que caracteriza um ‘Ator Social’, nomenclatura do universo da sociologia)…: se não lhe agrada o conceito Ator Social, por favor vá ser virulento, grosseiro, com a Sociologia e suas construções conceituais, e não comigo.
Em tempo, qual o problema de Homem ser usado para ‘humanos’ e TAMBÉM para o ator social Homem?
Há tantas palavras com dupla utilização em tantos idiomas! Para ‘culpa’ e ‘dívida’ os alemães usam apenas um vocábulo; em hebraico há apenas um vocábulo para ‘sabor’ e vontade’; para ‘representar’ e para ‘brincar’ bastam play, jouer, etc.
Outro exemplo: …”Não houve sequer reflexão, diálogo e negociação significativa entre os homens e trans-homens do universo LGBTT*, e os homens que se percebem heterossexuais”…: Logo, está aí evidente que o debate das Masculinidades envolve SIM homens heterosexuais, homossexuais e transhomens (no mínimo); eu não o ignoro como o Sr parece dizer.
No feminismo (e no movimento LGBTT*) as mulheres e os LGBTT* não só não precisaram de ‘convocação’ institucional, como se reuniram sem muros econômico-sociais. Lá estavam originários das mais diversas classes, dos mais diversos perfis identitários, pois a prioridade estava no fato de ser Mulher ou LGBTT*.
Não sei em Portugal, mas no Brasil a perniciosa bactéria que fragmentou e desmobilizou os movimentos civis (os de Gênero, o Movimento Negro, etc), foi a politico-partidária: os partidos se infiltraram e roeram a sinergia de todos esses grupos.
Fiquei feliz ao descobrir que o Sr tem o mesmo horror que eu do que nos habituamos a chamar de ‘politicamente correto’, que (no livro) descrevo como um dos nefastos sintomas do Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista, Caldo que aponto como único “vilão” nas questões/debates de Gênero.
Mas se o suposto ‘politicamente correto’ é uma per-versão, Ética e Estética se mantêm (ou deveriam se manter) na medula de qualquer coisa que pretenda merecer o nome ‘humano’.
Acredito, como Schiller, na Educação Estética do Homem.
Da Ética, a Etiqueta se desdobra; da Estética, a singularidade da Estilística emerge.
Gostaria que soubesse que – se o que desejava – era que eu me sentisse mal, o conseguiu: receber um coice inesperado é bem diferente de receber o compartilhamento de reflexões ou de riso.
Caso o seu texto – ele sim – fosse um texto de humor, mesmo que fosse de humor de má qualidade, eu não ficaria tão triste como fiquei: divirta-se! Parece que é disso que gosta!
O divertimento (ou gozo) com a tristeza do Outro é tema que nós psicoterapeutas conhecemos bem; por isso, quando acontece conosco, nos entristecemos como qualquer outro ser humano, mas estamos preparados também para a reviravolta proporcionado pela capacitação à reparação (curiosamente tema de um texto que escrevi recentemente para um evento de Filósofos onde estive a convite), e – graças a ela – a reviravolta da renovação da Esperança.
O Sr. fica com o suposto gozo de suas grosserias.
Eu sigo em frente com minhas perguntas e interlocutores de melhor qualidade, já que em meus textos, no livro inclusive, evito responder, e muito menos afirmar coisas; prefiro o incômodo (mas respeitoso) lugar daquele que provoca com perguntas, e o (divertido) lugar daquele que sabe compartilhar risonhas reflexões.
Perguntas não têm como busca desqualificar ou ofender o Outro.
Aliás, aprendi isso não só com teóricos, mas também com meu pai, radialista gentilíssimo, amado por todos em sua época, particularmente pelos artistas, que abandonou o Rádio decepcionado com o governo fascista de Getúlio Vargas, que o mandou para a prisão inúmeras vezes, quando minhas irmãs mais velhas eram pequenas.
E continuo aprendendo com o meu querido amigo LAERTE (autor da capa do livro, chamado ora de o “Poeta das Tiras”, ora de o “Filósofo das Tiras”), com meu jovem e também querido amigo Fabio Porchat (autor do texto de humor da ‘orelha’ do livro, dramaturgo, cineasta, ator, comediante, e pessoa de primeira), e com a Dra. Marlise Matos, doutora em Sociologia especializada em Gênero e psicanalista, minha orientadora na época da pesquisa oficial, e a acadêmica mais bem humorada que conheço, hoje em dia grande e querida amiga.
Abraços a todos.
Cara Christina Montenegro,
Lamento que tenha ficado triste com o meu comentário. Além do mais, se me considera grosseiro (o que não costumo ser e persisto em considerar que não fui), não é admissível que se sinta atingida, tocada sequer pelo que escrevi.
De facto, as minhas reflexões não visavam o seu livro (que continuo a não conhecer) mas a sinopse, que eventualmente poderá ser o “texto de orelha”, da autoria de um jovem de múltiplos talentos e pessoa de primeira (já que não será o seu amigo Laertes, pois, pelo menos deste lado do Atlântico, o “autor da capa do livro” é um artista gráfico, conceito que me parece ser por igual assumido desse lado – é o que deduzo de conversas com amigos brasileiros, alguns também escritores, jornalistas, professores universitários, quiçá, porém, gente do piorio, cujas desqualificações a amizade me impede de enxergar).
Se assim é, agora, sim, serei desagradável – “grosseiro”, para quem como tal quiser tomar o que penso e escrevo -, mas sempre fui avesso a acatar uma hipocrisia historicamente classista de “relacionamento social”, que define atitudes e comportamentos segundo códigos apenas consistentes no interior do grupo social a quem interessa o seu estabelecimento (costumo dar o exemplo da mamã que diz ao menino para não rapar o prato… acrescentando, pedagogicamente – “se quiser mais, pede, que a criada traz” -, como demonstração da suspeitíssima raiz de quase todas as normas chamadas “de etiqueta” e de outras que se agrupam no monturo do “parece bem”).
É que não creio ter treslido o que está na referida sinopse.
Nela se lança um tema, uma hipótese, uma sugestão. Ora, como referi (suponho que terá reparado), “a sinopse (…) parece-me derrisória ou, pelo menos, satírica”. Acrescentando que “SE O NÃO FOR, surge, obrigatoriamente, a pergunta: que se pretende debater, o sexo dos anjos?”
Portanto, os receios que transmiti, referem-se à hipótese de, sendo a sinopse uma referência séria ao conteúdo do livro, este consistir numa diversão de problemas reais, centrando-se numa temática incongruente e inútil. Isto é, trata-se, por minha parte, de uma reflexão sobre as consequências negativas dessa “diversão” e de outras, já que aproveitei para relembrar outros tipos de desvios irracionais, nunca inocentes, o que traduz a abordagem de conceitos e questões de âmbito mais geral.
Se, como admiti possível, a sinopse pretende assumir-se como um texto humorístico, na prática, acaba por se dirigir a um círculo restrito de amigos, como uma “private joke” só nesse círculo entendível, mas não será a melhor forma de apresentação do livro a quem, de fora, se vê confrontado com o texto. E serei obrigado a concluir que o seu talentoso amigo, talvez por juvenil inexperiência, não analisou as leituras (necessariamente múltiplos, não vale a pena citar bibliografia…) que o que escreveu suscitaria no exterior desse núcleo.
Enfim, talvez não nos tenhamos entendido mutuamente. E é provável que a minha inadequação aos “bons costumes” socialmente aceites e solidamente fundamentados em simpáticas e adocicadas distorções do que cada um pensa leve a que continue a encarar de soslaio o que aqui exponho.
Só posso reafirmar que:
– nunca foi minha intenção ofendê-la e muito menos causar-lhe tristeza;
– não tendo lido o livro, seria estulto criticá-lo;
– quando, ao longo de uma vida já algo longa – que incluiu a oposição bastante activa ao regime colonial-fascista português e nunca se afastou da luta por uma verdadeira democracia, onde o serviço público seja preocupação prioritária de quem governa e a justiça social um objectivo sempre presente – fui obrigado a “escoicear”, por circunstâncias de que o seu livro e respectiva sinopse andam tão longe que nem se avistam, pode crer que os resultados foram sempre bem mais notórios que qualquer mágoa que, injustificadamente, tenha sentido.
Se, sem ideias preconcebidas, entender isto, nada de relevante, se terá afinal passado. Ficaremos, simplesmente, a conhecer-nos um pouco.
Se tal não acontecer, a minha animosidade em relação aos referidos “bons costumes” deixar-me-á, sossegadamente, na indiferença.
Informo que a redação da sinopse é de minha autoria, a partir da orientação dos reponsáveis pela Editora, profissionais habilitados.
Jamais tive problemas com ela nos demais órgãos da imprensa (impressos, radiofônicos ou televisivos), em Instituições reconhecidas que me acolheram (como ao livro), ou nas Universidades.
Parece não ter agradado apenas ao Sr., felizmente, o que ainda assim, lamento.
Quanto a conceituações, volto a recomendar que OU brigue com a Sociologia, OU (se quiser) se informe melhor sobre seu histórico e sobre os debates que vêm ocorrendo dentro dela.
Sobre o livro creio que (já que a sinopse não lhe agrada) os vídeos são mais do que claros; se puder, assista-os.
Infelizmente há (também no Brasil) segmentos da Esquerda cegos (patriarcal-patrimonialisticamente) para as questões de Gênero, especialmente as que dizem respeito ao contingente masculino. Com uma Esquerda dessas, nem preciso da Direita para me preocupar, e mesmo me aborrecer.
Considero-me uma humanista em primeiro lugar. O que mais interessa a terapeutas como eu são as gentes, naturalmente.
Abraços.
Estou esclarecido.
De facto divergimos. Serei só eu o divergente?
Desiluda-se. Ninguém pensa isoladamente, ainda que eu reconheça ter passado a vida, em variadas instâncias de intervenção cívica e cultural, a incomodar gente habituada a espapaçar-se nas etéreas almofadas de certezas superficiais, amplamente aconchegadas pela vastidão de apoiantes da “bem-pensância” de vários quadrantes.
A mais notória divergência é que, no que se refere à esquerda, eu considero ser ela habitada por imensa gente imersa em múltiplas preocupações mal semeadas em terrenos de óptimas intenções, e entretida na árida exploração de uma intrincada rede de conceitos surgidos no seio de uma intelectualidade burguesa perturbada com a sua origem e posição social e igualmente embebida em ideais aparentemente esplendorosos. Gente que se perde dos caminhos conducentes ao cerne das questões que hoje vão arrastando as sociedades para o empobrecimento e a alienação totais. Encontrar esses caminhos, uma matriz de análise e crítica da complexa realidade de que constantemente nos tentam distrair, é condição “sine qua non” para estabelecer uma estratégia eficaz de combate às forças reais – anónimas, fluidas e amalgamadas em coisas de contornos indefiníveis como os “mercados” e outras parolices afins – que, de facto, dominam e governam praticamente todo o Mundo: afinal a superestrutura do poder, numa fase crítica do capitalismo, eventualmente de decadência, mas perigosíssima no que se refere às suas previsíveis consequências, as quais, há mais de século e meio, um marginal, de seu nome Karl Marx – hoje apenas lembrado pela rama do muito que investigou, analisou e escreveu, e quase sempre citado como se de folclore se tratasse – previu tão rigorosamente que até arrepia lê-lo…
Portugal e a UE, em que se integra, são, neste momento, um notável exemplo deste pantanoso marasmo, quando mesmo as forças políticas mais à esquerda parecem incapazes de ultrapassar o espartilho de um “modus faciendi” bem comportadinho, onde faltam uns metafóricos “murros na mesa”, traduzidos na prática por uma argumentação sem medo das palavras e do seu peso (do género: não há mentirosos, apenas pessoas que “faltam à verdade”, nem vigaristas, mas tão só “não cumpridores de promessas eleitorais”). Manietada por “regulamentos” e “cortesias” historicamente construídas pelas classes dominantes (para assim se distinguirem da “ralé”), incapaz de tratar com a indispensável rispidez uma espécie de cavaleiros e damas que, em sede parlamentar ou governativa, se amostram muy susceptíveis a pretensas “ofensas” às suas inexistentes honras (mas incapazes de, em tempos de ditadura, reclamarem briosamente das “legalizadas” ofensas aos seus direitos ou em prol deles terçarem suas armas), esta esquerda a cuja ineficaz actuação assisto com crescente desgosto, abre estrada larga, por toda a Europa, à ascensão de uma nova extrema-direita cuja demagogia facilmente congrega o descontentamento dos povos (vide França, Grécia, Itália, Áustria, as “civilizadíssimas” Holanda ou Bélgica, alguns países nórdicos…).
Divergimos, pois, suspeito que fortemente, o que, sendo saudável, nada tem a ver com Sociologias e seus “históricos” – aliás, nenhuma disciplina das chamadas “ciências humanas” tende para qualquer tipo de uniformização, porque todas se sustentam em inevitáveis raízes ideológicas, para o bem e para o mal…
A divergência, repito, é saudável e o melhor antídoto contra uma qualquer ditadura.
A sugestão, ainda que discreta e enluvada, de que ela parte de uma inferioridade intelectual, é um péssimo instrumento. Completamente ineficaz, no que me toca… Pelo que aqui termina, pela minha parte, esta conversa, sem esquecer, apesar das divergências, um abraço de esquerda.
Uniforme me parece ser o seu discurso, que se deu o desfrute de pré julgar não só um trabalho de pesquisa de anos sem lê-lo, mas também um profissional, uma pessoa, sem conhecê-lo(a).
Foi o Sr. que desqualificou meu trabalho e minha pesquisa desde a primeira mirada, e clara e curiosamente até a mim mesma.
Acredito pelo seu discurso que sequer se deu ao trabalho de ver os vídeos: perguntas o Sr. não fez nenhuma desde o início! O Sr. parece já “saber tudo”, e apaixonado por si mesmo dentro de sua cápsula!
O Sr. reparou que em momento algum se deu ao trabalho de me perguntar, por exemplo “- O que a leva a pesquisar as Masculinidades? O que a levou a achar que isso tinha importância? Que autores a amparam em sua pesquisa?”
“Divergências” é OUTRA coisa, outro fenômeno. Não chegamos sequer a PODER divergir: o Sr. não dá espaço para tal, na medida em que se limita a atacar!
Divergência seria uma coisa que poderia ter surgido, caso o Sr. tivesse – diante de suas possíveis dúvidas – me perguntado coisas, ou pedido esclarecimentos, e – diante de minhas possíveis respostas – o Sr. tivesse (aí sim) divergido de alguma maneira de pensar, ou de escolha de parâmetros.
Logo, é o seu discurso que está petrificado ao redor de seus ‘achismos’: o Sr. ‘acha que’, e ataca.
Não se dá ao trabalho sequer de perguntar – o que deixa claro que seu ‘achismo’ supostamente substitui as dúvidas; petrificado, parte do princípio que tudo conhece.
O Sr. não Pensa; o Sr. reage! Reage até ao que nem se deu o trabalho de buscar conhecer de fato!
Como dizia minha amada Hannah Arendt, a Banalidade do Mal começa onde não há Pensamento.
Me parece que uma boa dose de pathos o faz divertir-se com ataques ao Outro, e a torturá-lo com seu ataque vazio sistemático: o que me obriga a voltar a afirmar que com uma Esquerda dessas não preciso de Direita para me preocupar ou me angustiar.
O fascismo começa onde o mal adubo da verticalidade impera.
Salazar ficaria encantado em assistir com que arrogância o Sr determina “o que é bom ou mal”, o que é certo ou errado” sem ter antes dialogado humanamente de igual para igual; ficaria encantado com que truculência determina o ‘-Cale-se!’ sobre assuntos e pessoas sobre os quais não tenta sequer se informar, mas farejou que são assuntos suculentos que – por isso – lhe deixam com uma espécie de ‘alergia prévia’.
Curiosamente meu livro que gerou esse show de horrores da sua parte, nada “afirma”; limita-se modestamente a levantar perguntas, e a reunir autores que trataram do assunto para comparação de idéias.
Eu jamais me sentiria bem em ser assim vertical, arrogante, prepotente ou truculenta.
Repito, sou humanista, e prefiro dialogar com meus irmãos humanos: como disse para a Clara outro dia, estamos todos – afinal – sob o risco dos asteróides que nos rondam.
Poderíamos estar ocupados com atitudes antes fraternas que truculentas, ante com diálogo real que com pré-julgamentos e rótulos.
Jamais usaria uma ‘camisa preta’; prefiro as vermelhas; mas, para compartilhar uma camisa vermelha na companhia de torturadores como o Sr., prefiro adotar camisas brancas.
E não se preocupe: não lhe importunarei mais com minha disponibilidade.
Sua encapsulada sabedoria já o ocupa muito. Divirta-se com ela, ataque e torture a si mesmo.
Abraços.