“CAPITAL FEDERAL, de Coelho Netto” – por Manuela Degerine

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Imagem1Falamos de livros em geral, falamos de um livro em particular… Não nos ocupamos somente de novidades literárias, podemos fala de lançamentos que vão ocorrer, de livros recentemente publicados, de livros que ainda não saíram; podemos falar de livros publicados há séculos. Hoje Manuela Degerine fala-nos de um escritor brasileiro – Coelho Netto e do seu livro  A Capital Federal.               

Coelho Netto é um escritor brasileiro nascido em 1864 que vai servir de bode expiatório ao modernismo e seus prolongamentos. Quem lê o artigo da Wikipédia sobre este autor lá encontra uma citação de Jorge Amado condenando a linguagem, a cultura clássica, a falta de operários nos seus textos… Ora Coelho Netto seguiu a formação clássica de todos os jovens cultos do seu tempo-espaço e, ao contrário do que os modernistas lhe censuraram, escrevia num português com sintaxe e léxico brasileiros. (Apenas um exemplo… O “caboré piando no tronco secco ou cruzando os ermos”, p. 20. O “Aurélio da Língua Portuguesa” não esclarece este “caboré” mas recorri à Internet: trata-se um pássaro noturno.) Por outro lado a quantidade de operários na lista das personagens não representa um critério literário…

“A Capital Federal (Impressões de um Sertanejo)” é um romance publicado em 1893; cito aqui a 4ª edição, da livraria Chardron, Porto, 1915. (As anomalias ortográficas nas citações não são da minha responsabilidade: a ortografia portuguesa era distinta da atual.) Anselmo Ribas cresceu em Tamanduá na fazenda familiar e vai durante alguns dias descobrir o Rio de Janeiro. Esta viagem ocasiona uma reflexão sobre o Brasil, suas oposições campo/cidade, tradição/progresso, essência/aparência, virtude/vício, povo/elite, produção/dissipação… A urbe surge como espaço de luxo e modernidade através da máquina (comboio), da iluminação pública, das multidões que – mais do que tudo – assustam o protagonista, da casa onde o tio Serapião recria ambientes do fim-de-século literário… Em contrapartida a cidade real representa para Anselmo uma desilusão estética; sonhou-a perfeita. Também é na cidade que prosperam os vícios (jogo, alcoolismo, prostituição) e onde mais se nota a importação da cultura: “Os olhos dos nossos poetas vêem as  constellações de outros céus, as aguas de outros rios, a verdura de outras selvas” (p.150). Podemos todavia ler neste romance belas páginas – ou parágrafos – sobre a noite em Tamanduá, os banhos na ribeira à sombra de cajueiros em flor, os bacorinhos na fazenda, debaixo da mesa, a reclamar a sua parte (p. 38), as variações de odor e aspeto, consoante as horas, na Rua do Ouvidor (pp. 129-133)… E debates sobre a cultura brasileira: “O povo, propriamente dito, é uma massa rude que serve de instrumento aos privilegiados. Essa casta superior, que podia impôr as letras e as Artes, é indifferente, porque não se educa na patria, educa-se no estrangeiro ou nas suas doutrinas, é lida em livros de fóra, visita monumentos na Europa, fala sobre exotismo e sente e pensa atravéz do sentimento e do pensamento dos seus educadores – são automatos do Occidente” (p. 179). Mais adiante o Dr. Gomes de Almeida, amigo do tio Serapião, ainda proclama: “Germens de todas as raças do mundo circulam dentro em nós e é justamente por isso que não somos nada, porque não temos identidade. Só ha um meio de tirar dessa miscellanea um povo – é educal-o, mas educal-o na escola austera do amor da Patria de modo que elle se converta a nacional” (pp. 180-181). A consciência do mosaico social constitui – na busca de identidade – a base da futura “antropofagia cultural”.

A princípio o luxo entusiasma Anselmo: “Lastimei profundamente os meus que lá haviam ficado chocando pintos e debulhando grão. Que vale uma ninhada diante de uma mesa como esta que meus olhos contemplam, carregada de crystaes rutilantes? Que valem as colheitas comparadas ao gozo de um mergulho nesta piscina de marmore que me espera? Decididamente a grande sciencia do viver não consiste em saber accumular fortuna, mas em saber dissipal-a” (pp. 39-40). Porém no fim do romance, após uma noite de vício sem prazer, após um baile do comendador Bessa, no qual cintila a mediocridade das elites, Anselmo compreende que a cidade constitui para ele – homem do campo – uma sucessão de desilusões,  frustrações e degradações. Portanto regressa a Tamanduá.

É evidente que o modernismo de 1922 pôde assumir posições extremas por Coelho Netto, entre outros decerto, ter – quase trinta anos antes – iniciado uma reflexão literária sobre a cultura e a identidade brasileiras.

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