CONTOS & CRÓNICAS – “Meu avô de macacão” – por Catarina Pereira

contos2

O boteco transbordava gente, quase todos em pé, apoiados em postes, árvores e tamboretes, alguma bebida na mão.

O sol das seis da tarde já não podia ser visto entre os prédios, mas o dia ainda estava claro.

Das quatro mesas espalhadas na calçada, metade estava desocupada embora, apesar dos esforços frenéticos do único garçom, ficassem repletas de copos e garrafas vazias a cada dois ou três minutos.

Da farmácia em frente, o vi chegar apressado, mochila no ombro, olhar em volta, entrar e  sair do pé-sujo carregando duas cadeiras dobráveis, o metal esverdeado corroído por ferrugem.

Sentou-se numa delas, apoiou a outra, fechada, na mesa. Quinze minutos atrasado e, pela sofreguidão com que bebeu o primeiro chope, sedento. Decidi aparecer, quando mostrou o  copo vazio para o garçom.

Atravessei a rua devagar, parei, olhando por cima, fingindo procurá-lo. Ele gritou meu nome  no meio do burburinho e acenou. Acenei também, sem transparecer grande entusiasmo. Abri a  cadeira do lado oposto da mesinha cambaleante, o mais distante dele possível. Era preciso manter  a compostura ou, ao menos, disfarçar.

Em quase dois anos, eu já havia perdido as contas do número de vezes em  que a cena se repetia, com poucas variações, naquele mesmo cenário. O desfecho, não dá para negar, paradisíaco, acontecia num hotelzinho próximo, com direito a champanhe de verdade, antes, e a   um ramo multicolorido de flores do campo, no dia seguinte.

Então, parecendo fugir a qualquer tentativa de rotina, sem explicação ou motivo aparente, ele simplesmente desaparecia. E ressurgia, sabe-se lá quando, no boteco de estimação, as reticências contrastando com uma sensualidade travessa, me fazendo antever cada um dos nossos movimentos, mal girada a chave dentro do quarto. Até para quem não estava olhando, era bastante evidente o que rolava na nossa mesa.

Devia dar para sentir o cheiro.

Mas esta espécie de encontro marcado entre ele e o meu destino, eu sempre a última a saber e a primeira a ceder, começava a deixar um ranço de mulher das cavernas, fantasia sedutora até, mas um comportamento no mínimo repreensível na realidade do pé-sujo, zona sul do Rio de Janeiro, em pleno século vinte e um. As amigas só o chamavam de  homo spertus, e eu já captava sorrisos de  escárnio nos rostos das minhas antepassadas. Regras sociais, morais, pós-emancipação feminina.

Quem mandou?

Por tudo isso e para vingar uma auto-estima combalida, eu havia decidido, dois segundos  depois de aceitar outro encontro, telefone mal desligado, não me deixar arrastar novamente  para aquele hotel, nem por todo o tesão do mundo.

Só faltava atinar como.

Cabelos em cachos emaranhados presos displicentemente por uma tira elástica multicolorida, rosto fino, lábios suculentos, a mistura étnica afrodisíaca sentada à minha frente, olhos verdes brilhantes vagando pelo meu corpo, se levantou e beijou minha boca.

Respirei fundo.

Eu já havia desistido da etapa dos quês e por quês, mas desta vez, só para manter o controle,  pedi montes de explicações. Ele voltou para a cadeira, o olhar inquisitivo, sem conseguir dissimular o espanto pelo meu retrocesso.

O relato começou pelo de sempre, projetos fora da cidade, ofertas irrecusáveis, o cansaço, a arquitetura culpada pela falta de tempo, a saudade. A cantilena manjada me dava ganas de fugir dali e deixá-lo falando sozinho.

Pedi um chope. Enquanto ele falava, eu procurava, dentro da minha cabeça, um meio de ao menos controlar a explosão hormonal iminente.

Meu avô era um velhinho mirrado e divertido. Passava dias inteiros num quartinho,   limpando e consertando uma pequena coleção de relógios que dizia antigos e caros. De vez em quando nos presenteava com algum brinquedo esdrúxulo, pequenas máquinas enlouquecidas que faziam barulhos estranhos e giravam em torno do próprio eixo, inutilmente engraçadas. Usava, dia após dia, o mesmo macacão azul puído, pernas cortadas pela metade e mangas arrancadas, confiscado entre as roupas de minha avó, velhinha gordinha e ranzinza, o dobro do tamanho dele, fazedora do pão caseiro mais cheiroso da cidade.

A noite quente parecia ter posto todo o bairro no encalço de uma bebida gelada; logo ficou impossível continuar sentado e não ser sufocado pela multidão.

Ele pegou nossos chopes, fez sinal com a cabeça para que eu o seguisse. Abriu caminho até a esquina. Junto ao meio-fio, ao lado da banca de jornal, colocou as tulipas sobre o capô de um carro, apoiou a bunda arrebitada num fradinho e me puxou.

Passei por entre seus braços e peguei meu chope. De uma distância que julguei segura, discursei brevemente. Falei de sentimentos femininos, de relações instáveis.

Ele acompanhou cada palavra.

E, no instante mesmo do ponto final, esticou o pescoço, encheu minha boca com sua língua.

Meu avô só se afastava dos relógios a cada quinze dias, nos fins de semana em que aconteciam as reuniões de um tal clube de colecionadores numa cidade próxima, de onde sempre voltava exibindo, orgulhoso, uma ou duas peças raríssimas e valiosas. Ouvi, vezes sem conta, minha avó reclamando daquela gastação de dinheiro.

Foi quase um mistério me perceber diante dele, os ventres colados, braços, pernas, bocas e línguas multiplicados num caos. Meu corpo age assim, por conta própria. É independente e erverso.

Ofegante, dei alguns passos para trás. Entreguei-lhe o copo que, não sei como, ainda tinha na mão.

Ele me olhou, meio sorriso nos lábios, a cabeça inclinada, pose clássica de cachorro desnorteado.

Atravessei a rua e comecei a me afastar.

Quando meu avô morreu, descobrimos que a tal coleção não passava de um amontoado de velharias. A família dobrou de tamanho e a pensão da minha avó foi reduzida à metade porque a outra ainda tinha filhos menores. Até o fim da vida minha avó reclamou de tudo o que deixou de ter e fazer por causa “daquele velho sem-vergonha ”.

De repente, todos os relógios do meu avô soaram dentro de mim. Parei. Vai ver eu estava renegando um atributo genético. E, se essa desculpa fosse por demais esfarrapada eu ainda tinha um trunfo: a velha chata em que minha avó havia se transformado.

Fiquei alguns instantes desconfiada de conclusão tão conveniente. Bem poucos, é verdade.

Logo depois, dna e convenções sociais finalmente agindo a meu favor, idéias mais claras a cada feixe de luz dos postes, tomei o caminho de volta. Nunca fui mesmo mulher de grandes virtudes e não pretendo acabar num asilo decrépito, maldizendo esta noite e sabe-se lá quantas mais. No lugar onde estávamos, ao lado da banca, meia dúzia de garotos disputava um baseado e uma garrafa de cerveja.

Eu sabia exatamente onde encontrá-lo. Da entrada do boteco o vi, ao fundo, cotovelos apoiados no balcão, sorrindo horrores para a filha do dono, a garota espinhenta quase se derretendo por cima dele, costume que tanto rendia um pendura em épocas de grana curta quanto um lugar no quarto de despejos para guardar a mochila.

Esperei. Só um momento. Atraído pela força silenciosa da tentação, ele me viu. Acenou, animado como se fosse a primeira vez.

Em segundos, meu Brucutu pós-moderno percorreu, me puxando pela mão, a meia quadra que nos separava do hotel. Sem champanhe, desta vez.

Faz-se célere a clepsidra.

Leave a Reply