
I
Numa aldeia da nossa província festejava-se em tempos idos S. Gonçalo, casamenteiro das velhas. Havia de manhã festa de igreja, de tarde procissão e à noite bailarico, arraial e fogo de vistas. Na confusão própria de tais folguedos sempre algumas donzelas de cinquenta para cima conseguiam arrumar as coisas de tal jeito que, daí a meses, tivessem de casar meia dúzia delas.
Veio a Separação acompanhada de todos os seus rigores e deixou de se fazer a festa com profundo desgosto das devotas. Ultimamente, porém, dado que nos reaproximámos um pouco da Santa Sé e que, dentro da letra da lei, têm sido permitidas, aqui e além, procissões e romarias, as velhas da aldeia em questão procuraram o seu prior para que restaurasse a tradicional festividade. O sacerdote, pelo sim pelo não, quis ouvir primeiro o regedor, que é também alveitar e ferrador para nos servir quando for preciso.
– A procissão? – disse este, coçando a guedelha e pondo de parte meias solas de ferro que estava deitando a uma burra. – Sim… Não há dúvida… Mas sem falar com o nosso administrador é que não…
O prior montou no seu cavalicoque e foi, dali a duas léguas, à sede da administração expor o caso.
O administrador escabichou o ouvido com um palito, que estava mastigando como sobremesa do almoço, e explicou:
– A procissão?… Cá por mim… O pior é o sr. governador civil. É muito esquisito e forma torta. Para mais, a política anda agora muito mexida. O melhor seria o senhor prior ir pedir autorização à cidade, não vá eu meter-me num sarilho sem precisão nenhuma.
O pobre prior enfiou-se num comboio e foi à cabeça do distrito. Pediu para falar ao governador civil e conseguiu ser introduzido no gabinete de Sua Excelência. Este nosso amigo é um democrático assanhado, firme como um penedo nas suas convicções e, mal o padre esboçou a sua pretensão, cortou-lhe o ás com a manilha do trunfo.
– Sim, sim, bem sei… A tradição, a velha alma portuguesa, as crenças dos nossos avós… Isso para cá não pega. Começa-se assim por uma festazinha de igreja e, daqui a pouco, temos aí a Inquisição. Se as sua velhas querem casar, para isso têm o registo civil. Cá por mim, sou fiel aos velhos princípios do meu partido e, enquanto for governador do distrito a reacção não deitará as unhas de fora sem que lhes corte. Sinto muito, sr. sacerdote, não lhe poder ser agradável, mas não posso… Não posso e não quero…
As pessoas a quem o prior relatou a conversa disseram todas em coro:
– Ali não há nada a fazer. Aquele diabo é teimoso como um jumento e torcido como um saca-rolhas. Só um milagre era capaz de o convencer…
E, ao contar às velhas da aldeia o fracasso da sua tentativa, o prior concluiu também:
– Ali só um milagre…
Sucedeu que, nesta altura, vieram chamá-lo para ir sacramentar o velho Matias, que estava “in articulo mortis”. Matias era um santo varão, patriarca rodeado de uma cáfila de filhos, netos, bisnetos e tetranetos, cidadão irrepreensível, cristão exemplar e espelho de virtudes de toda a espécie, peso e tamanho.
O prior foi lá, confessou-o, absolveu-o dumas ligeiras culpas, que eram mais escrúpulos de consciência do que propriamente pecados, e, depois de o ungir, teve de súbito uma ideia.
– Ó seu Matias! disse ele ao moribundo. O senhor com todo esse preparo não pode deixar de ir direitinho para o céu daqui a pouco. Ora passa-se isto, e aquilo – aqui contou a pretensão das devotas e a teima do governador civil – e, visto só um milagre poder torcer aquele cidadão, era muito favor o meu amigo tratar-me disso lá em cima, na Corte Celeste para onde vai.
– Pois sim, deixe o caso comigo, prometeu o Matias. Farei tudo o que puder.
E nisto fechou os olhos, exalou o último suspiro e foi parar, como o prior previra, às portas do céu.
7 de Janeiro de 1923

