Obviamente que, hoje, na Crimeia algumas pessoas estão contentes. Outras, na Crimeia e na Ucrânia, estarão revoltadas. Mas, mais óbvio ainda, é que as situações de tensão na região vão continuar, e, provavelmente, agravar-se.
Alguns sentir-se-ão vencedores. Putin consegue, para já, manter a Crimeia ligada à Rússia, impedir que a NATO se instale nas bases militares que ali existem, e travar o agravamento do cerco à Rússia. O governo recém-instalado em Kiev reforça-se como aliado ocidental, e obtém apoios para enfrentar Moscovo. Os Estados Unidos impedem um entendimento entre a União Europeia e a Rússia, muito pouco conveniente para a política de reforço da sua influência em todos os pontos do globo, que é a pedra angular de toda a sua política internacional. Só alguns líderes europeus se devem estar a interrogar sobre o papel que a União Europeia poderá ter no futuro neste conflito. E não só.
Claro que muitos habitantes da Ucrânia, da Crimeia, e de outras zonas da Europa Oriental se devem estar a sentir como carne para canhão. O entendimento dos jogos da geopolítica, dos mecanismos de influência político-financeiros é importante para se compreender o que se vai passando, mas esse entendimento, para os principais interessados, que são as populações afectadas, é dificultado pelas vagas de diferentes propagandas que incidem sobre estas. Mais ainda, a participação nas decisões políticas é extremamente precária, e o aventureirismo está muito facilitado pela grande instabilidade e pouca transparência reinantes. A falta de uma grande informação isenta é decisiva, e facilita a manipulação das populações.
Os jogos geopolíticos pouco ou nada têm a ver com a felicidade e o bem-estar das populações. Aceitam-nos quando os seus jogadores acham que isso lhes convém, recusam-nos no caso contrário. Neste momento, a Crimeia é um peão, a Ucrânia pouco mais, e a Europa parece um grande perdedor. Claro que se ouvirem Durão Barroso, Passos Coelho ou mesmo Angela Merkel eles não lhes dirão nada disto. Também não lhes importa muito.


Pobre povo ukraniano ![image: Imagem intercalada 1]Maria
Vejam a crónica de ontem (dia 17) de Viriato Soromenho Marques, no DN. Creio que ele analisa a questão e, sobretudo, o papel da Merkel, com um rigor difícil de igualar… É só ir à página do DN: as crónicas estão sempre acessíveis.
Pode-se ler a crónica de Viriato Soromenho Marques em: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3755157&seccao=Viriato%20Soromenho%20Marques&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
Contudo, não creio que seja a Alemanha a ter a dianteira nesta questão. O novel governo ucraniano prefere os norte-americanos, que têm estado muito activos no terreno. Proponho a leitura do que diz Marco António Moreno em El Blog Salmón: http://www.elblogsalmon.com/economia/estados-unidos-se-lleva-el-oro-de-ucrania-pero-no-devuelve-el-de-alemania
E já agora vejam o relato de uma conversa telefónica entre Catherine Ahston e o primeiro-ministro da Estónia, “Uma conversa de pasmar”, com alguns elementos bastante significativos, em: http://aviagemdosargonautas.net/2014/03/12/uma-conversa-de-pasmar-divulgacao-de-uma-conversacao-sobre-a-ucrania-entre-a-alta-representante-de-politica-externa-e-seguranca-da-uniao-europeia-catherine-ashton-e-o-ministro-dos-negocios-estrang/
Claro que a propaganda chove de todos os lados. Mas o que conta ao fim e ao cabo é a força militar. Entretanto, os norte-americanos em breve voltarão à carga com o tratado de livre comércio com a Europa, para reduzir a União Europeia cada vez a uma zona de livres trocas. Quanto a Putin, ele sabe que tem de disciplinar os seus vizinhos, e fazer o papel de mau da fita para os dirigentes ocidentais. As populações é que ficam mal, como sempre. Esse é que é o grande problema que temos de encarar.
João, não puseste a ligação certa para o “Salmón”. Consigo lá chegar, claro, mas não sei a que artigo te referes.
De resto, é evidente que as perspectivas sobre a questão divergem. A minha e, pelos vistos, a de VSM, é a de que, antes das preferências do “novel governo ucraniano” (que, aliás, não me parecem assim tão claras, não se restringindo à conhecida ligação do seu PM aos EUA), importa perceber quem mais influenciou os acontecimentos e mais manobrou (e manipulou as forças políticas da oposição local e os “media”, em geral), contribuindo para a situação a que se assiste e cujos perigos para a segurança e a paz mundiais são inegáveis. E quem o fez, digo eu, foi a UE (= Frau Merkel).
Ah, e o que desde a “queda do Muro” sempre sustentei desmentir as teorias do triunfo do “grau supremo de civilização”, vulgo “economia de mercado” (ex-capitalismo) não é um indivíduo chamado Putin e o que congemina (na minha modestíssima opinião, que mantenho desde muito antes de o dito cujo emergir politicamente), é o que nele se corporiza de uma interiorização histórica, por parte de um povo – e, talvez, acima de todos, dos seus mais desfavorecidos e miseráveis integrantes – de pertença a um Império (isto numa brevíssima síntese): é aí que os Fukuyamas deste mundo – grandes especialistas em tudo – tropeçam, escorregam pelas suas eruditíssimas “análises”, vergonhosamente parcelares, labirínticas e curtas – que deixam despudoradamente à mostra o torcido canelame ideológico – e enfiam os dois pés no ávido sorvedouro da ignorância mais primária…
Tens toda a razão, Paulo. Obrigado pela tua chamada de atenção. É o mal de fazer as coisas cheio de sono. O link correcto é:
http://www.elblogsalmon.com/economia/estados-unidos-se-lleva-el-oro-de-ucrania-pero-no-devuelve-el-de-alemania