PRAÇA DA REVOLTA – DOIS URUGUAIOS NOTÁVEIS – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

Há cerca de seis meses, num artigo que intitulei Uruguai – um país  invisível, começava assim:  Se perguntarmos numa rua de uma cidade portuguesa a um transeunte o que sabe sobre o Uruguai, prevêem-se duas respostas maioritárias – ou não sabe nada ou fala no Peñarol ou nos futebolistas que jogam na Europa… Hoje, querendo falar sobre dois uruguaios notáveis, tenho que advertir que não me estou a referir a Diego Forlán, a Maxi Pereira ou a Edinson Cavani, nem a qualquer outro elemento da “Celeste”, gente notável de uma forma diferente daquela que quero hoje destacar. Os dois uruguaios a que me refiro são o presidente José Mujica e o jornalista, escritor e humanista Eduardo Galeano.

Se quisermos encontrar uma personagem   política, um supremo magistrado de uma nação, que seja a total antítese do presidente da República portuguesa,  José Mujica, presidente do Uruguai será o modelo desejado –  culto, de uma postura ética inatacável e com um passado politico honroso, é tudo o que Cavaco Silva não é. Tudo o que, depois daquela Revolução que aqui houve há 40 anos (lembram-se ou ouviram falar?) – se deveria exigir a um candidato ao cargo. Quem colaborou com a PIDE (ou de tal seja suspeito), quem dá provas de um embaraçoso défice cultural e de um ainda mais embaraçoso comportamento moral, ao mete ao bolso proventos de uma operação ruinosa para a Economia nacional, não devia poder estar naquele cargo.

Falando de Mujica e de Galeano, queria apontar uma questão em que estes dois uruguaios de grande qualidade intelectual e humana não estão de acordo – Galeano apoiou publicamente os movimentos de protesto e indignação que eclodiram por esse mundo:  Porque este movimento é um movimento tão lindo, que me encanta ver. Este se chama Movimento dos Indignados, e eles não se equivocam com este nome, porque afinal o mundo está dividido entre os indignos e os indignados.

Mujica diz simpatizar com os protestos, mas conclui que não conduzem a nada. Derrubaram alguns governos, mas não construíram nada. «Para construir, é preciso criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. As sociedades não mudam por causa de grandes homens, mudam quando os protestos se organizam, têm disciplina e métodos de longo prazo. Temos de revalorizar o papel da política. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam do velho, especialmente dos partidos, porque perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno porque não sabem aonde ir».

O mundo está dividido em indignos e indignados. A indignação é uma débil barricada contra a indignidade. Em Portugal (e não só, claro), os indignos estão em todas as cadeiras do poder; os indignados fazem manifestações, sobem escadarias, escrevem em blogues – a indignação pode ser linda, mas não é eficaz. Quando a indignação ganha disciplina, objectivos concretos, quando sabe onde quer ir, deu-se uma mudança qualitativa – a indignação e a revolta transformaram-se em Revolução.

Vou num dos próximos dias continuar a falar sobre Mujica e sobre Galeano – dois uruguaios que não são craques do futebol. Embora sejam adeptos apaixonados e Galeano um expert na matéria…

2 Comments

  1. Notável. Tudo quanto agrida o Animal Siva é imensamente saudável.
    Como classifica o político bem amado que é o Senhor Mojica há, de facto, indignos e indignados o que conduz a poder dizer-se que já não basta falar-se nem no lado esquerdo nem no lado direito do espectro político mas sim do lado de cima e do lado de baixo. Nos dias de hoje é fundamental passar a olhar-se, substancialmente, para quem está na mó de baixo para tentar reverter-se a triste situação de tantos.Se não for essa a estratégia que tudo terá de comandar estar-se-à a ser-se discípulo do tal Silva. CLV

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