A CANETA MÁGICA – A HISTÓRIA REPETE-SE?(II) – Carlos Loures

caneta1
(Conclusão)
A similitude entre  o bloco central (PSD, CDS, PS)  e alternância democrática e o sistema político-partidário que deu pelo nome de «rotativismo», é evidente. O texto de Guerra Junqueiro de 1896, de dez anos antes de João Franco começar a governar em ditadura, descontando o estilo truculento do autor de Finis Patriae, aplicar-se-ia com facilidade aos dias de hoje. Está   a repetir-se a história?

 O rotativismo foi experimentado na Grã-Bretanha desde meados do século XIX, com tories e whigs alternando-se no governo. Em Portugal, houve um primeiro ensaio do sistema entre 1851 e 1865, com os partidos Histórico e Regenerador. Em 1876, da fusão do partido Histórico com o Reformista, nasceu o partido Progressista, liderado por Luciano de Castro que defendeu nas duas Câmaras a implantação de um sistema bipartidário, com um partido conservador e outro mais liberal alternando-se no Poder. Os partidos Regenerador e o Progressista assumiram esse papel e o sistema funcionou até que o Ultimato britânico de 1890 provocou uma crise que se prolongou até 1892, impedindo o sistema de funcionar. No ano seguinte começou a derradeira fase do rotativismo. Em 1906, o Partido Regenerador-Liberal, liderado por João Franco, venceu as eleições legislativas. O rotativismo acabou. O Partido Republicano e o Partido Socialista (nada tinha a ver com o actual, a não ser o nome), sobretudo depois do vergonhoso Ultimato em 1990 ganharam força. As Cortes transformaram-se numa liça de lutas verbais (e não só). D. Carlos quis reforçar o poder real e encarregou João Franco de formar um governo de ditadura para pôr tudo na ordem.

Comparar o rotativismo com a «alternância democrática» faz algum sentido na medida em que ambas as soluções conduzem a uma situação efectiva de não-democracia, àquilo a que se usa designar por «partidocracia» e de que já aqui falei. Quando observamos a sanha com que PS e PSD se digladiam, se denunciam reciprocamente, não posso deixar de pensar que se trata não de uma comédia representada para povo ver, mas de uma luta real não pelos interesses nacionais, como nos querem fazer querer, mas pela ocupação de um poleiro de onde se pode chegar aos tachos, distribuí-los pela família e pelos amigos, não esquecendo os adversários, que amanhã, por certo, os substituirão no governo e retribuirão a gentileza. É que, como disse Junqueiro, não cabem todos na mesma sala de jantar. É o chamado «acordo de cavalheiros».

Os grandes grupos económicos apostam num ou noutro dos dois grandes partidos, embora não se lhes possa exigir fidelidade. Apoiam, contestam ou apeiam ao sabor dos seus interesses – convicção política é coisa incompatível com esses interesses. Poderá dizer-se que a História se está a repetir? Penso que não. Aliás, a afirmação de que a História se repete remete mais para o foro da superstição do que para o campo da análise científica. As semelhanças entre o rotativismo e este sistema de «alternância democrática» em que vivemos decorre, isso sim, da imutibilidade da natureza humana, essa, repetindo em cada geração os vícios, o egoísmo, a crueldade, herdados das cavernas. Quando uma classe, um grupo social ganha o poder, cria mecanismos para os conservar.

É difícil comparar Portugal e o Mundo de há um século com os de hoje. Há cem anos as economias nacionais eram compartimentadas e as respectivas políticas também. Há cem anos, os pobres viviam em tugúrios, grassava a tuberculose. Havia 80% de analfabetos. Hoje, cerca de 20 % dos portugueses possuem um diploma universitário. Como pode repetir-se a História em contextos tão diferentes?

Hoje, com tudo o que tem de fantasioso, a globalização torna-nos mais dependentes do que éramos então – se em Nova Iorque abrem uma porta e uma janela, nós constipamo-nos com a corrente de ar. Porém, hoje como há um século, há uma elite político-económica que apenas está dividida por questões formais e que, para preservar «valores» comuns, como o da prevalência dos seus interesses, encontra acordos tácitos que não necessitam de ser lavrados em documentos – pacto de regime, bloco central, alternância democrática, rotativismo… um partido aparentemente mais de direita, outro formalmente mais de esquerda (para dar o toque democrático), mas visando ambos o mesmo objectivo – conservar o poder – lutam pelo «poder». O resultado não precisa de ser combinado – ganhe quem ganhar, o poder dos grandes grupos político-económicos não será posto em risco. Hoje como há cem anos, governam partidos governados por gente afim. Há cem anos, uma elite de bacharéis e de negociantes endinheirados, hoje um escol de licenciados (uns mais do que os outros) dependente das multinacionais, das grandes empresas indígenas e, last but not least, das centrais de inteligência, dos centros de poder político mundial.

Agora que olhámos uma vez para o retrovisor, olhemos, de olhos bem abertos, as próximas três para a estrada que á frente se nos abre. Porque os beduínos devem ter razão. Semelhanças com o rotativismo de há cem anos, só esta – quando uma classe ou um grupo social atinge o poder, muda as regras do jogo de modo a ganhar sempre. Mesmo quando parece que perde.

Leave a Reply